A binária negra branca vida

Data 07/maio/2004

     É certo que no mundo, na vida, nada é uníssono, unânime. A vida é binária. Desde muito cedo aprendera. Então, nada era definitivo. Viver é contínuo. Ser é ir-se.
Menino, fora aprendendo. A cor da pele, dos cabelos. Os seus e os de seus amigos. Cabelos negros e lisos; cabelos louros encrespados. Sobre pele clara, dita branca. Que, quando muito ao sol, fogueava feito rosa exposta em jardins.
Cabelos negros encaracolados. Sobre a massa encefálica; sobre o rosto, quando homens em barba; sobre o púbis quando homens com sua acabada genitália. E negra pele como o carvão de extinta brasa. Desta persistindo sua cor nos lábios, nas gengivas da boca.
E como a descobrir que a binária condição não conseguia unanimidade, também tinha entre seus amigos o branco-negro; o negro-branco. Os quais constavam do fichário escolar, da ficha dos registros dos times de campeonatos mirins de futebol como morenos.
A raça Brasil, rompera o binarismo negro e branco. E fez-se a condição ternária conseqüente: mulata, cafuza, cabocla. Desde de aí, dessa infância feita de extroversões, mas introversões acentuadas, de ficar horas enrustido consigo (Onde você estava, menino?! Você sumiu!) pensando os amigos, as amigas; pensando os homens; pensando a escola, as professoras; pensando o futebol, sua arrebatadora paixão; pensando a vida, o mundo.
Descobria, sim, que se a natureza se dera em aparente forma binária de organização com seu ritmo sim-não; com sua aparente macrodualidade dia-noite, vida-morte, quente-frio, claro-escuro, amor-ódio, deserto-floresta.
Descobria, sim, que todavia, por detrás desta aparência mantinha sua mulaticidade, sua cafuzice, seu caboclismo. Consigo carregava, entre o verão e o inverno, o outono; entre o inverno e o verão, a primavera; entre o dia e a noite, o crepúsculo; entre a noite e o dia, a madrugada aurora; entre o macho e a fêmea, o andrógino; entre o homem e a mulher, o misógino.
E descobria que a sociedade se encarregava de aprofundar, depurar, refinar o quebrado binarismo. A rota sua diversa da da natureza segue multíplice instável, movida pelo pulso e impulso do efêmero. Que a binaridade, o dualismo não perde o pé, não se desenraíza, se mantém matriz, mas infindamente segue multifaceando-se. Parece ser a condição humana que a sociedade a si estabelece para sustentar-se em vida até o fim que se faz por espécime como norma; por espécie em seus espasmos de paranóia – um de seus diferenciadores da natureza inatamente sóbria.
Assim, notara, que sua vida se conduzira com acentuada presença do binarismo branco e negro. Menino, convivera com um amigo com quem dividia o mesmo devotado amor à bola. Nos campos de pelada, depois no time infanto-juvenil da cidade, fizeram dupla famosa. Remetiam-nos a Pelé-Coutinho. Apenas que eram um negro e o outro branco. E a conjugação do campo projetava-se para outros estados sociais. Juntos no clube, no passeio público, na escola. E nisto também se diferenciavam: um, apaixonado pelos gibis, os livros; o outro mal conseguia suportar a escola, a leitura: rodar pião, empinar pipas, andar pelas ruas.
Moço, outra parceira negro e branco. Afinidade estabelecida no ginásio, estendida ao colégio.      Depois dispersada pelas buscas diferentes de formação adulta. Todavia, uma convivência intensa enquanto durara. Já o negro (ambos pobres) se ressentia visivelmente da silenciosa discriminação. Contra o que o branco supunha apoiá-lo, estimulá-lo e ladeá-lo nos confrontos e afrontas. Nisso assentava-se a outra nítida diferença neles. Enquanto a pele falava alto em um, no outro alto falava o inconformismo ante a opulência e a miséria, a boa-vida e fartura e o trabalho estafante e a escassez bruta. Perderam-se. No reencontro, a vida já havia dotado-os de grandes antagonismos, que mal conseguiram manter-se para a respeitosa amizade.
E uma terceira. Branco e negro amigos feitos pela mesma ambição de tornar a vida humana em democracia de verdade. Convivência política. Partilharam campanhas eleitorais, direção de entidades sociais. Depois, enfastiados, deixaram isso. Amigos arredios. Cada qual com sua vida e vez em quando se vendo. Diferenciava-os seus afazeres profissionais e situações sociais. E a morte, mais tarde, sobrepôs a laje da separação absoluta.

A conquista da personagem

Data 03/maio/2004


     Rigorosamente publicava a cada cinco anos. O quinto livro já era aguardado com certo incômodo, pois o sétimo ano entrara em meses e a obra não dava sinais de vida.
Os mais próximos, acautelados, sempre achavam um jeito de tocar no assunto. Ele limitava-se a desconversar quase sempre emitindo a mesma afirmação, que, no entanto, parecia pouco convincente.
Algumas hipóteses em meio ao discreto círculo dos devotados à literatura se disseminavam. Dizia-se que o filão de seu imaginário se esgotara para a literatura. Que perdera a musa inspiradora. Que, ao contrário, a paixão era a obra que anulava a obra. Que decerto vivia a crise de quem chegou ao estágio em que a vida a menos vigorava. Que o reduzido público à sua obra tida como de leitura trabalhosa por fim o desanimara.
A todas nenhuma palavra. Nem de rebate, nem de dissuasão. Limitava-se ao direito de silêncio e de livre arbítrio à sua condição de escritor. Em matéria de literatura a palavra do escritor é sua obra. Ou a ausência dela. Um escritor não se explica quanto ao seu ato criador.
Não se deveria ver nessa atitude quaisquer sinais de arrogância. Compreendia a ansiedade de seus poucos leitores, a postura especulativa da imprensa, os prognósticos da crítica desfavorável e a apreensão da crítica favorável; o temor dos que o apontara como dos maiores. Compreendia. Contudo, tinha a convicção de que assim, com as incertezas das probabilidades, seria mesmo muito melhor.
Nenhuma justificativa conseguiria satisfazer de forma convincente. Elas iriam, isto sim, acirrar posicionamentos, insuflar discussões, exigir cada vez mais seu envolvimento em tais episódios.
Não. Reservava-se o direito de silêncio. Optava pelo efeito de seu silêncio. Insistia: não era arrogância, tampouco presunção, muito menos indiferença ou descompromisso.
Não. Não era nenhuma. Tratava-se, na verdade, de algo inconfessável, uma vez que se restringia à sua integridade pessoal. Fragilidades são reservadas ao exercício de autocrítica, de auto-análise. Não cabe, menos ainda a um escritor, expô-las ao seu exterior.
O seu romance teria sim atendido ao tempo-padrão que instituíra publicamente. Aconteceu-lhe, porém, algo perante o qual sempre se pusera cético, quando ouvia mais de um colega divulgar a perda do domínio desta ou daquela personagem. Que a personagem é que passava a exigir-lhe posturas e comportamentos.
Sua protagonista. Traçara-lhe um destino. Espécie de atração fatal ao protagonista. Corpo, alma e mente inigualáveis, irresistíveis. Dotou-a de tais qualidades, habilidades, amabilidades, sutilezas, inteligência, meiguice, beleza física aspergindo recatada sensualidade.
Enlaçar o protagonista. Cravar-lhe a seta de seu cupido. Com isso, amor cativo, lhe restabelecer a paixão pela vida a que renunciara parecia de maneira peremptória e irrevogável. Redivivo, tomaria gosto pela dificílima missão, própria a um Aquiles. Missão que ele apenas seria capaz, se o quisesse, de cumprir.
Então, o imprevisto impasse (que publicamente confessado o poria em ridículo): apaixonara-se tão perdidamente por sua protagonista a ponto de não conceber a idéia de sequer admitir o seu envolvimento amoroso com o seu protagonista.

Iniciação

Data 26/abril/2004

     Propagadores de produtos havidos como educativos e pedagógicos. Vendedores de objetos e materiais tidos ou difundidos como educativos ou pedagógicos. Cursos de várias naturezas. O cotidiano das escolas é recheado desses procedimentos. A informalidade trabalhista deve ter contribuído muito para que o fluxo de tais atividades se expandisse. E educada e democraticamente atendê-los significa não apenas desestabilizar as atividades escolares, como descaracterizar os fins de um sistema e ensino.
Então ali, em razão do conjunto de conseqüências danosas, não era permitido entrada de elementos estranhos à sala de aula. Decisão tomada pelo Conselho de Escola, referendada pela APM e corroborada pela assembléia de pais.
Não obstante, às vezes surgiam alguns casos que, ou ainda não haviam sido informados do procedimentos daquela escola, ou, ainda que sim, sempre acreditavam em seus poder de convencimento e lá iam.
Recebia-os. E pachorrentamente aturava ( havendo tantos afazeres esperando a vez) o discurso inócuo proferido pelo vendedor/propagador desfiar as grandes propriedades de seu produto para o desenvolvimento do ensino, as vantagens econômico-financeiras ao orçamento familiar dos alunos; os brindes para serem sorteados entre os mesmos; outros tantos à escola; o estabelecimento de parcerias que eles enfatizam ser recomendadas e aplaudidas pela Secretaria da Educação.
Depois, ou antes interrompendo, quando o bom senso daqueles não age, a direção pachorrentamente sentecia o não seguido do discurso justificador. E nem sempre o indivíduo dá- se por satisfeito, por isso as cenas se repetem (os muitos afazeres esperando a vez).
Por vezes a situação quebrava a rotina. Certos imprevistos desagradáveis se deflagravam. O indivíduo exigia a concretização de seu propósito, porque a Diretora de Ensino não se opunha; porque o que apresentava era recomendado pela Secretaria de Educação; porque a direção agia de maneira discriminatória, não permitindo que os alunos e seus pais pudessem exercer o direito de conhecer o produto e decidir por si mesmo; porque ali se vetava a ocorrência da modernidade educacional que, segundo a mesma, a escola precisa integrar-se à comunidade.
Todavia, a resistência foi minando as insistências, mesmo os mais ousados, já não se destinavam a perder tempo em terreno comprovadamente estéril. Assim, a escola conseguia funcionar defendida pelo menos dessa intrusão, pois já convivia com muitas outras, contra as quais não podia aplicar o mesmo dispositivo preservador.
Não ficara absoluta e definitivamente, como tudo na vida, livre desse inconveniente. Tempos se passavam. Súbito surgia uma tentativa. E assim foi que certa feita dois deles (aparecerem em dupla, não era incomum) foram anunciados. Ao apresentarem-se um deles, olhos fixos no dele, sorriso aberto, se disse ex-aluno, o Bruno, e que vivia citando-o nas conversas, quando o assunto resvalava para escola, qualidade do ensino, importância do professor. E ouvia o mesmo de muitos outros presentes à conversa. Estava feito o cortejo.
O outro se limitara ao cumprimento e à apresentação habitual. Sentados, Bruno assumiu uma postura solene, assacou uma revista que apresentou como de veiculação tradicional e amplamente aceita no mercado em virtude de suas sólidas e indiscutíveis qualidades educativas em sentido amplo. Educação ambiental; saúde prevenida, valores relacionais humanos. Fácil, agradável e atrativa leitura. Seguramente um complemento pedagógico de alta qualidade.
Ele, como de costume, pacientemente ouvindo, prestava atenção tanto à verve de lição muito bem decorada de Bruno quanto às atitudes do colega que a esse observava com disfarçado interesse. Esgotada a bem ensaiada prolação, deu a sentença conhecida e esperada pelos mesmos. Então o outro falou. Solicitou que ele ficasse com um exemplar pelo menos. Era o valor de que dependia a refeição de ambos aquele dia.
Perguntou ao acompanhante se o desempenho de Bruno havia sido aprovado. Surpreso, o acompanhante olhou-o por alguns instantes, olhou para Bruno e argutamente lhe devolveu a questão perguntando o que ele, como ex-professor reverenciado, achara. Disse que sem dúvida aprovava-º
E ambos agradecidos foram-se embora com o almoço do dia garantido.

Desvisagem

Data 19/abril/2004

     Então a velhinha animada à espera de sua vez era toda tagarela. Acima da escala dos demais, fala alta. Ria estrepitosamente. Transpirava felicidade. A que ganhava em riso estabanado e voluntário. Via-se que a espontaneidade a movia.
O forte em presença era mesmo de anciões. Os não-anciões, bastantes, eram seus condutores e acompanhantes.
Conversar para costurar o tempo. Para torná-lo com algum sentido entre o intervalo que ele com seu nada demarca. Senti-lo vivenciá-lo em seu vazio de silêncio é algo decerto insuportável, principalmente aos idosos.
O vazio do silêncio aciona o descortinamento de lembranças e recordações. O que por certo dá à vida o tamanho dá escassez de seu tempo. O que conscientiza a velhice de que o intervalo entre seu instante e o limite tem a volatilidade das nuvens brancas sob o límpido azul de céu.
Então a velhinha expandia, talvez impensadamente, movida pelo impulso do instinto acionado por esta pulsão psíquica. Falava maquinalmente. Ria ridentemente. Mas muito havia de não contágio. Muitos sorumbáticos rostos encarcerados em preocupação. Os quais por certo entendiam naquela velhinha uma insanidade anunciada, ou assanhamento ridículo, ou uma desconsiderada forma de extravasamento do medo.
Os entre uma e outra extremidade mais enxergavam. Mais notavam a todos e a si mesmos. Sopesavam o medo e a esperança. Enterneciam-se com algumas expressões. Compreendiam certas atitudes. Penalizavam-se com os abatidos. Suportavam com o sorriso da tolerância a velhinha a ponto de não recriminá-la, tampouco incentivá-la. Reconfortavam com palavras afáveis, com afagos, seus íntimos e próximos.
E todos, quando aproximados devidamente pela acentuada espera, passado o período de mútuo conhecimento necessário, se contavam uns aos outros. E as histórias variavam em extensão e dramaticidade, dependendo do temperamento e humor de seu enunciador. E assim de algum modo se reconfortavam entre si.
A velhinha tinha ainda o dom do relacionamento fácil e o inconformismo da espera estática. E ia como um sacerdote afável, um candidato à eleição, um pedinte à cata de tostões, percorrendo os demais pacientes, levando uma palavra de estímulo, uma risada. Esse talvez fosse o modo seu de afugentar o medo que não menos a acometia como aos demais.
Muitos que, como ela, ali estavam para a segunda vez, diziam lembrar-se que da primeira vez ela não procedera como agora. Era uma discretíssima velhinha lá no seu canto, acabrunhada, quase todo o tempo cabisbaixa, quietamente conversando com sua acompanhante.
Lembravam-se que foi então de volta do serviço que tornara de olho limpo e evidente brejeirice senil na face. Falando alto. Aleatoriamente dispensando risonhos cumprifmentos.
E fora agora, de volta para a limpeza do outro olho que dera de ser o antagonismo daquela velhinha da primeira vez. E a razão também se soube logo que as suas perambulações de lugar em lugar foi espalhando.
Era que ao mesmo tempo que punha o moral dos receosos para cima, afirmando que não sentira dor alguma, contava ter vivido uma indescritível visão.
Certo céu azul no qual, vertiginosamente, movimentando-se enormes estrelas de mil cores (lindas, precisavam ver!) brilhavam ziguezagueando feito umas malucas belezas. E ficou muito desolada, quando o médico apagou tudo ao despertar-lhe dizendo que terminara e que tudo estava bem.
Ansiava por reencontrá-las agora na segunda operação. Não via a hora de sua vez. Vão sem medo! Vocês verão estrelas enormes.
E veio a vez segunda da velhinha feliz. Todavia o que se viu no retorno pós-operatório foi aquela velhinha da vez primeira: discretíssima e cabisbaixa.
E se ficou com a sensação de que o céu azul de enormes estrelas multicores não compareceu ao segundo encontro.

Acaso

Data 12/abril/2004

     Pensou. O acaso talvez lhe desse a paz dos impossíveis. Tanto quisera ter feito. E o que fizera não só parecia pouco, como ínfimo. Com se mal tivesse se movido de modo que muita vez entendesse à exaustão. Agir pacientemente uma pessoa daquele tanto e ao fim sequer compreender o quanto de distância ainda havia.
Verdadeiramente aquele pouco lhe parecera então substancioso, que para nele aportar empenhara-se deveras. Não se tratava de ter para si nada que figurasse em demasia; nada que ostentasse extravagâncias, que pusesse em risco a falta, o desdém. Tampouco situações assemelhadas a desdouro e menosprezo.
O fato de tender a ser o quanto possa o bastante a si mesmo era uma opção de existência, não uma arrogância perante aos demais, perante a vida, perante a Deus. Solidão. Solilóquio. Situação de um sujeito que preza muito ter-se a si mesmo, sem projeções, sem quaisquer neuroses avassaladoras. A presença de outrem da forma como as circunstâncias e as naturalidades da vida delineassem. Presenças. Bem ou malquistas, que não soubesse bem se portar ante uma ou outra, ou ante ambas concomitantes. Do que não abdicava era da condição de se autodirecionar, conquanto isso já lhe tivesse acarretado dissabores não poucos. Mas considerava o conjunto de bem-aventuranças confortador.
Sim, o acaso é um comboio portador de inesperados e desconhecidos. Cabe ao homem com ele interagir. Mirá-lo. Sopesá-lo. Admiti-lo. Rechaçá-lo. Atos nada tranqüilos de se pôr em curso. O acaso quase sempre é impositor, não oferece nem possibilita escolha, opção. Traz consigo a trilha a quem se destina. É intruso. E sua irrupção nada tem a ver com as fatalidades prescritas ou impostas por ações ou medidas sobrenaturais. Irrompe como situações, fatos, sentimentos derivados dos interstícios de ações pensadas, articuladas. Do conjunto de conseqüências destas esperáveis, inesperadamente insurge o acaso. E sua força impositiva muita vez anula os obtidos resultados que se buscava e que se esperava.
Trava-se então férrea porfia entre o que se queria que se fizesse e o que se quer fazer. Duro entrevero. Pois que entre a pretensão e a gratuidade nada sobra de invalidade, de desapreço.
Nada é por acaso, a sapiente e sentenciosa afirmação. Sim, tampouco o acaso é por acaso, que, no entanto, é certamente por imponderabilidade da natureza social humana.
Gestar a vida sorvendo os amargores como efeito desses retemperos do imponderável. Não que devesse ser um paraíso, pois que o próprio paraíso sofreu solertemente suas amarguras. E geri-las com o desprendimento dos que se vêem em seu oceano apenas munidos de seu barco e remo, os quais, para não soçobrar, dependem de sua competente maestria em pilotagem. Geri-la com a imprescindível tarefa cabível aos que com sua coragem confrontadora aos medos que a circundam, que a espreitam, que a rondam, que figuram permanente ameaça, caminham na consecução do fatal fim da vida: construção/desconstrução; formação/transformação. E assim o presente sendo o futuro não-construído, o futuro prestes a, não engendrado, instaurar sua autenticação consignando-se em presente brotado pelo acaso desarraigado de quaisquer presumíveis previsões.
A consciência, que ao homem privilegia e superioriza, posto que pondere, que probabilize, tem como de suas mais caras insígnias a improbabilidade, a imponderabilidade.
Os desígnios que o acaso engendra. Os quais sofismam nítidas aparências de insaciedade, por mais inebriantes possam ser as contingentes seduções. As seduções do fácil, do inócuo. Que entumescem homens e homens de um cheio de nadas que se configuram em verdadeiro vazios. Que a esses mesmo homens, muitos, dão a dimensão e a contextura do inespesso, da indensidade. Não por acaso.

Microlembranças

Data 26/março/2004

     A cena do dia estampada pelo jornal era a de um mico em meio aos fios elétricos da rede de energia da rua. Teve um calafrio. Pertencia à comunidade anônima dos amantes dos animais. E tratava-se de um espécime meio radical. O que o punha muita vez em conflito consigo mesmo: ajustar-se à sua contemporaneidade sem abdicar da intransigente condição de defensor perpétuo dos animais.
Isso porque vive um mundo em que matar continua cada vez mais uma rotina na ordem do dia. Matam-se a si e aos outros: homens, mulheres, crianças e velhos. Inocentes, suspeitos e insuspeitos pagam pelo que não sabem. Regimes políticos em que matar não é crime, em que morrer matando é sublime.
Imagine-se, pois, o sujeito adepto à vida de qualquer, inclusive de insetos. Os insetos coabitam neste universo. No entanto, tidos já pela sua própria condição de ser: insetos, são sempre vistos como um potencial perigo, bichos que, por nocivos ao bem-estar do homem, devem ser automática, imediata e impulsivamente exterminados.
Os mosquitos! Malditos transmissores antigos de doenças de grande risco. Desde o impaludismo. Há que exterminá-los de imediato. O seu abate implica, não o fim, a contenção das suas doenças; não a extinção da endemia, um arrefecimento do epidêmico. Para a suspensão do desassossego. É de quem incapaz de extinguir o mal vai, infinda e desesperadamente, extinguindo os que involuntariamente o transmite.
As baratas! Como não evitá-las! Não deixá-las escapar! São a encarnada imagem do nojoso, da contaminação! Tanto que tornou-se enorme a rede de indústrias de inseticidas. Tratamento não diferenciado se dispensa aos demais bichos meio-domésticos, quando esporadicamente se insurgem pelas casas, nos (pseudo)quintais, na varanda, no quarto de despejo. Sina das aranhas, dos besouros, dos sapos, das mariposas, das lagartixas, das formigas, dos embuás, das lesmas, das abelhas.
Um mico por aqueles fios de alta tensão. Como fora possível permitirem um fato desse? O pobre macaquinho pensando percorrer algum lugar de parentesco com mata, árvores, sem imaginar a iminência de uma morte súbita. Havia que se ter tomado alguma medida rápida e eficaz. Chamar os bombeiros, alçar uma grande vara, chamar o zoológico de onde decerto escapara. Alguma coisa salvacionista deveria ter sido feita antes da fatal eletrocussão a qualquer momento.
Todavia, toda aquela aflição tratava-se de um puro subjetivismo anacrônico, pois estava ante uma fotografia trazida por um jornal. O que pressupunha pelo menos um dia (se não uma foto de arquivo à espera de publicação) depois do fato. Àquela hora o mico havia desaparecido (fato bem mais provável), eletrocutado por um fio qualquer daqueles, no qual não se pode tocar, ou resgatado por alguma intervenção a tempo (fato muito pouco provável).
Um macaco solto em plena metrópole deslizando pelas árvores elétricas daquela selva de prédios! Vieram-lhe evocadas, em conseqüência, duas situações vividas relacionadas com micos. Formado, diploma no bolso, ideais e ideologia lustrados, jogou-se no oceano da vida. E os caminhos que passara a percorrer, os quais levavam-no à ilha em que aportara e à civilização de que saíra, davam muitos bichos, pois se tratava de uma única estrada cuja travessia fazia-se em meio a quilômetros de mata virgem. Um reserva floresta do Estado. Micos aos montes. Dentre eles a relíquia anunciada em extinção: o microleão.
A outra. Um apartamento num dos mais famosos prédios da metrópole. Um sujeito apaixonado por micos e um mico que clandestinamente lhe fazia companhia. Morto o cara em trágico acidente, o mico foi parar numa gaiola. E esse desastre não demorou também para matá-lo.

Gato

Data 19/março/2004

     Fora um menino de seus gatos. Sempre os teve. Vidas acumpliciadas. Era notório o apego mútuo. Era visível a obediência felina a ele. Um estalar de dedo. Um miado que apenas ele sabia produzir. As modulações, certas entonações de voz. E o gato vinha. E o gato ali, ao seu lado, com ele ficava. Ora sentado em sua posição clássica de felino em contemplação a dimensionar sua circunstância. Ora roçagando-se nele em carícias. Ora espreguiçando em seu colo ou a seu lado quando deitados num lugar do quintal, num cômodo da casa.
E quando a hora de dormir chegava, não havia questionamento, iam para a cama. Ora juntos. Ora ele o esperava. Ora o gato já lá estava esperando-o. Ele aconchegava o gato ao peito. Rosto com rosto. O dedo polegar na boca (hábito ainda mantido na hora do sono). O resbunar do gato no sono, o seu acalanto.
A casa, até prova de palavra abalizada do contrário, ficava apreensiva, que diziam que aquela asma de gato passava. E deu-se que o menino foi diagnosticado um dia com bronquite. Fora levado ao médico, que por dá cá aquela palha gripava. De entupir tudo: nariz, garganta. Tosse comprida, falta de ar. Pronto! Era a asma do gato pega!
Não era. Dissera o médico que o perigo de transmissão de doenças do gato eram outras. Então o apaziguamento reassentou-se. Gato e menino em seu conluio de companheiros inseparáveis. A casa desassustada. Ao gato era permitida a cama até que o sono pegasse o menino. Então, era conduzido ao seu canto no chão, mas não muito distante do companheiro.
Os gatos. Sutis felídeos ensimesmados. Soturnos. É peremptoriamente melancólica a fisionomia de gato. Imutável. Única. Como se previamente fora feito modeladamente desse jeito e seu criador num sopro lhe ordenasse anda! Vá à vida humana e nela se introduza e com ela conviva, assim, de cara única.
Gato ao rato. Gato ao furto. Gato aos imortais saltos. Gato a sofisticados tratos. Gato para a expressão frase-feita como um ditado de uso de hábito. Gato para couro de tamborim. Gato para churrasquinho barato. Gato solitário a que nada é obstáculo. A tudo galga, transpõe com seus mortais saltos. Gato absolutamente sorumbático, mal mia ao reclamar por seus espaços. Gato, entanto, como se tresloucado, quando acometido de seu cio: puramente gritos desesperados.
Jovem, indignado com os maltratos dos mandonários militares; ultrajado pelos mesmos em seus diretos de liberdade e privacidade; engajado na descoberta de que o homem é que se faz o maior predador do homem, passou a adormecer recostado em Marx, em Lênin, em Graciliano, em Drummond, em Maiakovski. A tempestiva ansiedade de salvar o mundo, o homem exaltando Cristo, estampando Guevara.
Mas a bonança lhe devolveu os animais domésticos. Os gatos. A elegância e a placidez de Tium preto e de Tium rajado. Senhores de seus muros, das suas árvores, dos seus telhados. Vivia recomendando-lhes pouparem em sua caça os dois bem-te-vis dali. Os papa-ventos às vezes eram surpreendidos e em vão corriam, desesperadamente, muro afora.
Tium preto não apareceu um dia. Nem no outro. Nunca mais. E dia desses, um domingo, pausara a leitura de jornal, que à sombra de seu quintal fazia, para ficar contemplando a elegância de Tium rajado como que desfilando pelo muro, feito meio guardião, meio modelo.
E viu que, súbito, segundos, parou e desabou como fruta passada do alto do galho. No chão, jazia definitivamente mudo.

Deslumbramento

Data 12/março/2004

     Da outra calçada, ela mal percebera, ele saíra. Atravessou a rua, parando pouco adiante dela na calçada em que ia. E, ao aproximar-se, viu-se surpreendida por aquele episódio espantoso. Ficou como que petrificada. Boquiaberta. Ficou, certamente (pensa agora com muito pudor), muito mais feia do que já era. O que não fora capaz, no entanto, de demovê-lo do gesto. Ao contrário, embora figurasse uma timidez visível, não se retraiu. Ela, passos retesados, mas contínuos, foi-se desviando dele, ainda que com os olhos nele completamente pregados, ou, melhor talvez, naquele todo gestual que ele representava (mas se recorda, como se fosse agora, dos arrebatadores azuis dos seus olhos)
Deu um passo à frente sem agressividade e então cumprimentou-a e lhe disse, em linguagem de homem, o que um menino certamente ouvira, guardara, por muito gostar, e dela se valera naquela ocasião que por certo lhe parecera adequada.
A surpresa redobrara. E desta vez sim imobilizada, ouvira-o nitidamente pronunciar o seu nome (ela nunca o vira, nem o soubera). E em seguida formular (hoje não saberia precisar se já naquele tempo também, o que parecia muito provável, pois, como o gesto ofertante que seguramente o era, deveria muito tê-la ouvido) a estereobanalizada frase “uma flor para uma flor”. E depositar entre suas mãos desgovernadas pelo torpor do deslumbramento um não menos estereotipado botão de rosa. Isto depois de na rosa depositar um seu delicado e moroso beijo. E como arremate, um nada tímido perscrutante e devotado olhar verde-azul de eloqüência maior que a da voz. Que, aliás,  era nada eloqüente, de tão medrosamente frágil. Frágil em nada simulado. Frágil mesmo. Ousada fragilidade.
E deixando-a assim, muda, meio estúrdia, tornou à calçada de que viera, indo sem que ela se encorajasse em ao menos olhar qual direção tomara. A rosa entre as mãos. A mochila a tiracolo. Os cadernos e livros, no braço esquerdo, que sempre lhe foram tão pesados, nem pareciam estar ali.
Tornada a si, já um pouco recobrada e desprendida do assombro, a cabeça retomando o governo, pôs-se a ir. Talvez tivesse já atrasada para a escola. Seria outro choque, se bem que de outra natureza, o fato de chegar na escola com atraso. Nunca lhe acontecera isso.      Apressara-se. Chegara com a campainha soando.
Fora muito incômodo e nada fácil explicar muitas vezes. Quase não criam na verdadeira história que sucintamente repetia. Todavia, mais que incômodo era a completa absorção em que ficara durante todo o período. Impossível concentrar-se. Fora um sacrifício. O fato, vivo, não a deixava. Findas as aulas, custosamente livrou-se das amigas. Queria-se só na temerosa esperança de que, súbito, de uma esquina ele reaparecesse. Naquela hora, mal o percebera. Os olhos logo a tomaram. Fiapos apenas de vastos cabelos tão loiros quanto os dela. Mas não deixara de notar, todavia, que era sem sardas e magro. Sério. Uma camiseta branca. Um short azul. Alpercatas também azuis.
Tudo num átimo, naquele relâmpago instantâneo em que beijando a rosa, pousou-a em suas mãos. Fitou-a, que baixou os olhos, tal a força daqueles azuis-esverdeados sobre ela. E ir-se embora sem lhe surgir, no final das aulas, de qualquer esquina. Nem no outro dia. Nem em dia nenhum. Desapareceu para sempre, como fora desaparecendo cada uma das pétalas para nunca mais.

Homessa

Data 05/março/2004

     A severidade dele. Homem cuja fisionomia estampava um fleumático prestes a expoldir-se em vitupérios crivados de lancinantes palavras cutelares, palavras demolidoras. Os olhos esbugalhando sua indignação incontida e rebentada. O nariz grosso e apimentado, de certo irritadiço com o responsável por tamanha provocação a seu dono. Este o senhor Antônio que lhe diziam ser e que nunca vira.
O que sempre vira foi um fleumático, sim, porém amável e eclético dirigente escolar daquele educandário. Afamado homem bravo, conforme a versão dominante na escola. Talvez fosse uma conduta de forma programada, previamente pensada por Antônio, para, na presença dele, não se permitir ser aquele afamado vulcão. Fato logo notado e resultante de longas conversas na escola.
Mas o tempo de convivência demonstrou não ser verdadeiramente, por uma razão pessoal qualquer, lá dele, uma posição, se não concreta, sem simulações e disfarces. Seu procedimento em relação a ele era de fato espontâneo. Conversa solta. Expressões brincalhonas e ironias. Muitos de seus comentários e observações argutas quase sempre se faziam em tom irônico ou zombeteiro e acompanhado de estridulante gargalhada provinda de uma face enrubescida com o que dissera.
Antônio apreciava com ele travar, de forma acalorada, breves discussões a respeito de diversos temas, desde educação a política, sua paixão. Discussões que o punham em estado vultuoso. No extremo de sua veemência, parecia estar sendo acometido de uma apoplexia. Todavia, assim, felizmente, não era. Na mesma velocidade com que abeirava aquele estado, tornava ao normal. E o que parecia uma fúria devastadora, reequilibrava-se. A calmaria de um homem soturno ouvinte paciencioso, semblante indevassável a perscrutar confrontadamente o interlocutor. Talvez a isso se devesse outra história a seu respeito, conforme a qual as pessoas em sua presença, ao expor-lhe algo, ficavam aflitas, apreensivas, temerosas, desconcertadas, ante aquele olhar azul fixo, penetrante, enigmático em completo emudecimento, ouvindo, ouvindo. O mediano corpo robusto, propendendo a gordo, parecia ainda mais crescer. Depois pausada e laconicamente mais sentenciava que replicava.
Embora não quisesse descrer daquela corrente história e porque fosse conhecedor da outra face de Antônio, mais o compreendia. Tratava-se de uma denunciada e crônica misantropia. Antônio muito pouco entregava de si e a muito menos pessoas ainda. Certamente devia ter controladíssimo pavor do público, ao qual jamais permitira bisbilhotar o seu íntimo. Com ele abria-se. Tratava com rigidez e radical regramento o único filho e a mulher. (Outra história: castigava perversamente a ambos.)
Antônio era comunista radical. Mais do que isso, stalinista devoto. Eis quando mais assustava a possibilidade da concreção da apoplexia. Abominava, numa loquaz oratória viperina, os fascistas e nazistas expoliadores do povo. Antônio dedicava-se à astronomia. Contava-lhe fatos e fatos. O cosmos, os astros, os eclipses, o misterioso e instigante universo o fascinavam.
Tivera com ele um singular convívio. Cria ter sido útil durante esse período à existência de Antônio, que singular e quase unicamente (somente outro amigo dispensava-lhe o mesmo tratamento) o chamava de Chico.
Depois ele se foi daquela escola. Rarearam seus contatos: encontros esporádicos, casuais.
Depois soube que Antônio havia se mudado para outra cidade, o que o fez olvidá-lo quase por completo.
Por fim, chegou-lhe a notícia ruim de que Antônio se suicidara com um tiro de revólver no peito. (Justamente ele que detestava Getúlio Vargas.)

Inútil resistência à inutilidade

Data 27/fev/2004

     Estremeceu. De certo modo agiu com determinação para que um dia, logo, breve, soubesse devidamente do que acabara de saber. E como se para espicaçar seu indômito inconformismo, a brevidade não se fizera. Algumas ordens de empecilho se interpuseram a ponto de o que supunha fosse uma questão de semanas tornou-se meses. Meses longos, longos, que o irritaram pesadamente.
Não havia caso anterior que ao menos se igualasse a tanta demora. Fora a quase injúrias explícitas. Tal ineditismo haveria de se dar justamente com ele, dar-se exatamente quando chegara a sua hora. Ele que, quando exercera poder de agir em situações dessa natureza, nunca admitira que pelo menos metade do tempo que lhe coubera pudesse se passar com os requerentes.
Mas, enfim, não obstante estes percalços todos, cujo fato em si mesmo – a extrema morosidade – muito o aporrinhara, sobretudo por julgar-se um sujeito digno de consideração e respeito, o que pretendia se consumara. Fora oficialmente dado em condições de requerer, quando o desejasse, sua aposentadoria. Era a, naqueles meses obsessivamente ansiada, consolidação legal-burocrática do tempo de trabalho que o tornava apto a deixar o trabalho.
E surpreendentemente não se alegrou. De certo, mecanicamente, aspirava, posto que o fizesse de forma muito velada, diria mesmo que secreta, à aposentadoria como via e ouvia todo o mundo manifestar. E as imagens que o acercavam também mecanicamente consistiam nos estereótipos que tais manifestações emanavam. Liberto das amarras do horário a ser cumprido. Liberto para as programações que lhe conviessem. E os estereótipos pululavam em sua cabeça: vestido de pijama; organizando pescarias; programando viagens; jogando cartas; organizando churrascos de fins de semana.
Contudo, acontecia algo, uma particularidade que nas imagens insurgentes percebia: em todas as situações representadas, o homem que deveria ser ele estava gordo, mais propriamente barrigudo, ombros encurvados, cabelos grisalhos.
Estremeceu. Em verdade, embora estereotipadamente nunca se pronunciara em desfavor da aposentadoria, nela também jamais pensara, melhor dizer que circunstancialmente em ocasiões em que a mesma figurava como protagonista de conversações ou festas comemorativas. Sim, via de regra, as aposentadorias são comemoradas. Armam-se festas em homenagem ao aposentado como se a um condecorado com honras e méritos.
Estremeceu. Tinha a aposentadoria à mão. A bem dizer, verdadeiramente, não se dera conta disso. Se atingira o tempo limite, não conseguia enxergar aquilo como a condição para que deixasse de atuar, deixasse de fazer o que desenvolvia com gosto, entusiasmo e projeções a atingir. Se aposentadoria significasse um substituto ao esgotamento disso, seguramente não se achava preparado para recebê-la.
E repassava-se. Automirava-se. Cotejava. Não. Não parecia obsoleto, desatualizado, preso a inoperantes conceitos e métodos. Concluíra por considerar-se um cara sintonizado. Outro fator que o incompatibilizava com aposentadoria.
Havia, porém, um clima generalizado de incomodidade. Deixar de aposentar-se incomodava. E essa incomodação de alguma forma o incomodava. Então, posto que fortes vozes ressoassem apontando-lhe o que entendiam justos motivos, resistia preso ao medo de deixar de ser, caso se decidisse por deixar de fazer.