Trajeito

Data 18/mar/2005

     É de muitos antanhos que a roupa serve ao homem. Serve-o menos em proteção. Mais, muito mais em representação. Ao vestir-se o homem se despe da condição de pura natureza. Atesta sua sobrelevação aos seres demais. Com a roupa acoberta seu estado animal. Seu pêlo e couro passam a pele, epiderme.
Talvez, a princípio, a descoberta dela fez-se por necessidade. Aprendeu o ancestral que o couro do bicho de que se alimentava dar-lhe-ia ao corpo proteção. Quanto mais foi engendrando outros recursos mais eficazes para esse fim, mais destinava à roupa a função de ornamento.
Então, ao vestir-se o homem despe-se de sujeito natural. Veste-se de sujeito social e, enquanto assim, é um permanente e dinâmico multissigno vagante. Por mais que não se dê conta, embora quase sempre o dê, ele pronuncia-se por suas roupas, seus trajes.
A evolução do traje tramita por larga, complexa e longa história. Nada no traje é indiferença e gratuidade. Aos escravos cabiam roupas rudes e grossas, cujos desgastes demandavam extensas durabilidades. Bastava cobrir-lhes algumas inevitáveis partes. Desnecessário que os pés calçassem. Que a cabeça cobrissem. Bobagem. Dinheiro a mais na algibeira. Escravo negro tinha carapinha e couro à prova de sol e friagem.
Às majestades, aos nobres, aos bispos, papa e padres se reservavam farta roupa, fina roupa, as quais, emblemáticas, pronunciavam uns rituais altivos, dados aos desígnios dos bem-aventurados por Deus-pai, Deus-filho, Deus-espírito santo.
Os trajes enunciando as senhoras madames sobre cujas finezas, sobre cujas delicadezas, sobre cuja tez acomodavam-se cambraias e sedas, ouro e pérolas, pelicas e cromos – solertes mulheres a ostentar e acobertar seus senhores.
As eternas mulheres damas. Prontas. Nunca em aparências inferiores àquelas. Sempre dóceis e amáveis. Trajes leves, livres daqueles arredondados armados até os pés. Vaporosas, resguardando-se de indecorosas. Sensuais transparências insinuantes. O bastante para que aqueles maridos acorressem a seus requisitados e insubstituíveis serviços.
Havia, sim, o seu contraponto. Onde os trajes menores atestavam a lida com a menoridade social. Ao contrário daquelas suas próximas, eram tidas e havidas por putas da zona do meretrício. Andavam seminuas, bêbadas. Quase sempre por desilusões amorosas, maus tratos, abusos. Putas mal pagas e sujeitas a toda ordem de sacanagem. Cadelas dadas a matilhas de perdidos e mal-amados.
Sim, parece definitivo. É vestindo-se que homens e mulheres se despem. Atraem-se mutuamente os pássaros por seus trinados. Os pirilampos por suas lanternas. Alguns animais por seus urros e berros. Outros por especiais cheiros. O que não procede entre homens e mulheres. Dos múltiplos fatores de atração entre si, o traje está entre os principais.
Todavia, o traje entre os homens faz muito mais que atrair. Traça status. Demarca tribos. Etiqueta estados. Pronuncia ideologias. Delimita categorias. Há o terno, terno traje dos que se fazem eternos nos comandos de poder. Indumentária magna a denotar os eternos comanditários de sua sociedade-brasil. Tanto que, ao ter alçado a escala, a farda deu lugar ao terno.
A indumentária de gala a que se submetem homens e mulheres, porque assim prescreve o figurino para aquela figuração. Os trajes peculiares com os quais cada nação se estabelece; com os quais cada região se singulariza. Os trajes irreverentes e moleques permanentemente mutáveis da eterna juventude avessa aos ternos, às togas, aos tules e longos. Vão com seus percings, suas tatuagens, suas exóticas estampas.
E há os trajes dos incuravelmente trágicos; os trajes dos definitivamente sádicos; os trajes dos irremediavelmente frágeis; os trajes que põem a todos ávidos; os trajes que se tornaram por todo o sempre hábitos. E os trajes que ostensiva e propositadamente são ultrajes.

Rex

Data 11/mar/2005

     Uma sua dobermann, certa feita, afabilíssima com todos da família, súbito, surgiu, boca espumada, cambeteando. Os olhos em brasa. E de imediato pôs-se a se debater, tremendo, como se sob o efeito de um alucinógeno. E não era menos
O experiente veterinário que do habitat da cadela bem sabia diagnosticou e rapidamente pôs-se a lhe aplicar o antídoto, antes que fosse sem tempo. Ela havia, seguramente, mordido um sapo, que, agredido, expelira seu veneno provocando aquela quase tragédia. Fatal, se ao veneno não se tivesse dado cabo.
Sob a ação do medicamento, ela remansara num desfalecimento restaurador, com que certamente, recobrara as energias de uma cadela vigorosa, indômita, agressiva e carinhosa.
Não fora essa a única vez. Houvera duas outras. Teimosa, cabeça estreita, repetira o deslize. Por isso, vivia-se a rastrear o quintal, como se à procura de minas devastadoras: sapos. Todavia, por mais precauções que se tomasse, sempre encontravam eles uma fresta pela qual transpunham-se da rua para o quintal. Por mais que fossem removidos para lugar certo de que não retornariam, o quintal continha sapos.
Havia outros cães na casa. Que, entretanto, não se indispunham contra eles. Decerto, no princípio, feito o reconhecimento, deram-nos por inofensivos, não-inimigos. Logo, que transitassem, passassem à larga. O que não admitia o impulsivo temperamento da sua dobermann.
Mas, enfim, não foram os sapos que a mataram. Dos venenos deles fora a tempo devidamente livre. O que não puderam fazer contra o câncer de mama que lhe foi tomando, lhe imprimindo sofrimentos inestancáveis até a morte. Quando ele passara quase toda a noite em claro a apascentá-la.
Os sapos ficaram. Em vão removê-los. Mas matá-los, nunca. Vinham decerto atraídos por um quintal benfazejo. Recanto aprazível, saudável de insetos. Não se podia admitir que acontecesse uma invasão. Eram não mais que cinco ou seis deles. O quintal os comportava. Disistira da remoção inútil. Apenas a redirecionara. Não os deixava permanecerem no avarandado. Eles insistiam. Súbito eram encontrados dentro dos bebedouros do cães. Refestelados à fresca da água. Levava-os para o quintal. Passados alguns dias, a cena se renovava. Eles foram ficando. Menos insistentes.
Em certas ocasiões, que a natureza deles sabe por quê, punham-se a coaxar. Punham-se a cantarolar. Dizem porque chamam chuva. Porque o sapo cururu da beira do rio, sente frio (embora o calor imenso). E quando se prestam a esse destino, são comedidamente pontuais. Tamborilam seu canto feito cigarras fossem, de tão persistentes. Tal que acontecera de passar a ouvir esse marimbar canoro ao pé de seu escritório dias e dias.
Ilusão auditiva? Decerto o canto de um canto do quintal percutia nalgum ponto do cômodo ricocheteando ao seu ouvido. Comentara o fato em mais de uma ocasião em que todos passavam juntos. Ninguém parecia dar importância ao que, certamente, consideravam algo banal. Mas vira, num lampejo de disfarce, furtarem-se os olhos do filho mais novo. Mas soubera também, naqueles efêmeros segundos de olhares instantaneamente trocados, que o filho percebera ter sido pego em ato oblíquo.
A constância fê-lo descobrir. Tratava-se de um sapo dentro do cano escoador de água da chuva subterrâneo ao piso de seu escritório. Decidiu não retirá-lo. Que ficasse. Aquele canto inconstante, certas manhãs e tardes, tinha um tom de acalanto. Por certo para alívio do filho que, embora nada dissesse, parecia ter idêntica opinião.
Eis que, numa noite já andada, dera-se com um sapo farto dentro da vasilha de ração dos cães. Seria possível? Era. Retirou-o. Tomou de alguns grãos e atirava-os a ele que, como aos besouros, apanhava-os com sua elástica língua relâmpago.
Então aquele sapo ficou sendo o Rex. E toda noite se queria saber se Rex já tinha ou não chegado. E toda noite Rex chegava para aqueles besouros certos e fáceis.

Vacilão

Data 04/mar/2005

     Vira-se mais de uma vez explodir. Um enfarto. Um derrame. Tantas foram as angústias. A dor de mãe/avó, cordata e impotente. Além de mulher, as forças debilitadas por crônicas doenças instauradas pela velhice.
Pobre filha. Por que fora capaz de submeter-se a uma condição danosa assim. Infância tão feliz. Que ainda desfrutara dos encantos das brincadeiras e cantigas de roda. Na escola. Nas esquinas com as meninas. As famílias na calçada curtindo a noite calorenta. Gozando o luzeiro das estrelas. O remanso da lua mínima, das luas intermédias, da lua máxima.
Dormia seu sono santo. Com o acalanto dos beijos e as recomendações aos anjos. Ia assim rompendo, etapa por etapa, a formação de donzela zelosa de seus atributos e dotada dos predicados apropriados a prenda com pouco pronta aos cortejos, aos insinuados desejos. Prenda a ser digna de conquista. Exposta e resguardada como um bem a se possuir, tendo-se em conta um conjunto de valores certificáveis.
Filha de berço. A mais completa expressão então em moda com que se qualificava uma formosa e recatada mulher. Orgulho de pais presentes durante toda a trajetória daquela rosa ou magnólia, desde a fralda à saia de roda. Cuidados tantos tão poucos para o fim destinado: o esplendor em sua forma vigorosa disposta ao seguimento da vida.
Durante, feito toda mãe, fora pretendendo algures para uma filha assim esmerada. Sonhava-lhe passarelas. Que não lhe fosse o mundo o das cinderelas, todavia bem-aventurosa na sua porção maior, que faria por tê-la merecida: colhe, quem planta.
Elucubrações de mãe prestimosa estabelecem horizontes povoados de benfazeja vida. Cujo dom nada inveja situações nirvânicas. Não que mãos beijadas fomentem tais virtualidades. Entretanto, que não lhe pesasse demais o fardo fatal da existência.
Qual. Pouco é ainda o máximo empenhado pela consecução de tais benesses. Feita, inteiriça de vida, à flor cabe a decisão de suas negativas, relutâncias e entregas. E pode dar-se também que seu dom não considere tamanha tributação berçária empreendida, para que o ideário de mãe, que se demonstrou, não passasse de um imaginário subsumido.
Qual. O arrocho forjado pelos apelos da insensível condição humana talvez a tenha induzido a conduzir-se de modo precipitado. E foi montando em quantos cavalos passassem, atormentada por chegar ao porto seguro do bom pão e melhor vinho da vida garantidos.
Aterrissou nessa corporação cuja história vai crivada de heroísmos pouco percebidos e truculências muito vistas. Assentou praça. No roldão de profissão investida de conflitos e aflitos encontrou tempo de apaixonar-se por um mano. Logo, entre atos e beós casaram-se.
Euforia esfriada, a intolerância assumiu a truculência e os espancamentos externos estenderam-se para dentro do lar. Anos, década a fio o pó, o batom, a maquilagem acobertando os estragos. A mulher resistia. Havia os filhos. O afeto pelo pai.
Todavia, logo a bruteza passou a desconsiderá-los. E o espancamento estendeu-se a eles. Que manifestavam defesa à mãe. O pânico tomou-as. Ficaram meninos perturbados. Peça nova ao sofrimento geral.
Anos, anos, década indo assim. A mãe/avó no seu padecimento, debaixo de sérias ameaças, ante a desgraça desabada sobre filha e netos. Também a ela o terror continha. Havia a sentença de consumação da desgraça, caso buscasse abrir o fato com qualquer. Tanto ela quanto filha e netos.
Nunca havia presenciado os atos. Até aquele dia de imprevista ida à casa deles. Parecia um pandemônio. Súbito, deu-se consigo entremeando-se entre o carrasco e os espancados. E pela única vez levou um baita soco no rosto. Pois caiu exatamente ao lado do revólver dele pousado na mesinha de centro.

Cabeça

Data 18/fev/2005

Quanto à irmã Dorothy Stang, de certo o mote que se lhe deu para sua morte a mão armada, para que finalmente cedesse à sede de crime e possessão, foi tornar cidadã (tristeza!) brasileira: coisa mais vã.
Pronto. Estava pronta para ser exportada para a pátria dos mortos. Que se dera para mulher-freira subversiva metida a pastorear gente contra agronegócios tão nobres, sob a bandeira de que os mesmos às suas exclusas ovelhas eram acres.
A petulante irmãzinha daqueles indigentes invasores de terras de ingentes apropriadores, senhores; a agente da Igreja esquerdista agitando a escória atrasada e ladra!
Pagou pelo pouco caso que sustentara, mesmo que a história amazônica recente lhe informasse o destino de sujeitos que se deram a tais propósitos.
Idos os momentos de cenas de ira e indignação; de lamentações induzidas por sentimentos de profunda dor e consternação de impotência; de acusação ao governo federal por omissão e descaso, tudo passaria. Os assassinos ficariam acobertados pela enorme e enigmática entranha da mata.
Bem sabia a agitadora. Até por isso convencera os amigos a firmar compromisso para o seu sepultamento (quando assassinada!) de seu corpo morto. Procedimento decorrido das veementes ameaças. Fatos repetitivos como a sucessividade entre o dia e a noite. Tantos que sem conta. Perdidos no esquecimento urdido pela exigência de constantes e múltiplas atividades pela sobrevivência que a vida impõe.
Sujeita feita de pura teimosia. Por que abdicar de sua faustosa vida norte-americana: primeiríssimo mundo rico e poderoso, para vir meter-se onde não fora chamada, onde não lhe dizia respeito? Lugar completamente avesso ao de sua origem. Isso de opção pelos pobres e oprimidos é coisa de estúpidos e anacrônicos bolchevistas não ainda emendados. Não obstante a completa ruína do socialismo marxista, como o fim da ex-união soviética; como o capitalismo já mandando na economia da China do ex-camarada Mao; como o muro de Berlim arrasado.
Ao sertão amazônico não cabe a gringo nenhum vir dar a seringueiros e castanheiros palpites e idéias infelizes de ocupação de terras que estão sob o domínio de gente de posses. Que, portanto, têm recursos e formas de bem explorá-las. O homem nativo daqui é bugre pronto apenas a trabalhar nos eitos.
Madre Maria? Stang! Desafiando a ira de brasileiros da gema amazônica! Pondo banca de questionadora destemida da vida alheia. Ora, estava pedindo pedestal! Uma glória como a daquele outro traste. Todavia, Chico Mendes, sim, criaria mesmo toda essa história viva em torno de si. Era homem dali. Sangue da mata amazônica. Sabia a palmo do espaço de que era filho. É certo que muito mais perigoso. Homem-líder daquele povo. Vivia como eles. Um pobre. Morando num quase-casebre. Era o que pregava. Perigosíssimo, pois! Matá-lo foi muito mais difícil. E não eram à toa os muitos medos que demoraram a façanha de mandá-lo ir defender seringueiros e castanheiros no inferno! Ninguém queria pôr o guizo em seu pescoço.
Mas quanto a essa aí… Estupidez tanto tempo. Tudo logo acabaria. Esses meninos de tiro-de-guerra do exército para aqui deslocados estão mesmo completamente deslocados. Bagres fora d’água. Não sabem nem mesmo de que se compõe a mata.
Aos teimosos o recado está dado. Aqui mandamos. Como no Rio manda o tráfico.

Adoção

Data 25/fev/2005

     Quando menos se dava conta, ela se deixava ver. Aparecia a distância. Mas fixa e francamente interessada nele. Não perdia uma estada sequer. Era assim. Quando ele saía-se de si e buscava o entorno, se lembrava de ver em que canto ela estava. Nalgum. Tinha certeza. Menos por presunção. De fato, porque ela não perdia nenhuma vez. Discretíssima num seu canto escolhido a distância. Olhos pregados nele.
Aquilo não o incomodava. Envaidecia-o muito menos. De algum modo, intrigava-o. Postada a certa distância e semi-exposta, não impedia, contudo, de que percebesse tratar-se de uma garota. Razão suficiente para que descartasse qualquer interesse de natureza afetiva-sensual.
E a menina não o perdia. Todas as manhãs de sábado. Imediatamente lembrava-se dela ao chegar. Entretanto, não a via. Perscrutava. Nada. Ia preparar-se. Quando a esquecia. Vestia-se devidamente. Então, punha-se a alongar-se. Enquanto assim, sabia que de súbito semi-apareceria nalgum ponto.
E desse jeito sendo, um dia, terminadas as baterias de alongamento, antes de entregar-se à piscina, acenou-lhe duas, três vezes. Ela não correspondeu. Terminada a natação, não a vira. Sábados sucessivos, limitou-se ao habitual. Certa feita, tornou a acenar. Uma, três. Aí ela correspondeu. Um aceno acanhado e um esboçado sorriso.
Foi por aí, feito um índio, um bicho arredio, pacientemente concedendo confiança. E vindo para perto. Aos poucos. Encurtando distância de aceno a aceno. De sorriso a sorriso. O máximo de concessão fora passar a sentar-se em um banco sob uma árvore muito próximos da piscina.
Agora, ela já lá estava, quando ele chegava. Ao ir-se, lá permanecia imóvel. Uma estátua feita. Mutuamente acenavam-se, sorriam-se. Ele paramentado, alongava-se e antes de atirar-se à água, trocava aceno e sorriso. Natação acabada, uma hora depois, alongamento, sorrisos e acenos de despedida.
Num certo sábado quebrou essa rotina. Depois de alongar-se, foi até ela. Que, surpreendida, subitamente empalideceu, agitou-se, fixou o solo, recusando-se a encará-lo. Ele estendeu-lhe a mão sem obter correspondência. Disse seu nome e não obteve o dela fixa em sua mudez. Disse-lhe tchau e foi nadar. Ao sair, não a viu. Temeu espantar a menina.
Todavia, sábado seguinte, lá estava. Mal acabara de alongar-se, ela levantou-se do banco. Tropeçou alguns passos em sua direção. Parou, ficou fixada nele. Instantes de hesitações. Foi a ela, estendeu-lhe a mão. Ela aceitou. Cumprimentou-a com beijinho, beijinho. Sorriram. Ela, enrubescida. Ele insistiu em lhe saber o nome. Insistiu. Então, em fim, uma voz engrolada soou mal pronunciando seu nome. Em seguida tornou ao banco num andar desengonçado de quem parece se equilibrar com dificuldade.
Então ele conheceu tratar-se de uma garota com deficiências. Foi a ela. Sentou-se. Insistiu em restabelecer a conversação. Ela era filha da zeladora do clube. Órfã de pai. Ia de casa para a escola. Desta para casa. Um perua prestava-lhe esse serviço. Queria ser médica. Embora não confessasse, tinha vergonha de sua condição. Vivia reclusa. Um dia de suas sorrateiras andanças, viu-o preparando-se. Os alongamentos. Os ajustes na toca e nos óculos. As nadadeiras (de um azul muito bonito!). Depois, a sua natação. Achava lindo aquilo tudo! Daí ficar pelos cantos expiando-o.
Convenceu-a a entrar na piscina. Ele a ajudaria a aprender. Ela ficou entre temerosa e eufórica. Falaria com a mãe. No sábado seguinte, já pronta e a mãe o esperavam. Passou a ser assim A felicidade extravasava pelo semblante e o corpo todo de Olga. Ele, agora, vez em quando, enquanto ela esbatia-se toda em sua alegria n’água, postava-se numa das bordas da piscina e ficava pensando na filha que não tivera e que podia ter sido.

Uma cidadezinha qualquer

Data 11/fev/2005

     Uma cidadezinha. Todavia muito mais que uma cidadezinha qualquer. Havia, sim, bananeiras, laranjeiras, pomares, cachorros e burros que, de vagar, devagar iam, vinham. Havia, entanto, muito mais. De tanto não ter nada, tinha muito mais. Cidade mesmo, não quase.
Tudo à base de postos. Um posto da prefeitura municipal que ficava noutra cidade. Aliás, ficava na cidade. Um posto policial, que a delegacia de polícia também. Um vereador sem câmara, que era daquela cidade. Um posto telefônico em que uma telefonista executava as ligações e as recebia. Um posto de correio sem telégrafos. As correspondências –as cartas –, ainda que demoradas, aconteciam.
Uma igreja católica apostólica romana, cujo padre daquela cidade aparecia, algumas vezes, para os serviços religiosos. Porém, uma protestante atuava com desenvoltura (e os pastor residia ali)
O índice de que era um povoado do estado paulista: uma escola primária, e uma escola secundária de ensino ginasial e colegial. Todos funcionários do governo do Estado. A cidadezinha os privilegiava. Eram as únicas remunerações estáveis e constantes. Crédito no comércio: algumas vendas, um mercado, um açougue de carne de matadouro, alguns botecos, algumas lojas de bijuterias e tecidos; os solteiros, bons partidos, cobiçados e disputados.
Eram, pois, os professores os sábios do lugar. Ninguém se atrevia publicamente defender uma posição, senão citando nominalmente um deles. Eles, que não desdiziam, bem sabiam do precário saber que exerciam.
Por circunstância, talvez, pelo precário de ser, pela inextrincável condição do simples, ali, o ensino, se fizera anos, anos antes como um sistema, de fato, interativo. Professores e alunos, pais e não-pais conviviam permanentemente. Na escola. No açougue. No mercado. Nas vendas. Nos botecos. Na quadra esportiva da escola. No campo de futebol. Nas festas religiosas, pagãs, folclóricas, sociais.
Não-cidade, pois sem energia pública, não obstante circundada por dois enormes e históricos rios; pois sem serviço de esgoto, de água encanada e tratada. E os dois grandes rios ali, tão perto, que, quando vazavam nas cheias, quase tomavam algumas ruas. As ruas se faziam, muitas delas como se fazem caminhos naturais pelos assíduos ir e vir de homens e animais.
A iluminação pública precariamente se fazia à força de um gerador a óleo diesel. Fragílima claridade mal tingindo a escuridão da noite, cuja abóbada descortinava um céu de estrelas e luar visto assim em lugar algum. Ali as estrelas pareciam sussurrar de tão fulgurantes. A resplendência de luar inigual. Um imutável sorriso esplêndido. Aquelas tíbias lâmpadas de baças luzes não eram capazes de ofuscar aquela plenitude de luar de sertão.
Não-cidade. Pois onde diziam ser o seu centro (quanto mais então nos seus arredores), ouviam-se os grilos, as cigarras. Os vaga-lumes ziguezagueando seu pisca-pisca esmeralda.
O ar feito de brisa ou leve vento das noites de verão fortíssimo recendia o inebriante aroma de mata. Que com os rios e o muito após os rios aquele povoado circundava.
Não-cidade. Pois seus habitantes, econômica e culturalmente simples e remediados. Dois ou três abastados. Nada de os necessitados, tampouco mendigos. As divisas se faziam por cercas de balaústre ou tabocas. Dormia-se com janela à brisa. Não havia notícia de ladrões. As festas culminavam com bailes de terreiros em barracos armados com bambus e lona.
Mas a não-cidade continha traços de cidade: havia pessoas proprietárias de automóveis. Havia combis-lotação. Havia camionetes-carreto. Havia um posto de uma empresa de ônibus cuja linha ligava a cidadezinha à ultracivilização.
Depois, a não-cidade foi tomada por megaempresas que, em pontos de seus rios, erigiriam grandes hidrelétricas. A cidadezinha, desde então, envaideceu-se. Deu pra pabulagem: logo, logo se tornaria uma grande cidade grande.

Lagarticídio

Data 04/fev/2005

     Assaltou-lhe de súbito o mundo de destroços reiterados à saturação pela imprensa. Viera-lhe, ali, ante aquele minúsculo episódio, imagens das mais recentes catástrofes cujas conseqüências foram fatalmente as matanças colossais.
Passou-lhe recente tragédia desabada sobre os povos asiáticos. Aquele descomunal gigante, muito mais que Adamastor, enfurecido, soprando água sobre tudo, contra todos, sobre todos. Mal foi possível o salve-se quem puder.
Mar amansado por sua própria exaustão. Bicho resguardando-se em sua calmaria, foi que se pôde, então, dar começo ao dimensionamento do estrago. Devassa completa. E o número de mortos, dia a dia, semana a semana, a cada achado, aumentando de forma desconcertante. Mais de centena de milhares de vidas humanas (não contadas as outras).
Os mortos amontoados, esparramados em meio aos destroços. Eles próprios destroçados. Depois, corpos empacotados postos em rasas valas enfileirados. Valas abertas com escavadeiras próprias a abrirem buracos destinados a assegurarem sanidade à vida. E valas e fileiras de corpos embrulhados. E valas e fileiras de corpos embrulhados.
Esvaído o tsunami, o processo mental metafórico trouxe-lhe o genocídio no Iraque. As centenas de milhares de mortes praticadas de toda ordem. Os gigantes destroçadores são outros. São os monstrengos arrasadores. São os homens-bomba. São as degolas gravadas para exibição.
Ah! Iraque, Palestina, Israel, Egito, Iran, Estados Unidos da América do Norte! Por quê? Por quê!? E até quando?! E as respostas que lhe dão pelos jornais, pelas revistas, pelas entrevistas, pelas declarações não lhe respondem.
E em seguida o acomete os campos de concentração anti-semitas. Homens. Mulheres. Velhos. Crianças. Centenas de milhares. Aprisionados. Amontoados em toscos, rudes e fétidos salões esperando a vez de ir para os fornos cremadores. O horror ritleriano.
E desse conglomerado de judeus aprisionados para os fornos de Auschwitz é catapultado à Guerra de Canudos. O genocídio em Monte Santo. O amontoado de mulheres com seus filhinhos, cuja foto histórica ficou famosamente denominada “das prisioneiras”. Foram remetidas para as prisões de Salvador, enquanto os seus homens eram friamente fuzilados.
E de Canudos para Beslan. A escola de Beslan. As crianças de Beslan fuziladas dentro de sua escola! Fuziladas porque os seus assassinos adultos não se entenderam. E por isso mataram crianças, das quais se diz serem sem juízo. Os adultos, que têm juízo, mataram crianças!
E de Beslan, viu-se arremetido à chacina do Carandiru. Os corpos mortos. Uma centena deles. Depositados em urna de câmara fria a cadáveres estampados pela mídia. Daí, à chacina da Candelária. Crianças de rua assassinadas ali mesmo, onde dormiam, ao relento do pátio da igreja da Candelária.
O episódio minúsculo que revivificara-lhe tais tragédias: descobrira dois substanciosos ninhos (nunca os vira antes em sua vida) engenhosamente construídos entrelaçando as folhas de uma palma de seu decano coqueiro. Invólucro em forma de tubo resistente, seguramente protetor. E das demais folhas do seu pródigo e generoso coqueiro se alimentam.
A solução que relutara em admitir era extirpar os ninhos e matar as lagartas. Os ninhos fervilhavam de lagartas e filhotes. Decidira queimá-los. Usara jornal. Muito e muito jornal. Fogueira de jornal. E elas, às centenas, se contorciam agônicas.
Um espetáculo deprimente. Sentia-se um criminoso. Um algoz alemão jogando bandos de judeus nos fornos de Auschwitz.

 

Reencontro

Data 21/jan/2005

     Manhã estabelecida. Desjejum. Higiene corporal cumprida. A força mecânica do hábito, então, o fez ir, em seguida, saber da caixa de correspondência incrustada ao muro, se já havia os jornais.
Era sábado. Dia em que o aprazava dedicar-se a leituras esparsas e acumuladas. As quais compunham-se de jornais, revista, alguns periódicos de cunho técnico-científico.
A rotina se cumpria. Havia os jornais. Havia a revista semanal. Mas ainda, algo, ficara mesmo pasmo de surpresa, algo incomuníssimo, de tão antigo, de tão raro, escasso, se não ainda completamente abolido.
Há tanto tempo desaparecera de sua convivência. Dele e de toda a gente. Perdera-se no esquecimento aquele utensílio. Não mais soubera que quaisquer outras pessoas ainda o praticassem. Pertencia a um passado nem tanto remoto, todavia consumado.
Mais que o ímpeto de logo conferir do que se tratava que tivesse levado ao recurso do que talvez fora o mais eficiente mecanismo de preservação do sigilo, viu-se remetido subitamente aos quandos em que muito o praticara.
De escolar a jovem maduro. Com um ou outro amigo, poucos, mantivera uma certa freqüência de contato por essa via. Todavia seu uso intenso fez-se mesmo em seu relacionamento amoroso. Nas ausências sua e dela. Ou quando separados por desentendimentos quase sempre movidos a ciúmes. A carta impecável. Especial papel condizente. Belo envelope em sua moldura traçada em verde e amarelo. A carta com seu texto. A letra em seus traços caracterizadores; o léxico portador de revelações, insinuações, declarações, desolações, súplicas explícitas ou veladas. A sintaxe expressando um certo estado de ânimo; um certo estado de desânimo; um certo estado eufórico revestidos de poucas ou acentuadas reflexões.
Também se entregara à elaboração delas como um escrivão de sua avó. Não-alfabetizada, ela acumulava as cartas recebidas dos parentes pacientemente. Organizadamente. Embora não lesse, sabia de cada qual o portador. Vivia em fazenda. As férias levavam os netos para lá. Quando então ele cumpria a tarefa de pôr em linguagem escrita as respostas dela.
Consumiam duas, três noites nessa tarefa, que o acúmulo de cartas aguardava. Era um ritual. Ela dizia, ele escrevia. Ela pedia para ouvir. Retificava várias vezes. Certas palavras. Certas colocações. Tudo primeiro era rascunho. Escrevia e depois copiava cada carta. Ela guardava cada rascunho. Respondia que porque gostava de saber a quantidade de recebidas e respondidas. Havia tantas amarelecidas, enodoadas, quase apagadas. Caixas de camisa amontoavam-se sobre seu guarda-roupa armazenando-as.
A avó há muito se passou. A popularização do telefone foi rarefazendo as cartas mais e mais. E a crescente e irreversível popularização do correio eletrônico instituído pela internet, se, por um lado, impede a extinção por completo dessa antiga forma de correspondência, por outro, descaracterizou-a quase inteiramente.
Finda a reminiscência, deteve a atenção no envelope tradicional subscrito à mão em tinta azul de esferográfica.
O novo impacto deu-se ao ler que o remetente era o grande poeta do País sobre o qual elaborara um trabalho. Na carta ele tecia elogios ao longo ensaio que o destinatário compusera sobre sua obra poética e que fora publicado. Dizia-se muito grato e lisonjeado. E aproveitava para apresentar suas discordâncias com alguns pontos da análise.
Ao final, após sua assinatura, em PS, escrevera o seu e-mail, “para eventuais correspondências”.

Das (im)ponderabilidades

Data 14/jan/2005

     Súbito, razões atmosféricas, ou cósmicas, ambas que sejam, levam a Terra àquelas fúrias insanas, ante as quais os paradeuses (os homens) remoem seu inconformismo: sua enorme impotência, por mais que tenha feito, por mais que faz e fará. Tornados. Ciclones. Trombas d`água. Vendavais. Convulsões vulcânicas. Tsunamis. Arrasadores todos.
Fenômenos tais nada consideram, quando se deflagram. Consideram é expressão de linguagem humana. A natureza não cogita. Logo é em si mesma fatos. E em fatos não cabem afetos. Não cabem conceitos. Cabe o imponderável. Como admitir um tsunami às vésperas do Natal? E acontecer justamente em regiões da Terra cuja concentração da miséria prepondera?
A Natureza se fez. A Natureza se refaz. A Natureza se construiu, se desconstrói, se reconstrói. A Natureza é mutável. Embora pela aparência não o seja.
Certo, sua independência em relação aos seus seres talvez não seja como sua indiferença. Pois as intervenções dos homens imputam-lhe ínfimas modificações, quando comparadas aos tufões, às erupções vulcânicas vultosas, aos tsunamis.
Entretanto há um conjunto de reações dela catalogado pelos homens ante às intervenções contínuas, devidas ou indevidas que lhe são feitas. Inumeráveis são. O qual consta ser desde o destrambelho climático, a desertificação e esterilização de solos às mutações genéticas e o desaparecimento de espécies.
Então preservar a natureza é o lema consensual que o homem se exige. Conquanto cumpra-o minimamente. Conservar a natureza tal qual. Que é aos olhos humanos benigna, ainda que bruta. E, quando em mudanças bruscas e descomunais, estúpida. Matriparricídia.
Por princípios: nunca desmatar, cortar árvores; nunca poluir rios, mares; nunca aprisionar ou matar animais (“preservar a fauna e a flora”); incentivar a reciclagem do lixo; incutir o amor às plantas, aos bichos; incutir o respeito à vida humana, animal, vegetal, mineral; instruir quanto às múltiplas relações de elementos, procedimentos, situações formadoras da cadeia de poluência.
Deu-se que a instituição em que atua como dirigente conquistou uma melhoria há muito pretendida. Tratava-se de um bem coletivo da maior importância, à vista da finalidade a que se destina.
A cobertura do imóvel exigia, se não a extirpação, pelo menos uma amputação de parte considerável de um ipê decano. Algo, de chofre, inadmissível. Em se tratando de arborização, era aquele ipê a fina árvore da instituição. Gerações de estudantes viram-no crescer e florir amarelo; florir amarelo e crescer até seu máximo tamanho. Depois, flores amarelas de inverno substituindo a sombra verdade de verão. Anos. Décadas assim. Tornou-se um ipê de todos. Um verdadeiro ente de estimação. Como um cão. Como um gato. Como um canário. Um papagaio. Vê-lo desfigurado, nunca. Quanto mais extirpado.
Todavia, assim sendo, a melhoria era inviável. E sua viabilização, posta em ameaça. Ficara entre perplexo e irado. Via-se ante a antiga sina: destruir para construir. Não podia conceder.
Então entrou o outro procedimento antigo: consensualizar para dividir. E o antigo, mas nada decrépito ipê teve de ver decepados alguns de seus vigorosos membros.
Então pensou: console-se, meu caro, está mutilado, todavia vivo. E sua capacidade de regeneração é uma verdíssima esperança.

Aqueloutra voz

Data 12/jan/2006

Aquela voz tomando conta dos seus ouvidos. Aquela voz tomando conta dos seus sentidos. Aquela voz rastreando os seus olvidos. Aquela voz vibrando o profundo medo de seus tímpanos. Aquela voz desencavando do fundo sótão de seus segredos. Aquela voz bulindo com seu sossego. Aquela voz que adeja, feito aleluia em lâmpada, seu pensamento. Troava. Um buliçoso movimento de seus anseios; de seus desejos; de seus crônicos receios. Nada podia contra aquela voz. Que imperava impávida. Com seu vezo inconfundível. Propalava-se com toda a fibra de profundo rancor. Cáustica rispidez vociferando seu ácido vitupério.
De certo a querer, com seu tom, com seu som implodir quaisquer resquícios de índices dela promanantes. Arrasar seu sempre possível pousar em algum acolhedor lugar. Uma voz a perseguir com ódio tenaz sua estada em vida sob a mais discreta e inominável favela ou ruela, ou gueto, ou cafundó de mato ermo.
Voz que o queria como alma viva. Como se somente a ela a vida fosse desmerecida. E que devesse ser banida a quem quer que fosse, que, como ele, a desmerecessse, a trouxesse ao centro solar do questionável e a pusesse em dúvida. Que contra ela dissesse um talvez, um quem sabe não seja exatamente assim.
A sobeja voz. Aquela que se sabe, que se soube sempre capaz de; (incapaz de). De quem sempre se ouve, se ouviu sem igual. Modéstia à parte imortal. Pedestal às quantas gerações por formar-se. Para o que era insubstituível ouvir seu timbre, captar sua inigualável entoação. Aquela voz para assombro e medo dos que, menos que ele fizera, ousassem pôr em dúvida sua vibrante fibra. Uma cavilação tida e mantida.
Não se podia lhe negar certos indiscutíveis predicativos (certos de que deveras não admitisse). Posto que, se coragem houvesse, como ousadamente medroso fizera, não se podia eternamente aceitá-la inquestionavelmente unânime, infalível.
Outras vozes havia. Que, entretanto, já na apresentação carregavam o atributo de inferiores, menores, à vista da magnitude reiterada dela. E sua desgraça maior fora indagar por que uma voz deveria ser considerada em comparação com outra voz. Por que uma voz, essa voz, esta voz, tal voz, acolá voz não poderiam ser consideradas em si mesmas. Tidas e havidas a partir de seus caracteres, os quais as tornavam peculiares e diferentes entre si. E que, evidentemente, não fossem dadas como de protótipo, de estereótipo, porque já a voz de deus diz que há os que gostam dos olhos e os que gostam da ramela.
Contornar a ira da voz poderosa ferida em seu orgulho (estúpido) lhe era posto como uma obrigação imediata. Encontrasse logo a forma, sem sofisma, convincente. Aplacar sua apoplexia. Ambígua voz a espraiar estados gerais. Sua própria volubilidade caprichosa. Indo volatilmente da volúpia à danação. Do uivo à mudez. Do gozo à dor. Da perplexidade à indiferença. Da abulia à curiosidade exacerbada. Das carícias inigualáveis às torpes brutezas. Das asperezas espúrias às mais afáveis amabilidades.
Seus vitupérios implacáveis eram circunstanciais, ocasionais. Por mais que se não creia, e não se acreditasse, dava-se em certas outras ocasiões a relatos inebriantes. Por perplexos os que quase há pouco presenciaram rudezas pudessem ficar. Relatos radiantes. Pelos quais perfilhava toda sorte de ternuras, belezas, amores, paixões e encantamentos.
Voz incapaz de se dar ao autocontrole e entregar-se a um único e resumido caminho. Que fosse o escolhido como próprio e certo, extraído de longa e complexa reflexão.
Não. Movia-a a cor da vida. Tórrida ou terna; ou terna e tórrida, conforme se lhe mostrasse o instante. Se precaução houvesse, e sutilmente se percebia que sim, fazia-se instantânea e concomitante à ação em encadeamento. E raro era o arrepender-se. Que, não obstante, acontecia.
Eis que o vulcão lavracento, em instantes, decorrido apenas o súbito e intenso silêncio demarcador fugaz da transformação, torna-se voz de brisa em milharal; voz de brisa em pinhais; voz de brisa em cálidas ondas de mar.
Aquela voz. Uma voz feita com a cor da vida. Uma voz curtida pela complexa dimensão humana. Uma voz devoradora do que compunha seu mundo. Uma voz feita de dor, rancor e amor. Voz prezada, prezante, praguejante, prendada, passada; — presente.

(In:. Morte e Vida Severina e Outros Poemas em Voz Alta, de João Cabral de Melo Neto, 4 ª ed. Rio de Janeiro: Sabiá, 1967, p. 106-116).