Esconjuro

Esconjuro
Data 30/jul/2004

     Soube que nada mais havia a fazer. Mas indignara-se ante tal condição. Não ter mais nada a fazer expunha limitada a sabedoria. Melhor: denunciava a franca condição pouco sólida de uma sabedoria incontestavelmente tão evoluída.
Da pedra lascada ao computador, não só erigimos a espinha e descobrimos e aperfeiçoamos evolutiva e criativamente a extensão de nossos membros, como os aperfeiçoamos, os potencializamos em desdobrados mecanismos, como a vários atribuímos a chancela de sofisticados.
É certo que contra a morte, há remédio ou antídoto algum que a detenha e a impeça. E talvez seja também certo que nem os queiramos mesmo, que a morte, dentre outras tantas funções, tenha como a principal máxima a preservação da vida. Que seria da vida, se a morte não lhe fosse uma perene e irrefutável fatalidade.
Todavia, por isso, a incessante busca de criar formas e mecanismos de rechaçá-la mais e mais. É isso. A vida é de combate à morte. Furtar-se dela, driblá-la a cada ato. Enquanto, tratar de fazê-la preciosa, extrair-lhe os prazeres e gratuidades que levem a tê-la como a dádiva concedida. E então, por fim, que a fatalidade baixe para a consumação do veredicto. E que, apaziguado, se possa evocar as aceitações poéticas: “Alô, iniludível! O meu dia foi bom, pode a noite descer”. Pronta está a casa para habitares. Mais faria se, não obstante longeva a vida o quanto podemos torná-la, tão curto não fosse o tempo de só habitá-la.
As presas não se entregam. Morrem lutando, quando se vêem ante a iminente fatalidade de serem devoradas pela morte que as abaterá, para que seu predador mantenha a sobrevivência. Então seu instinto não lhe permite absoluta passividade. E dá-se a caçada, o confronto, a luta e o abate sob o último recurso da vítima: o berro, o grito, o urro, num misto de dor e amargor.
Urgia buscar saída. Não se podia admitir que tudo se fizesse como uma consumação programada. A intervenção gera situações, atos que podem criar o inesperado, o não-entrevisto. Como o acaso súbito exige a reorganização de atos, medidas, ações mediante o que se constitui como novo.
Pôr-se a pensar no modo como conseguiria impedir o dado como fim. Mais que fuga; mais que instintivo medo; mais que a animalesca relutância ante o feroz e faminto predador, havia nele uma intuitiva certeza de que não era chegada a hora.
De certo estava sendo posto a prova. Estava ante uma experimentação provocativa a ver qual seria seu procedimento.
Forjar sua defesa era necessário. Era necessário não perder nenhum minuto. Traçar planos vários, pô-los em curso, afastar aquela equívoca fatalidade.
Não se bastava ainda à vida. Tampouco ela a ele. Escavar seus fossos, levantar suas estacas, criar seus estratagemas.
Havia, sim, o que fazer. Havia de fazer, refazer-se para garantir seu fazendo-se.

Terra

Terra
Data 23/jul/2004

     A terra. Matéria feita de nada e de tudo. Que a tudo envolve, gera, vivifica e nadifica. A terra que acoberta pedras, ferros, zincos, prata, ouro. A terra que traga, engole os muitos artefatos putrefeitos por seus homens. A terra com seus tumores expostos e intumescidos, que, súbito, irrompem, expelindo seu pus incandescido e fervente, calcinando o que pela frente vai encontrando. A terra que com a água mantém essa imemorável combinação contrastante para a sustentável compactação desse planeta arredondado, soturno, refratário, diáfano.
A terra à mercê dos homens que nela fazem e desfazem; que dela dispõem; que a tratam como mera matéria inerte, perene, inacabável, eternamente fértil. A terra que se faz tijolo, argamassa para as várias e mutáveis moradas de homens. A terra imprescindível e única para a erva, a relva, as flores reais, avivando o prazer de existir aos homens nessas suas moradas.
A terra com seus muitos sistemas funcionais (ainda) desconhecidos de seus curiosos, atrevidos, teimosos e indômitos homens, aos quais lhes parecem perigosos inimigos todos os demais seres vivos que não sejam inofensivos e não lhes sirvam. Que consideram inúteis e inimigas as legiões de insetos. Inúteis e perigosas as muitas manadas de bichos tidos como ferozes. Apenas lhes servem pequenas porções de espécies para com outras tantas de pássaros comporem os zoológicos.
A terra que é única e insubstituível à condição de vida aos homens, os quais tão desprezivelmente a tratam, como se filhos a lhe dizerm que, se os pariu, tem a obrigação de os prover. E a terra, mãe maltratada, como toda mãe, os provê, embora tão mutilada quanto desprezada. A terra os provê da água doce potável à vida; provê-os do mantimento imprescindível à vida, que de sua própria entranha brota; que indiretamente está nos outros víveres que à manutenção da vida humana servem.
A sedosa terra. A maciez de sua textura. A indescritível temperatura de sua pele, de seu corpo. A terra mãe-pátria-berço de cuja atração parece fugir o homem quanto mais se sofistica em sua escalada civilizatória que cada vez mais o barbariza. Uma inútil destelurização suposta, pois que é terra e nela se converterá por mais pedra e cimento com que se reveste na ilusória pretensão dela se isolar.
O seu quintal de terra. Com seu gramado. Com suas plantas, árvores frutíferas. Com seu canto onde enterra seus animais. Em covas que ele mesmo escava. A terra aconchegante. Terra cujo contato, cujo hálito apaziguam. Terra cujo seio dá a seus cães mortos como o definitivo abrigo; a seus entes, a seus amigos, e que a ela se dará também como sua última entrega.

Contar e inventar histórias

Contar e inventar histórias
Data 16/jul/2004

     A prática de inventar histórias talvez lhe viera da prática de ouvir histórias. E o gosto e o prazer de contar histórias por certo é conseqüência desta prática de ouvir histórias.
No grupo escolar da sua infância, lhe acontecera a prática de contar e ouvir histórias. Nas duas últimas séries, a mesma professora fora a delicada e altaneira contadora.
Aos sábados. Depois do recreio. Ânimos refreados. Seus alunos postavam-se relaxadamente na carteira (da vez primeira explicara que não se confundisse relaxar com desleixar: dar vazão à alma, dar ânimo à solta imaginação; mas o corpo em postura respeitosa, própria de pessoas educadas.)
E entre simpática, amável e solene, arranjava na mesa o livro de que emanariam os inebriantes acontecimentos, recompunha as cortinas para as devidas luminosidade e penumbra.
Enquanto cadenciadamente ia dispondo o ambiente e os espíritos, captava as atenções recaptulando os acontecidos contados até o instante.
Histórias apresentadas de forma folhetinesca. A cada sábado um episódio. De certo outro recurso para fomentar a curiosidade da audiência. Pronta a sala, os olhos todos desejosos de saber como prosseguiria a história.
Então, em pé, vozes representadas e distinguidas, devidamente entoadas e entonadas, expressão facial e gestualidades do corpo com os braços e mãos simulando situações. E a todos embarcava no universo sagrado e mágico da imaginação.
Sua cristandade impunha-lhe a propensão a tomar para sua história a história da bíblia. E suas crianças, entre temerosas e aventureiras, metiam-se pelo vale do mar aberto pelo mágico bordão de Moisés, pelas façanhas de José no Egito.
Nas férias escolares, as histórias sabatinas povoadas de gente com auréolas, mantos barbas e cabelos longos ficavam suspensas. A circunspecta e altiva senhora ia descansar.
Era então que para algumas daquelas crianças entrava em cena outra contadora de história. E outras eram suas histórias, outras as personagens, outro o lugar e a hora.
Iam, em férias, para uma fazenda. A contadora dessas histórias era a avó cujo marido, o avô, a fazenda administrava.
A avó era magra e rústica. Dócil e brava. Risonha e carrancuda. À noite ia ao alpendre suspenso e aberto ao céu de estrelas e luar. Sentava-se em sua cadeira preguiçosa. Eles, pelo chão, sentados, deitados.
E começava um rosário de histórias povoadas de lobsomens, rios, matas, cafezais, onças, macacos, sapos, cobras, cães, bois, cavalos, roças, homens rústicos, simples, malvestidos, malcalçados.
Um mundo não menos mágico que o outro, porém inteiramente mítico. Mundo em que a invenção não ia além de si mesma. Mundo em que a ambiência, o espaço e as personagens, ainda que dotados dos mágicos poderes que a invenção lhes emprestava, eram dos receptores reconhecidos, tangíveis.

Desabafo

Desabafo
Data 08/jul/2004

     Teve um susto ante reflexão tão incômoda quanto circunstancial. Cumpria um hábito de rotina a que se aplica há muito e que hoje é recomendação médica como procedimento muito saudável.
E o instante da vida real formando aquele todo humano-urbano tecido por justaposição de enredos múltiplos, heterogêneos, feitos de zumbidos e roncos de motores automobilísticos; de vozes em modulações várias, de músicas, barulhos, ruídos; feitos de cheiros podres, pútridos, aromáticos, nauseabundos, fétidos; feitos de gente feminina, masculina e diferente: branca, negra, mestiça, gorda, magra, feia, bonita, sensual, elegante, irreverente, malvestida, compenetrada, espalhafatosa, meiga, solícita, solidária, ladra, violenta, bem-humorada, mal-humorada; feitos de automóveis, ônibus, motocicletas, bicicletas, aviões nos ares, todos portando gente como aquela; feitos de pássaros amontoados em praças, árvores, fios elétricos, pastando, voando, gorjeando; feitos de prédios cujas arquiteturas contemporâneas (algumas poucas antigas) com as praças, os monumentos e ruas compõem os cenários da viva ficção que a vida real faz brotar a cada manhã.
Este, um extrato da cotidiana vida humana feita de seus instantâneos continuamente mutáveis e infindos, cujos efeitos são fatos crônicos na sua permanente repetição; fatos inusitados, cujas inventividades instauram o novo, o que não se pensara possível; fatos cujos atos instauram o trágico feito de devassas, de catástrofes, de extermínios de toda ordem; feito de dilacerantes dores, lágrimas, mágoas. Fatos outros cujos atos são radicalmente antropocêntricos: a vida humana preservada sobre todas as coisas até o seu natural fim como a meta máxima e sem medida.
Vai um sujeito isso tudo ouvindo. Vai um sujeito isso tudo cheirando. Vai um sujeito isso tudo vendo. Vai um sujeito isso tudo degustando. Vai um sujeito isso tudo sentido.
Um sujeito a tudo isso vai vendo-ouvindo-cheirando-degustando-sentindo-pensando. E à medida que assim vai, também o acometem as indagações de empréstimo ou não, as quais vai, em contidas afirmativas exclamatórias, ponderando.
Então era isso. Tudo: infância, adolescência, juventude, estudos, amores, dissabores, desejos, buscas, expectativas, esperanças desaguariam nisto. A luta renhida a cada manhã, para ao cabo se constatar o em vão. Então era isso: nome, honra, dignidade rimando com anônimo, com perigo de fome, com fadado à marginalidade. Então era isso: o fundo do poço dando em água salobra; entrada permitida apenas no salão dos perdedores, que vencer já vem de berço, para o que pouco ou nada resolvem terços, para o que pouco ou nada servem as bênçãos, mas sim as grandes fortunas avessas a rimas importunas.
Então a vida era isso: matarmo-nos por um pedaço de osso; sucumbir os outros para que a medalha se pendure em mosso pescoço; sempre para esmola algum caroço, que isto dignifica o nosso topo.
Então a vida era isso: ao cabo, matar ou morrer, ganhar ou perder, amealhar ou ceder, se esconder ou acontecer, perambular ou se estabelecer.
Então a vida era para isso: risos, ríctus, ritos, ditos, grifos, elevadiços, delitos, mitos, místicos, míseros, ricos, por fim – sumiços.
E esse sujeito que a tudo isto via-ouvia-cheirava-sentia-degustava-pensava captava ao mesmo tempo o ritmo dos cães que pelas ruas buscavam sua comida, os cães que nas casas presas latiam em defesa de sua comida e os urubus, sobranceiros, sobrevoando e decerto a tudo vendo-ouvindo-cheirando, certos de que tudo embaixo acaba se putrefazendo em sua comida.

Construir/desconstruir

Data 04/jul/2004

     Construir é desconstruir, talvez seja a máxima máxima humana. Nada há que se faça que não decorra daí ou para aí se converta. E é certo que são atos intricados, conjugados e mutuamente necessários, embora contrários, que, afinal, sinônimos não prescindem de antônimos.
A crer no que sustenta até agora a ciência, assim fez-se com o bigue-bangue; a crer na bíblia, assim se fez com Adão e Eva: do Paraíso ao vale de lágrimas.
A desconstrução é ato dos que não construíram, que por razões ou desrazões opõem-se ao que fora construído. Todavia também desconstroem o construído os que se ocupam em construir.
Desconstruir para compreender a construção ocupa o cotidiano de concentrados trabalhos de cientistas e tecnólogos. Dedicam a vida a desconstruir a condição de ser de cobaias, cadáveres. Ainda que pressuponham como efeito uma construção de benemerência humana.
Quanto menos tribais, mais civilizados. E as urbes desconstroem formas de vidas primárias por viverem e conviverem povos diferentes numa nova forma de construção de vida humana, cujo efeito, a civilidade, é dado como a evolução global da espécie.
Então, construir implica desconstruir. Desconstruir pressupõe construir.
Guerra é ato dado como causa de se desconstruir algo em nome de suposta necessidade de se construir outra coisa. Deu-se a desconstrução da aristocracia imperial russa para se construir um Estado popular cujo resultado foi a conhecida União Soviética. Esta mesma, décadas depois, desconstruída para a nova construção de Estados já sidos. A desconstrução do império inglês de que resultou a construção de nova forma imperial: o moderno e pós-moderno império dos Estados Unidos da América
A construção de grandes capitais que implicam desconstrução de muitos pequenos. A desconstrução de múltiplas etnias e culturas que assim se fazem na construção das que são ostentadas como os valores dignificantes.
A desconstrução do artesanato servidor das simples e modestas necessidades pela construção dos complexos, sofisticados e excessivos objetos de mercado de consumo
A construção de um contingente bilionésimo de seres humanos em situações inumanas de absoluta pobreza e de miserabilidade pela construção de abastadas e acumuladas riquezas de alguns milhares.
Que há desconstruções construtivas, as há. As que vão na contramão da história; as que vão apontadas como contravenção; as que incomodam, porque desmodelizam, porque incluem, porque desobstruem; as infindas desconstruções que a linguagem popular descomprometida inflige à recatada e conservadora língua.
A construção de grandes hidrelétricas para a energia de que depende completamente esta sociedade contemporânea, desconstruindo a estrutura de rios cuja forma parecia sagrada, portanto, intocável. Desconstrói-lhes o leito, as margens, as matas ciliares, a feição, a imagem. Desconstrói povoados; desconstrói potenciais construções alimentares em terras férteis submergidas.
A construção de rodovias pavimentadas cujos bens sociais conseqüentes são inquestionáveis; cujas desconstruções de ferrovias e suas tradições sociais são deploráveis.
A construção industrial tão incensada por seus muitos benefícios nesta era do capitalismo de mercado de consumo, cujas desconstruções do límpido oxigênio, da vida de rios, das condições climáticas, são inaceitáveis.
A desconstrução intelectual, cultural, dos valores humanos tão caros à grandeza próspera do homem solidário, criativo e dadivoso, exatamente porque se construiu a democrática expansão da ocupação do bancos escolares em todos os níveis do sistema de educação.
Então, há a construção que desconstrói e a desconstrução que constrói.

O fim como o começo

Data 25/jun/2004

     Quando foi presenteado portava um nome que no ato fora declinado. Era ainda completo filhote. Espigado cão de orelhona caída e rabo inteiro (ambos não ridiculamente cortados). Com os outros aninhava-se, juntos à mãe. Cadela bela, seter de bronze luzidio. Embora animalesca mãe como as demais, não agredia quem se aproximasse das crias. Dócil cadela, não menos protetora. Caso lhe arrebatassem um filhote ia atrás lambendo, saltando, ganindo evidentes declarações de que se tratava de cria sua.
Era uma ninhada farta. Donos cujos cães faziam parte do prazer de compartilhar a vida tendo em torno certas maviosas criaturas: árvores sendo habitat e passagens de pássaros; uns cães que tanto guarneciam quanto enterneciam a vida doméstica pachorrenta.
Os donos havia que repartir os filhotes com os que aos cães votavam igual apego; com os que com os cães compartiam o bem-estar de viver; com os que davam boa comida, bebida, abrigo digno, assistência outras, veterinárias; com os que têm no cão um companheiro: em casa, onde o cão está, postado está o dono.
Tal era o presenteado. Que ao deparar-se com ao ninhada, logo e viu completamente afeiçoado àquele filhotinho negro. Que lhe veio, tropegamente, em seu mau equilíbrio de noviço, ao encontro. Trocaram carícias. Mãos alisando os pêlos, a cabeça, apertando o focinho. Boca concedendo mordidelas.
O cãozinho negro já não estava pertencendo à prodigiosa prole cuja mãe parecia aprovar a doação, a considerar os grandes e demorados olhares postos no homem, no filho e seu conformado arfar de língua agrandada.
Ido, o nome de ninhada, posto por influência de novela em vigor, foi substituído. E não chegara reinante e soberano, que a casa era povoada por outros cães feitos, sarados. Senhores dos espaços. Aos quais veementes recomendações para aceitação foram administradas. Mas, ele, filhote, por mais não quisessem, apanhou por seus atrevimentos de cão novo e por antipatias a novato.
O tempo, composto de bons repastos, bons tratos, aprendizagens que convivência e hábitos impõem, ao cabo de meses, deu num canzarrão. Esbelto, agilíssimo, mais, bem mais, que os anteriores. Negro cão com aparência parruda. Latido potente. Que sempre espanta muita gente.
Em quase tudo, o primeiro. Campainha acionada, chegava à frente do tropel que sempre dá o atendimento imediato.
Mesmo naquelas horas de aguda sesta canina, não cedia; e os pássaros mal podiam, mais sossegadamente, mesmo nessas horas, pastar.
Elegância. Andar feito aqueles corcéis ensinadíssimos na variabilidade marchadeira a mando de seu cavaleiro-instrutor. Toda vista primeira queria sabe onde havia sido adestrado para aquele exibicionista trote, mais apropriado a cavalo de exposição, de equitação.
Nada do que se credita aos sestros atribuídos às índoles de cães nele se confirmava. Enquanto comia nenhuma manifestação de contrariedade, a despeito do que lhe fizessem: carícia, escovação, investigação contra os parasitas. Se por alguma razão aprisionado, mantinha-se em conformado silêncio. Nenhuma estrepolia na hora do banho.
Ao pé do dono, estivesse este onde. Feroz, com seu latidão contra estranhos. Todavia, se junto ao dono, estranho deixava de ser.
Mas a senilidade se consumou. Ancião longevo, todavia, a velhice lhe foi subtraindo (e acrescentando). Inculcou-lhe um medo voraz de tudo. Os outros cães, súbito, passaram a lhe pegar com um ódio incompreensível. Então foi confinado. Quando se deu conta, cadê aquele vozeirão feroz. Emudecera-se para nunca mais. Sequer um mínimo ganido. A massa atlética, súbito, somente ficou esquelética. O lépido marchador não mais, sequer se equilibrava.
Agora, quando ele mal se sustinha de pé e ao seu encontro esforçava-se por ir, o seu dono condoído tinha a imagem do filhote que lhe veio, ainda cheirando a leite, trôpego, em completo desequilíbrio, ao encontro.

Espectros

Data 14/jun/2004

     Espectros rondando. Como se pouco fora toda a vida desfiada por esses vale de lágrimas e de dádivas, de fadas e de enfados. Como se poucos, atos e omissões que lhes são creditados, de que passam a ser portadores enquanto forem. Grassam a granel pelos espaços físicos e imaginários, compondo um vivo arsenal de homens mortos. Atores vivos dessa grande e eterna epopéia dramática cujo palco é esta espaçonave Terra solta no abismo.
Espectros rondando. Certas vozes em surdinas percutindo decisivas na costura do destino de criaturas. Vozes indômitas, tortuosas, torturantes vozes. Ressoam nesses espectros o gosto de seus ácidos perdigotos, o pútrido de seus arrotos. Espectros expelindo seus arroubos, embora suas presas os saibam mortos. Todavia, se lhes figuram insepultos.
Espectros rondando. Plantados em praças, expostos aos olhos autômatos dos que vão e vem levando consigo espectros outros; espectros cuja história específica deles habitam, aos quais impossível ser indiferentes e que, por isso, nada podem fazer senão todos os olhares neles pousarem.
Espectros feitos portentos, portando ignotas histórias anônimas de milhões de almas perambulantes na consecução cáustica de sua própria história, calcinada pelo sofrimento de irem sendo espectros vivos, lutando contra a fome que ameaça torná-los completamente inermes.
Espectros rondando. Figurantes de um imaginário que sobrepaira em forma de paradigma, dado como digno de crédito, para espelhar o rumo altivo da vida. Compõem a cartilha do pensamento ideológico construtor de histórias, as quais pretendem sejam de face unânime, para que nada escape aos domínios de seus conhecidos cinco sentidos.
Figurantes de um imaginário cujas sentenças dogmáticas habitam o abstrato com suas cláusulas várias, contrárias, contraditórias. Na sua quietude beatificada, emplacam os sinais do trânsito a ser percorrido nas concretas vias de pedra, e lama, e plumas, e pátrios, e plácidos, e lumes e penumbras.
Espectros rondando. Quando à mesa certos simbolizados lugares vazios estão tomados. Quando em certas conversas são o referente das falas. Fetiches tornados para coletivas e heterogêneas causas. Mobilizadores e esteios de causas sociais justas, injustas, ingênuas, escusas.
Espectros de múltiplos e diferentes desejos. Que acendem e movem esperanças e desesperos.
Esperanças que mais que sete anos, toda a vida dedicam por impossível Raquel: espectro que as vivifica e as definha.
Esperanças cultivadas por espectros cujos estercos e acres águas artificiais são para que não pereçam, mas nunca alcancem.
Esperanças debulhadas em perdões, amores e ódios que se refazem de suas cinzas, para novamente amar, odiar e perdoar.
Esperanças feito pedras de rosário colhidas a cada graça: o apaixonado olhar amado; os inesperados agrados; a incondicional dedicação; a tácita e silente presença; a devotada ternura; a despida tolerância.
E os espectros das desesperanças feitas desesperos.
O desespero do desamor. O desespero da alucinante solidão. O desespero da incompreensão. O desespero do medo. O desespero do fim. O desespero de um fatal não ao que sempre fora sim. O desespero pânico da suspeita de que Deus não passe de um ardiloso e perfeito espectro.

Em cismar sozinho é o que há

Data 04/jun/2004

     Por vezes se vê tomado de um certo torpor de olhar o todo sem enxergar nada. Enxergar a visão panorâmica de um nada, feito puro pensamento puro. Ficar-se como se em hipnose. Desgoverno de juízo. A alma parece em absoluto estado de abstração.
Nada semelhante. Nem o sonho. Nem o delírio. Os sentidos embotados, recolhidos em si mesmo. Sujeito feito um jabuti entranhado em sua própria carapaça. Que é seu corpo cavernoso em cujos esconsos cabe seu pescoço portador de seu pensante miolo.
Torpor que encasula o homem que se põe em estado de cismar.
Aquele absoluto escuro claramente visto pelo matuto, quando matuto havia. De cócoras, chapéu arribado à testa, cigarro de palha da orelha à boca, isqueiro aceso pondo o fumo em boa brasa. Depois ficar ali tragando, olhando a fumaça, olhando para o nada que é um roçado cheio de mantimento esperando se livrar daqueles importunos matos. E ele pita e olha o nada, a fumaça, a brasa. Prazerosíssima síncope de si mesmo.
Por vezes, quando a si restituído dessa mínima e intensa desmiragem, pensamento na palma da mão da mente sã, põe-se a raciocinar. O raciocínio que é avesso a desbundes melancólicos sensoriais fica em estado de ponderabilidades na consecução da precisa clareza a essa ébria condição pela qual de quando em vez se entrega o homem, esse animal único com o dom da consciência, de domínio do raciocínio.
Entregar-se a estado letárgico, quando nada daí advenha, senão incônscias desrazões, omissões, fuga ao que a vida ostenta para ser desvencilhado. Não cabem ao poder do raciocínio concessões ao inconsciente vadio pondo-se a arquitetar desconstruções.
A natureza bruta em seu acabado estado de coisa pronta e transformável à mercê do ser único que dela não é dependente absoluto. Esse todo mágico poderoso vem sendo dado cada vez mais como quem da racionalidade humana depende. O que nela fora dádiva ao conforto desse especial filho-irmão começou a acentuar-se em ameaça de profundas e irreversíveis desgraças.
Talvez por isso mesmo, exercendo esse seu misterioso mágico poder incute, em muitos desses seus filhos-irmãos, o sentimento de intransigência defesa do que lhe é essência: suas matas e florestas, suas águas – rios, mares, os outros seres animais, dos quais, embora não percebam, é sim dependente e não apenas eles o são.
A urgência de desembotar-se e compreender que não há nenhuma absoluta independência na face da Terra, no incomensurável universo cósmico. Que em vez de desesperada e despendiosissimamente ficar a constatar estados desérticos e estéreis nos outros astros, devia o homem cultivar, preservar, cultuar sua mãe-irmã-amada Terra, seus mesmos irmãos com os quais dela são filhos e nela habitam.
Ah o homem. Esse complexo de nervos vibrantes que somatizam uma linguagem. Esse complexo de Édipo. Esse complexo de Electra. Esse complexo de neurônios prodigiosos produzindo. Produzindo angústias. Produzindo loucuras. Produzindo diabruras. Produzindo milagres. Escavando espectros vivos nos escondidos da cavilosa vontade de complexos desejos e insaciedades.
Pois então. Tais reflexões pululando em seu cérebro solto pelo devaneio racioemotivo subseqüente àquele esgar de entorpecimento lúcido em que a linguagem não é raciocínio, mas pura sensibilidade, tais reflexões pensam o mundo com razão crivando-se em pungente emoção.
O olhar no fosso do horizonte. O olhar no fundo do brilho do olhar da amada. O olhar esparramado no bem-te-vi que, na árvore, a seu modo, se protege do aguaceiro da chuva. O Olhar difuso perdido na flutuação da lua branca.
Olhares que cismam, que divagam, levando o homem à mesmice do sempre vivo desconhecido.

Todos são cada um

Data 28/maio/2004

     Cada qual com sua sina. Cada qual com suas ruínas. Cada qual com sua mania. Cada qual com sua concepção de vida. Cada qual devoto de sua rainha. Cada qual consumindo sua cocaína. Cada qual suportando sua latrina. Cada qual com sua eterna menina, com seu eterno menino. Cada qual remoendo seus desatinos. Cada qual com sua condição peregrina. Cada qual freqüentando o seu cassino. Cada qual ingerindo sua pinga. Cada qual jogando com sua mandinga. Cada qual ostentando sua sigla. Cada qual maldizendo sua fadiga. Cada qual envolto por intrigas. Cada qual apaixonando-se por suas ninfas. Cada qual odiando seus inimigos. Cada qual esfalfando-se pr seus filhos. Cada qual enaltecendo seus maridos. Cada qual se julgando muito digno. Cada qual portando seu estilingue. Cada qual portando sua proteção divina. Cada qual escondendo sua farinha. Cada qual tomando sua mesinha. Cada qual fugindo à sua carnificina. Cada qual achando inigualável sua oficina. Cada qual ocultando sua orgia. Cada qual desconsiderando sua covardia. Cada qual às voltas com seus tios, com suas tias. Cada qual sobrepondo sua família. Cada qual curtindo sua nostalgia. Cada qual com sua cobiça. Cada qual com sua apatia. Cada qual com sua valentia. Cada qual com sua esquizofrenia. Cada qual escondendo seu vício. Cada qual negando seus caprichos. Cada qual recriminando os narcisos. Cada qual se achando o melhor dos umbigos. Cada qual com seus litígios. Cada qual com suas idas e vindas. Cada qual com suas partidas. Cada qual dando suas mordidas. Cada qual com sua soberbia. Cada qual esperando um outro dia. Cada qual alentando sua justa aposentadoria. Cada qual com sua preguiça. Cada qual não tendo nada com isso. Cada qual suportando seus compromissos. Cada qual safando-se de seu lixo. Cada qual mais enfeitando seu nicho. Cada qual inflando o valor de seu serviço. Cada qual justificando o seu sumiço. Cada qual discordando de sua dívida. Cada qual enaltecendo sua cartilha. Cada qual com sua grife. Cada qual apondo seu grifo. Cada qual alardeando seu grito. Cada qual escondendo sua esquisitice. Cada qual normalizando sua maluquice. Cada qual condenando as caretices. Cada qual apontando uma burrice. Cada qual eximindo-se de suas imundícies. Cada qual fugindo à sua planície. Cada qual entoando o seu hino. Cada qual descascando o seu pepino. Cada qual com seus suplícios. Cada qual postando-se em seu mezanino. Cada qual portando seu ensino. Cada qual desconversando seu cinismo. Cada qual disfarçando seus oportunismos. Cada qual enaltecendo seu capitalismo. Cada qual insistindo com seu comunismo. Cada qual negando seu nazifascismo. Cada qual divulgando seu cristianismo. Cada qual se atribuindo humanismo. Cada qual execrando o populismo. Cada qual condenando o nefasto distributivismo. Cada qual com seu íntimo. Cada qual com seu signo. Cada qual com seu dígito. Cada qual com seu ínfimo. Cada qual com seu limbo Cada qual com seu instinto. Cada qual com seu ímpeto. Cada qual com sua ignomínia. Cada qual com sua paralisia. Cada qual combatendo suas estrias. Cada qual fugindo das fímbrias. Cada qual degustando suas alegrias. Cada qual tragando suas sensaborias. Cada qual conquistando sua sabedoria. Cada qual condenando as tiranias. Cada qual tendo que explicar suas saídas. Cada qual inquirindo seu juízo. Cada qual driblando o ridículo. Cada da qual recompondo seus prejuízos. Cada qual carregando seu obelisco. Cada qual buscando os bons fluidos. Cada qual se pondo contra os malditos. Cada qual com seus ritos. Cada qual rezando contra os maus espíritos. Cada qual se dando aos seus atos contritos. Cada qual querendo suas carícias. Cada qual com suas inafastáveis malícias. Cada qual querendo suas delícias. Cada qual com seus castiços pruridos. Cada qual construindo e sofrendo seu intranferível destino.

Nova inquietude do salteador de astros

Data 21/maio/2004

     Sabia sim reconhecer algumas compulsões suas. Conheça-te a ti mesmo. Por isso, se sabia um homem. Um homem do seu mundo. Um homem forte (elencaria instantaneamente exemplos, se quisessem) com experiências de vida irrefutáveis. Um homem orgulhoso de si: a Deus reverenciava o amor absoluto e irrevogavelmente imparcial; ao próximo, o respeito à dignidade e igualdade, a solidariedade, a compaixão amparadora; de si, a exigência de hombridade, do pão com o suor de seu rosto. Um homem frágil, com seus limites (E tanto assim era, que logo desconversaria para não expô-los.) Nos quais centrava sobremaneira seu reaprendizado de ser.
Enfim, um homem. Vencedor, perdedor; brutamontes, amável; corajoso, medroso; vaidoso, modesto; preguiçoso, trabalhador; ambicioso, ponderado; ousado, tímido; impaciente, tolerante; revolucionário, conservador; alegre, triste; áspero, dócil; sonhador, pragmático; teimoso, compreensivo; passadista, contemporâneo.
Vivente com suas neuroses controladas, seu estresse observado; expiando suas dores e frustrações; expiando as razões, as desrazões, a insensatez tecendo e destecendo o cotidiano mundo terrestre, seu desvanescente, impúrio, inebriante e espúrio habitat, exposto em sua órbita a céu aberto.
Uma consciente compulsão. Que o punha em estado de gratuidade – o aberto céu.
Mesmo o céu de sol imperante. O seu azul cambiante, com suas instáveis nuvens ao sabor do humor do tempo e do vento. Chumaços de paina em impercetíveis movimentos pairando ao dispor de olhos que nelas projetam coisas e seres. Enormes pedaços de chumbo, de zinco. Inconsútil teia sépia ameaçando inquietantes tempestades.
Mas arrebatava-o o céu de noite. O céu povoado por seus infindáveis astros. E gostava de tê-lo assim uma incógnita realidade amadoristicamente conhecida. Não o tomava com olhos clínicos. Da Astronomia procurava por vezes uma ou outra informação que lhe bastasse para situá-lo perante os astros com os quais mais gostava de se relacionar.
Eram poucos. Nada de aplicadas e demoradas incursões no mundo de constelações e galáxias, como um certo conhecido seu devotado astrônomo amador. A astronomia como o seu grande e prazeroso entretenimento. Seu diletantismo.
Tem para o céu de noite a cotidiana olhada diária. Mais ou menos demorada. Conforme. Todavia, ainda que de relance, passa o olhar globalmente.Busca a lua. E dela encaminha-se na direção dos outros seus preferidos. Para em seguida uma vista geral.
Hábito. Súbito se pega olhando o céu. Então flagra certos peculiares vôos. Certos raros pássaros cortando o espaço. Uma aeronave: um ponto mínimo gizando o imenso quadro azul celeste.
De noite, as formas e performances da lua em sua peregrinação. Dela para o brilho florido de Vênus. Daí para o áureo requinte de Marte. Depois se detém na recatada sensualidade de sua resplendente Aldebarã. E quase sempre lhe sobram umas estrelas cadentes em vertiginosa estripulia joaninamente desarranjando o engessado firmamento. Os eclipses. Súbito, sutil objeto estranho. Tudo a olho de ignóbil amador do espaço.
Em incertas horas, ele deliberadamente atenta contra a ordem celeste e a ordem social. Então, investido de sua incondicional e inexplicável capacidade de demiurgo, decide com seus preferidos astros bulir.
Assim foi que em venturosa e complexa operação, com eficazes estratagemas, para que as ordens celestial e social não se desestabelizassem, roubou, para presente de aniversário a seu amor, um plenilúnio deslumbrantemente peculiar. Assim também procedeu com Marte há pouco, quando este se dera a Terra em sua raríssima plenificação.
Agora, ultimamente, o céu anda a ostentar uma Vênus estupenda.