Medo

Data 07/jan/2005
     “Em verdade temos medo.
[…]
E fomos educados para o medo
Cheiramos flores de medo
Vestimos panos de medo.
De medo, vermelhos rios
vadeamos.”
(Carlos Drummond de Andrade, “O medo”, em A rosa do povo)
O medo. O medo que ronda a inquietude que a ele se irmana. O medo que a toda coragem acompanha. O medo do abandono. Que acometeu Jesus Cristo no horto sinistro. Que acomete alguém de súbito de todos perdido. Que acomete o filhote deixado na calçada, no portão de qualquer casa, numa noite ou madrugada; num terreno baldio dado às traças. O medo do abandono a que se vê um homem ou uma mulher cuja decrepitude aturde, atrapalha, entrava, desgasta. O medo do abandono de que sê vê acometida uma mulher cujo desaparecimento do marido a deixa a mercê com a dependente prole. O medo do súbito abandono em que se vê um homem, uma mulher do grande amor que se foi embora.
O medo do novo que incomoda e paira feito uma espécie de ameaça. O medo de romper com o antigo dado sobejamente como já inadequado, mas que ainda assegura o status.
O medo do confronto que fatalmente provocará uma mudança de estado; que provocará o desconforto de ter exposto o outro lado; que provocará perdas e desamparos cujas reparações exigirão, para não se sucumbir.
O medo de um fracasso. Que imediatamente deflagra a condolência, mas também o menosprezo. Que, onde impera o sucesso – único traço que ao mercado interessa –, requer um vigoroso suporte, para se impedir o trágico.
O medo da violência que tolhe, que impede, que mutila, que anula. A violência em suas múltiplas facetas: físicas, psicológicas, sociais, profissionais, políticas. E toca a cercar-se de formas e mecanismos para dela resguardar-se, que com ela conviver é sina, destino.
O medo do assalto que extrai, apropria-se, apodera-se do que uma vida de trabalho conseguiu.
O medo do desemprego crônico e potencial que a vida global contemporânea emprega. O que desagrega, põe em pânico, ante o rondar da miséria, a presença de sutis manifestações da fome.
O medo das balas perdidas que passeiam impunes, madonárias, pelas ruas, avenidas, esquinas, guetos, becos, bairros e toda desordem de periferia.
Medo dos esquecimentos. O esquecimento da pessoa amada. O esquecimento do filho, da filha, dos filhos. O esquecimento dos amigos. Medo de que a morte apague a imagem, a memória. Medo, enfim, de não ter conseguido fazer história. Medo de passar incólume, como passam as frutas de estação, com passa pela rua um cão. Medo desse absoluto anonimato. Como ficam no papel toda a vida, depositados em registros batismo e crisma. Medo de esquecer-se de si mesmo, dos outros, do sentido da vida, das coisas. Medo de esquecer-se de se saber amado. Medo de se saber esquecido de seu amor. Medo de esquecer-se de ter desejos, vontades. Medo de esquecer-se de sonhar. Medo de não conseguir mais construir uma palavra que desvaneça suas falhas; uma palavra que faça se iluminar a aura de sua alma; uma palavra que ulule o ardor de sua paixão.
Medo de ir embora levando consigo tristezas e desdéns. Medo de ver ir-se embora quem jamais quisera ofendido nem tampouco carregado de amarguras.
Medo da soberba, da ganância, da presunção. Medo de ser um mero arremedo. Medo da inanição provinda do medo. Medo de não ter medo.

Utopia

Utopia
Data 30/dez/2004

     Deixarem-se ficar ali por conta da hora à-toa. Hora sem tempo marcado. Hora para puro prazer de estar se sentindo pleno de tão vazio de tudo que não seja aquele absoluto instante.
Alentavam isso como das mais caras das utopias imediatas que habitam o cotidiano de gente viva, atuante, trabalhadora, sobrecarregada de afazeres, compromissos, prazos, horários.
Sábado, domingo, suspensos os prazos e compromissos, trégua que a máquina cotidiana reprodutora da vida submetida a mais valia concede aos seus súditos. Então, as utopias ressurgem, renovam-se, reaviavam os ânimos. E retocadas tornam ao cabide da esperança na incerteza de que, tarde que seja, fará daquela roupagem utópica a mais concreta realidade.
Assim se tece a vida das gentes. E de outro modo não parece ser viável, tirante a conformação dos desambicionados, gratos à vida por sabê-la ar, fogo, terra, água. Por sabê-la dia, noite, sol, lua, verão, inverno, céu, inferno.
Portanto, esperança não se perde, se retoca. Perdê-la é perder-se. Perdê-la é encontrar a descrença. Perdê-la é descrer dos homens sãos. Perdê-la é descrer que a natureza, como Deus, é amoral, não-idiossincrásica. Perdê-la é descrer de si mesmo.
Não. A esperança revigora a razão como a paixão. Pensar a vida, projetá-la e ter fé em si, nos outros. Tropeços são os imponderáveis próprios aos que se põem a caminho.
Então as pequenas utopias perfilham como as conquistas a que levarão os projetos traçados e vivos. Feitos, refeitos. E são infindáveis, permanentes. Reorganizados, se não atingidos. Tornados já outros, quando se toma o champanhe de um pódio.
Pois aquela utopia (quase boba, não a confessaria) fora sendo preterida por outras, que a urgência da vida urde e se tornam incontornáveis. Todo ano, precisamente, toda passagem de ano retocava-a. As pessoas em estado de graça, contaminadas pela epidêmica e inconsciente alegria de que um ano novo vai se inaugurar. Logo, é tempo de renovar esperanças, reenergizar-se e pisar o ano entrante querendo ser, querendo poder.
Dá-se a hora do réveillon. Fogos pipocam a incendiar a incontida alegria global. Hora mística, de soltar adrenalinas, afeita a magias. Efusivos, emocionados, cumprimentos, mútuas felicitações. As televisões mostram o mundo todo feito de pirotecnias.
Então as utopias são formuladas, renovadas, refeitas. E toca vestir-se de novo ano e na sua tessitura estar de verdade tecendo e torcendo por suas utopias. Das quais muitas são o cotidiano de muitos outros. Sim, também as utopias são muito relativas.
Pois nesse Ano Novo sua utopia simples, singela (quase boba, não a confessaria) estava em vias de se plenificar. Fora mais cedo. Ela o surpreenderia. Quando chegasse pensando tê-la que esperar, a veria já devidamente acomodada naquele lugar, naquela mesa pensados. A vela de cera comprida e verde feito um cacto ocupando o centro da mesa. Na hora exata, ele a acenderia com seu isqueiro niquilado, herança de avô pra pai, de pai pra filho. Depois do beijo demorado (lábios nos lábios), sem pejo dos outros, que, tão eufóricos, talvez nem os percebessem, brindariam com cerveja e água tônica. Ele faria o pedido que ela já sabia: bisteca ao ponto a ser servida depois do espocar dos fogos e dos cumprimentos.
Depois se sentariam. Um de frente pro outro. Ele olhando nos olhos azuis dela. Ela olhando nos olhos acastanhados dele. Enquanto, trocando carícias, bebericariam cerveja ele, água tônica ela.
Seria, por fim, neste révellion. Naquela cidade enorme de que ambos gostavam. Naquele restaurante acanhado, simples de que ele tanto gostava. Ela já havia se instalado. Iria surpreendê-lo. Embora entre emocionada e apreensiva, pois pouco faltava para a meia-noite.

Toladorite

Toladorite
Data 24/dez/2004

     A dor que fere; dilacera, punge. Instaura um estado de estupidificação atordoante. E instiga impulsos outros. Além dessa comoção de estado de alma de consciência humana em choque. Assoma conjuntamente a compulsão do desejo de intervir superiormente a quaisquer forças. Pôr um basta. Extirpar de vez, cirurgicamente, magicamente que fosse, esse dom, essa predisposição, esses neurônios, esses genes, essa coisa, enfim, que compele o homem à violência, ao extermínio, ao assassínio, ao genocídio. Insanos bestiais matando gente sob a alegação de algum motivo nunca possível de lhe conferir essa prerrogativa que somente a Deus, se diz (à natureza), é conferida.
A morte como um impeditivo ao outro de ser. Ser como tal. Não como pretendia o assassino que o exterminara. Esperar-se-ia que, quanto mais fosse difundido à consciência do homem que ele é o ser que pensa e, logo, aprende saber existir com o outro, mais estaria abolindo essa prática de matar. Não apenas os da sua espécie, como também os das demais.
Todavia, dá-se o inverso. O homem mais mata, quanto mais sabe de si. E mata mais não somente a si mesmo. Também mata mais intensamente aos outros animais. Mata os macacos. Mata os marrecos. Mata os galináceos. Mata gados. Mata gatos. Mata pássaros. Mata peixes. Mata felinos. Mata insetos.
Mata por medo. Mata por ódio. Mata por amor. Mata por fome. Mata por dinheiro. Mata por herança. Mata por soberba. Mata por poder. Mata por prazer. Mata por querer. Mata sem querer. Mata por mandante. Mata por profissão.
Então: o extermínio dos seres animais entre si por algum motivo é condição, é destino. Como quis Darwin, sobrevivem os hercúleos e os apolíneos. Fatídica constatação: a sobrevivência é predadora.
Dá-se, entretanto, que o homem não sobrevive pura e simplesmente como sobrevivem as aves. Com sobrevivem os peixes. Como sobrevivem os bichos demais. Tais agem movidos tão-somente pelo extinto da sobrevivência: comer, beber dormir, procriar. O medo os acomete ante o estranho, que sempre se lhe afigura um hipotético predador.
Aprendeu o homem a complexidade. A consciência de si mesmo e do mundo. O saber pensar. A consciência de pensar o seu fazer, e saber que os outros seres não sabem pensar o fez soberano, soberbo, egoísta e, não um predador, como os outros pela sobrevivência, mas um degradador pela ganância. E mata, e espolia, e devasta, e corrompe, e extermina, e sevicia, e violenta. E o faz por soberba, que, com pouco do que sua prodigalidade lhe confere, sobreviveria de forma confortável. E o faz pelo poder de mando, que, com muito pouco do que acumula, sobreviveria com conforto. E o faz para detenção do requinte, da sofisticação, da ostentação. Que sem isso tudo, mas assegurado seu conforto, compartilharia, com os outros da sua espécie, a participação da sobrevivência com conforto. Permitiria àqueles saltar dessa agonia de sobrevivência enxovalhada de miséria. Mas a verdade é que, para a sobrevivência, os bichos comem. Os homens consomem.
Na arena de touradas, o boi sendo gradualmente sangrado para deleite de espectadores. Nas matas, animais silvestres aprisionados, mutilados por alguns trocados. Crianças assassinadas em Beslan, no Iraque, nas favelas do Rio, de São Paulo. Baleias, jacarés, focas, leões-marinhos, micos, tantos e tantos que se sabe e tantos e tantos que não se sabe. Tudo em nome da fome dos homens. Tudo em nome do consumo dos homens. Tudo em nome do acúmulo dos homens. Tudo em nome de caprichos e extravagância dos homens. O que fere, o que dilacera, compunge. Que instaura um estado impotente de tola dor aguda.

Dessentido

Dessentido
Data 17/dez/2004

     Nada daquilo fazia o menor sentido. Gente mesquinha. Gente vencida. Gente medrosa. Daquelas que, de pequeno, viveram levando repreensão. Ouvindo gritados nãos. Acusadas de pecadoras inveteradas. Intimadas a pagar pecados com estúrdias penitências. Infindáveis rezas diárias, cilícios corporais os mais variados e estapafúrdios.
Pecar. Pecado. Pecador. Era a norma. Era o mote. Era o inferno depois da morte. Inveja, pecado. Cobiça, pecado. Sexo, pecado. Usura, pecado. Desejos, pecado. Comilança, pecado. Furto, pecado. Mentira, pecado. Luxúria, pecado. Amar, pecado. Odiar, pecado. Desobediência, pecado. Preguiça, pecado. Vícios, pecado. Delações, pecado, Pecado é pecar por pensamentos, palavras e obras.
Decerto, por isso, resultavam tais deformações. Incapazes de um mínimo altruísmo. A cabeça posta em desgraça. Chispantes olhares inquirindo o em torno à cata de algo capaz de estragar. Detonar sossegos
Frustrados homens feitos. Quase incapazes de se desvencilharem desse atroz destino. Ficam na vida permanentemente importunando vidas. Atores de violências. Atores dos mais inacreditáveis crimes. Atores de roubos desde os ousados aos escalafobéticos. Atores de toda ordem de sadomasoquismo. Atores dos mais diversos abusos, desde os de poder aos sexuais. Atores desconstrutores construídos pelos poderes desconstrutores da sociedade.
A norma de viver consiste nisso. As ilimitações são reduzidas ao seu limitado universo circunscrito. Nada além. Nada aquém. Aquele círculo e mais ninguém. Os muitos nichos. Os muitos mínimos microorganismos sociais enquistados em outros macromicroorganismos da denunciada sociedade global. Que enganosamente se sustenta maniqueísta como forma social justa. O maniqueísmo do sim e do não. O maniqueísmo do bem e do mal. O maniqueísmo do empregado e patrão. O maniqueísmo do poder e da submissão. O maniqueísmo do mando e da obediência. O maniqueísmo da riqueza e pobreza.
A intermediá-los, o café com leite. O lusco-fusco. A bigamia. As múltiplas cores. A bissexualidade. A homossexualidade. A clonagem. Os transplantes. A tragicomédia. A global expansão da psicofísico miserabilidade humana com seus incontáveis tentáculos. E a perversa putrescência metal cíclica sem fim encurralando a vida livre, sã, saudável, feliz.
Nada de se iludir com a ingênua reinserção do éden na Terra. Nem muito menos denominá-la um martirizante inferno. Que, afinal, a própria organização social instituidora do maniqueísmo como princípio foi que criou o purgatório.
Então, nada daquilo fazia o menor sentido. Gente resultante da deformação dando-se à deformação. Aquela criançada esfarrapada, perdida pelas ruas e avenidas, praças, viadutos, devassadas, devassantes. Como coiotes uivantes de fome pelas matas. Atacam o que lhes vão pelas ruas e calçadas. Aquelas sutis e torpes delações à toa, gratuitas, feitas pelo mero prazer de prolatar o medo, de instigar o estrago, de deflagrar o trágico.
Afinal, todo sentido faz e não faz sentido. Todo sem sentido faz algum sentido.

Acerto

Acerto
Data 10/dez/2004

     Ao telefone identificou-se de forma peremptória. Decerto para que a memória fosse poupada na busca. Pois o tempo de absoluta ausência (e talvez de esquecimento) entre ambos fora como um para sempre.
Surpreso, ele expressou satisfação por novamente sabê-lo. O outro pedia um encontro. Além de revê-lo, iria solicitar-lhe alguns préstimos para cujo desempenho a função profissional que exercia certamente o habilitava.
Décadas passadas. Ele cumpria o dia em trabalho como organizador do burocrático-pedagógico no departamento em cujo curso o outro lecionava. À noite aconteciam as aulas. Cursos noturnos. Nos quais, filhos das classes médio-baixas predominavam. Alternativa a que se agarravam para estudar. Era ainda a possibilidade de romper o círculo de pobreza a que pertenciam.
Dessem-se por satisfeitos. Era o que a Fundação Educacional do município oferecia: Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras. A opção restringia-se apenas quanto ao curso a escolher.
Ali se conheceram. Ali atuaram juntos. Mais que na condição de professor e aluno. Juntamente com alguns outros discutiam o País. Pensavam o País. Examinavam e refletiam o País sob o jugo da ditadura militar que mais lhe fora fechando o cerco ano a ano. Viveram ali, assim, os anos mais opresssivos. Quando então, por dá cá aquela palha, o regime totalitário impiedosamente metia a navalha.
Nos fins das noites e madrugadas entrantes, nos botecos, teciam conjecturas em variadas, acirradas, prudentes, mas também ridentes conversas. Acompanhadas, não há dúvidas, de muita cerveja principalmente. Não exclusivamente.
Menos se conspirava contra o monstro devorador do que se cogitava sobre sua truculência e burrice. Passagens que o punham ao ridículo enumeravam-se. Desde apreender o romance Seara vermelha de Jorge Amado a exigir, nos tais dias cívicos, que não eram poucos, a montagem do “altar da pátria”. Uma geringonça erigida em local público excessivamente decorada de verde e amarelo, onde revezavam-se estudantes, jovens que serviam ao exército e professores. Ali se postavam em posição de sentido, guardando o nada, onde uma bandeira nacional jazia. Eram cenas ridículas e dolorosamente consternadoras.
Veio a vez de eles serem chamados às falas. Afinal, deviam saber que seguiam seus passos sem descuidos. Deles tinham ficha detalhada. Informações as mais precisas. Era uma questão de tempo, hora e vez.
Então cada qual teve o seu tempo, sua vez, sua hora. O amigo que ora o visitava fora o primeiro. Um pouco bem depois, soara a hora dele e de alguns outros. Todos enquadrados como evidentes incomodadores da ordem e do bem-estar social. Agitavam e subvertiam a ordem na sala de aula, nos encontros estudantis, em publicações e nas madrugadas de boteco.
Aprisionamento. Confinamento. Incomunicabilidade. Comida insossa, temperada a salitre. Cela opressa. Porões úmidos tornados celas. Sessões de torturas. Acareações. Depois solturas condicionais. Prisão domiciliar. Alguns buscaram o desconforto-conforto do exílio. Vieram os julgamentos. As consumações de prisões ou solturas definitivas.
Muito depois, veio a derrocada da ditadura. E veio o processo de restabelecimento da democracia. E veio a anistia. E vieram os exilados. Agora se discutia o fazer, ou não fazer vir à tona todos os atos obscuros, vetados, espúrios praticados pelo regime ditatorial militar. Inclusive a chamada reparação de danos e perdas de forma indenizatória por pecúnia.
Em liberdade condicional, ele escapara para o exílio. Anistiado, tornou ao Brasil. No Brasil, restabeleceu sua atividade profissional e, depois, se aposentou. Promulgada a lei concessória, pôs-se à busca do resgate do que considerava suas perdas e danos. Daí o reencontro, agora, algumas décadas depois.
Então, encontrados, regozijados, rememorados, teve um momento de profundo silêncio. O anfitrião, meio sem compreender, respeitara o silêncio. O visitante, face vultuosa, olhos lacrimejantes, disse que lhe doía muito ainda aquilo e que precisava confessá-lo: sob a dor indescritível da tortura acabara sendo um dos grandes responsáveis pela prisão do amigo.
Depois de outro silêncio e compreendendo a expressão de absoluta compreensão do amigo, disse já se sentir bem, leve e liberto daquele torturante sentimento de culpa.

Verde-amarelo

Verde-amarelo
Data 03/dez/2004

     O ministro risonho encimando a manchete da auspiciosa notícia, segundo a qual, naquele ano, o crescimento do País ultrapassara as expectativas. O produto interno bruto, o PIB (soma das riquezas geradas no país), atingira mais de cinco por cento. Motivo para alegria geral em meio aos responsáveis pela condução dos negócios do governo. Afinal, já lá se vai meio caminho andado, pelo qual toda sorte de má-sorte tem estado à beira, ao centro, à esquerda e à direita. Mais do que à espreita, estão vivas, exigentes, agressivas, pouco contidas.
A tal revigorada esperança de ascensão dos espoliados e ignorados, dos que têm ficado constantemente à margem da festa, permanentemente à deriva, entra governo, sai governo, se já não foi de cambulhada, ainda pouco, ou quase nada disse a que veio. Embora houvesse um evidente consenso de que viera para a consumação do que até então fora a empedernida esperança
Um PIB nunca atingido. Um PIB que teimosa e obstinadamente, sem contrariar os tais consensos de Washignton, os quais, se assim se fizer, vetam as mesadas que continuam almejadas por seus afilhados apaniguados, vai procurando crescer pelas frestas dos trincos de suas paredes que pouco os incomodam. Um PIB que ontem fora o bolo que se deveria fazer crescer, com a pressuposição de que, aí sim, poder-se-ia tomar uma sua parte e distribuí-la entre os eternamente não-convivas.
Sói que acontecia, todavia, de crescerem os anos e anos do tempo de fazimento e o quinhão dos que moeram a farinha, e a parte dos que extraíram o sal, e a parte dos que extraíram o azeite, e a parte dos que tiram o leite, e a parte dos que depuraram o açúcar, e a parte dos que captaram a água, e parte dos que colheram os ovos, a parte dos que fabricaram o fermento não era dada como crescida ao ponto de entre eles se repartir. Mas os convivas não tinham, não tiveram e não têm o de que reclamar, pois sempre souberam apropriar-se da padaria e escolher os padeiros.
Deu-se que certa vez, não há bem que só se ausente, a empedernida esperança rebrotou. É que a vitalidade de sua verde pigmentação readquiriu vigor e pôs-se a manchar o enodoado-pardo do amarelo de tão antigo.
O que se dera nessa certa vez foi uma retirada dos fazedores de faz-de-conta. Legaram um país abarrotado de dor e dívida; um país crivado de desilusões e pobreza: já anunciavam os institutos de pesquisa e estatística nacional e internacional que nele subviviam mais de cinqüenta milhões de indigentes. Um país minado por uma inflação monetária de voracidade insaciável.
Então o pardo-enodoado do amarelo, cujo encardido parecia irremovível, foi ganhando tonalidades do verde-esperança. Um pequeno revés levou o encardido a breve recidiva, porém logo rechaçada. E o verde-esperança mais reverdeceu. Mas continuou esperança. Preços mais estáveis. Entretanto, o dito crescimento, a passos de preguiça. Os obsequiosos investimentos negaceando-se. O contingente dos abaixo da linha de pobreza crescendo. Democracia e pobreza ainda maiores. Uma combinatória indesejavelmente assustadora.
Deu-se, pois, que a democracia permitiu aos pobres e indigentes elegerem seu presidente. Meio mandato passado, permanecem na pobreza e na indigência. Todavia, mantêm a esperança.
Até quando?

Engodo

Engodo
Data 29/nov/2004

     Esperava. Aquelas esperas famigeradas, quando se trata de ser atendido por quem por muitos é procurado. Pusera-se como todos que a isso se sujeitam. A sua aquela espera tinha, porém, a peculiaridade, não incomum, mas rara, de ser sozinha. Não havia outros naquela hora. Estava, pois, à espera de que o responsável por atendê-lo se desocupasse de – decerto – uma incumbência que não era estar ocupado com outrem que, como ele, como muitos outros, ficavam à espera. Atendia ao telefone. Atendia a um despacho urgente. Atendia a um funcionário da casa. Atendia ao seu superior. Ou atendia a seu próprio tédio.
Assacou da pasta o jornal do dia. O Iraque continuava de vento em popa sendo destruído. Yasser Arafat aguardava o fim do conflito sobre onde seria enterrado, para morrer definitivamente. O petróleo tornava à tona como o fator de instabilidade monetária mundial. Um novo genocídio contra o MST dando acentuados pontos na horrenda crise de violência disseminada pelo País.
Ele ali. À espera de que lhe dessem uma palavrinha em prol de quase nada. Uma coisa quase à-toa, mas que, manda a civilidade humana, somente se faça com a anuência e o conhecimento de quem tem a prerrogativa do uso do sim e do não.
Ardia um sol de pouco mais de meio-dia de um verão inteirado. Sua espera fazia algum tempo. Varara todo o jornal com aturadas leituras de alguns artigos e noticiários. E ainda estava na condição de espera.
Então ficou um tempo, talvez tão extenso, senão maior, ao que havia dedicado ao jornal, refletindo nas razões reais por que não desistira ainda de manter-se naquela situação. Não se tratava de algo urgente. Do qual, todavia, não podia desistir. O transcurso de sua condição cidadã exigia-lhe superar essa etapa. Ir embora depois de mais do que tolerável espera, seria uma forma de protesto, uma manifestação de indignação. Fora mais do que suficientemente disciplinado ao, imperturbavelmente, manter-se na condição dos comuns dos mortais. Demonstrava a quem visse (e muitos e muitos o viam) o exercício de não requerer deferências. Suportava a submissão à fila disciplinarmente. Ainda que ela não houvesse. Fazia de conta que sim. A demora acontecia em razão de ter à sua frente todo aquele pessoal inexistente.
A movimentação rotativa dos funcionários fazia-os vê-lo ali ainda como chegara. Há mais de hora. Mais. Transpareciam mais ansiedade e intranqüilidade pela imutabilidade da situação do que ele mesmo talvez.
Ao comum e reiterado, expresso por um sorriso mais nervoso que espontâneo, “ainda doutor”?, respondia com um gesto de ombros e face que se poderia traduzir por “ainda, fazer o quê?”
Foi quando, ao remexer na pasta, trocando o jornal por um livro, viu a certa distância, no meio de um espaço aberto entre um pavilhão e outro, onde o sol a pino incidia pleno, no chão tórrido, uma andorinhazinha, habitante dali, se debatendo.
O olhar esqueceu-se absortamente na andorinhazinha. Ela parecia convulsa em desesperante agonia. E aquilo lhe parecia ser mais desesperador, por dar-se em sob sol tamanho. Estava todo tomado por aquela pesarosa agonia e resolvera, impulsivamente, tirá-la do escaldante calor.
Aí anunciaram que era esperado, podendo então entrar. Pediu que lhe fosse, agora, concedidos alguns minutos para que socorresse a pobre moribunda. E sem mais, foi à andorinhazinha, onde teve baita surpresa.
Em vez de agonia de morte, o que achou foi um grande ritual de acasalamento. Duas andorinhazinhas faziam escancaradamente amor. E sob o sol talvez por mais espicaçante. Riu de alegre alívio.
Tornou ao seu posto e foi notificado que o Senhor tinha congestionada agenda, não podia tê-lo esperado coisíssima nenhuma e fora para outro compromisso.

Sucessídio

Sucessídio
Data 23/nov/2004

     Lera e ouvira. Mais ouvira do que lera que muitos dos “impérios” empresariais ou financeiros vieram do nada. No princípio, eram simples atividades com que o cara defendia a vida sua e da família com dificuldade. Mas determinação, empenho, organização, economia e modestos e progressivos investimentos.
Uns poucos exemplares do mito do trabalho dedicado como gerador de riqueza cumulativa e transformadora. A irreversível impulsão capitalista. Ampliar. Aprimorar. Atualizar. Se não, sucumbir. Que atrás vem gente!
Coisa da lei de mercado. Ser ou ser. Nada que não seja bens de capital é a solução. Nada resolve. Amor ou ódio; consternação ou piedade. O capital não é provido de neurônios afeitos a captar sensações dessa natureza.
Todavia, tem-se nesse tipo de empreendimento o desenvolvimentismo plausível. Que enaltece seus precursores e os que prosseguem mantendo-se na mesma linha de conduta, primando pelos ideais filosófico-capitalistas dos que tudo começaram. Crescer com dignidade. Enriquecer-se pelo trabalho incansável. Auferir o lucro honesto. Advindo de operações e transações financeiras limpas, claras, aprovadas e consagradas pelas leis do mercado. Dar aos trabalhadores, aos operários da empresa toda a assistência e tratamento que os fizessem sentir-se seguros, confortados, satisfeitos em sua condição de indivíduo bem empregado, com salário condizente e compatível.
Tratava-se de algo que dentre outras coisas dava tranqüilidade. Paz de consciência. E sensação de engrandecimento. Principalmente ao se levar em conta o que vinha sendo exposto cada vez mais e sem término com o advento e estabilização do sistema democrático de governo.
Progressivos casos de altos negócios transacionados em ilicitudes inquestionáveis. Manipulações escusas de dinheiro e bens públicos em favorecimentos particulares, gerando enriquecimentos rápidos onde a ausência de trabalho é a maior evidência. Instituições financeiras com seus lucros vertiginosos expandindo seus domínios. Ou tendo socorro governamental aos seus fracassos operacionais.
Assim vistos e comparados, os resultados de seus sãos negócios eram exitosos. O que lhe dava a convicção de empresário justo e contributivo.
Então, não tinha dúvida: a estupefação extrapolaria o terreno de âmbito familiar. Ganharia várias outras esferas sociais. Que não quererão admitir que um empresário de sua envergadura tivesse motivos para tal loucura. Sucessos. Negócios em expansão com êxitos evidentes. Filhos saudáveis e de bons hábitos e procedimentos. Não havia o mínimo rumor de quaisquer situações que desabonassem quem fosse. Empresa com suas contas em dia. Os salários de seus empregados. Finar-se assim um cidadão desse como um Getúlio Vargas sem nenhuma das razões daquele?
Amargurava-o que fosse assim acontecer. Todavia, sabia muito bem que tudo também acabaria assim se esgotando, pois que a causa daquele seu ato teria ido com ele.

Expurgo

Expurgo
Data 12/nov/2004

     Há anos assim vivia ali. E bem garantindo suas economias. Esteio dos seus, aos quais por obrigação e amor servia. Não merecera da parte de ninguém objeção, admoestação que fosse por isso. Riscos é próprio de quem está vivo. Viver é muito perigoso, filosofou acertadamente Riobaldo. E adágio popular, muito antes, já havia estatuído que quem não arrisca, não petisca.
Fora uma opção. A muitos, disparatada. Ninguém pôde entender, durante um bom tempo, como um cara com tal formação decidira por uma vida daquela. Difícil compreender.
Desfeitas as previsíveis desconfianças: fuga por motivos estereotipados – crime, roubo, subversão –, vieram as inventivas, algumas tendendo a invectivas. Mas o tempo, diz outro adágio, é o melhor remédio. E ele testemunhou ao lugar que as hipóteses e invectivas estavam desmentidas.
Tratava-se mesmo, para manter uma justificativa conformadora à opinião pública, de um sujeito opiniático. Decidira por aquele tipo de vida. Era esquisito. Todavia, tudo claramente consabido, o lugarejo é que, na verdade, mais ganhara. Pois passara a ter um privilégio. Um médico somente ali para eles. Vivendo do pouco que aquela pobreza quase absoluta podia lhe retribuir. Um médico dedicadíssimo. Pachorrentamente atencioso. A mesma e visível conduta profissional com um pobretão era dispensada a um remediado ou, poucos, mais abastado. Ousado em algumas ocasiões. Prudente e determinado noutras. Casos complicados, logo solicitava à prefeitura a remoção para a cidade grande, lugar de recursos. Um médico apaixonado. A medicina como a meta máxima de sua razão vida. Preventivo: cheio de orientações – não pode; evite; modere; use à vontade. Curativo: prescrições, acompanhamentos, tratamentos, encaminhamentos. Estudioso: era notório que comprava muitos livros, que ia a congressos.
Quando a ditadura militar apodreceu por completo e se despencou, e as eleições aconteceram, correu que tudo aquilo era por uma candidatura imbatível a prefeito. Vieram as eleições. Não se candidatou. Não apoiou candidato algum. Perguntado, dizia ser necessário eleger a justiça; a garantia de liberdade, de direitos e obrigações iguais. Alijar a corrupção, o patriarcalismo, o nepotismo, o favoritismo, o populismo; combater a violência; difundir a solidariedade, a garantia de escolaridade a todos. Falava assim, quando perguntado em seu modesto escritório.
Nos fins de semana, isolava-se em sua casa, construída à beira do rio. Dali, avistava o pôr-do-sol por trás das ilhas que o imenso rio continha. O espraiar-se da lua no gigantesco espelho d`água. Àquelas ilhas também assistia apaixonadamente. Prescrevia formas de organização: o uso da fossa séptica; o tratamento da água; a convivência com os animais domésticos: a não-poluição do rio.
Quando a sua secretária chegou e o encontrou emborcado sobre sua mesa de trabalho, varado de balas e o sangue escorrido já escurecendo, foi uma estupefação geral.
Durante o velório e no enterro: multidão; consternação total; choros convulsivos.
Depois, ficou a especulação, a investigação e a orfandade estampada em milhares de faces.

Circulo de leitura

Circulo de leitura
Data 08/nov/2004

     Fora arrebatada pela leitura de livros por dois apaixonados leitores. Um sua professora da terceira e quarta série: dona Amália.
Numa aula de redação (em realidade toda a primeira metade do período). Talvez o gosto que tinha por ler e escrever facilitou para que logo fizesse sua composição.
Recebera o devido visto com o apontamento de alguns elogios. A classe continuava absolutamente em estado de composição. A professora em sua mesa. Lia concentradamente. Às vezes, por instantes, leitura suspensa, olhava o silêncio e mudez da classe. Parecia satisfeita.
Então também ela, que não conseguiria entregar-se ao nada, assacou da bolsa “As caçadas de Pedrinho”. Bem escoriado. Nódoas de uso por mãos nem sempre muito limpas. Empréstimo que entusiasmado lhe fizera seu Acácio, o outro.
Foi numa conversa mais prolongada. Enquanto ele ajeitava os jornais num canto do carrinho. Noutro, as latinhas que amassava antes com uma forte pisada. Noutro, as garrafas plásticas. Ela e seu Acácio descobriram que tanto uma quanto o outro gostavam muito de ler.
Ela não disse, mas disfarçadamente ficou perplexa. Um catador de papel que sabia ler e gostava. Ele confessou não somente ler aqueles jornais velhos como recortar passagens que o tocavam, para vez em quando tornar a ler. E mais confessou. Daquele parco ganho, tirava algum para comprar no sebo um ou outro livrinho, que lá apreciava nos sábados de tardezinha e nos domingos de manhãzinha.
Onde encontrara “As caçadas de Pedrinho”. Que lera com comoção. Pois rememorara a sua infância de roça. O pai meeiro. Ele ajudava nos serviços, mas tinha suas folgas. Nelas fazia suas caçadas e pescarias.
Os livros dela eram os da biblioteca do avô. Um paraíso. Embora houvesse lá todo “O sítio do pica-pau amarelo”, tomou as “Caçadas de Pedrinho” de Acácio. Em contrapartida emprestou-lhe “As mil e uma noites”.
Assim nascera entre eles aquele relacionamento de leitores. A cada ida de Acácio em busca do seu “ganha-pão” travavam a conversação e efetuavam seus empréstimos mútuos.
Absorta nas “Caçadas de Pedrinho”, despertou com dona Amália atrás reparando. Satisfatoriamente informada, dona Amália agradou-se com a idéia e quis também compartilhar daquele intercâmbio.
Acácio passou a visitar dona Amália. Mais uma fonte de suas rendas e de suas leituras. Dizia-se honrado com aquelas distintas generosidades.
Dona Amália pôde confirmar as impressões de sua aluna: seu Acácio era ótimo. Um catador de papel original, amante de leituras e agradabilíssimo conversador.
Desde então, era uma aluna que conversava e emprestava livros com seu Acácio e com sua professora, que conversava e emprestava livros com sua aluna e com um catador de papel, seu Acácio, que conversava e emprestava livro com uma estudante e com uma professora, dona Amália.
O ciclo ia assim. Até que um dia a professora e a aluna se confirmaram uma a outra que há dias nenhuma era visitada por Acácio.
Um mês já, não eram visitadas por Acácio. Meses já, não eram visitadas por Acácio. Nunca mais foram visitadas por Acácio, de quem sabiam tão-somente que defendia a vida catando papel e era perdidamente apaixonado por livros.