Cena popular brasileira

Cena popular brasileira
Data 05/nov/2004

     Acordou com estrondos de coisa sólida sendo despejada em algum recipiente de lata ou zinco. Algo assim. Tais estrondos ocorriam perto da janela do quarto em que dormia. Pausa. Estrondo. Pausa. Estrondo. Seu tempo de sono estava acabado. Ficou ainda um pouco mais. Os sentidos fixados no estrondo; pausa; estrondo; pausa; estrondo.
Rotina matinal executada. Café da manhã cumprido, durante o qual soube tratar-se de umas remodelações por que passava o quintal nos fundos da casa, para o qual dava a janela do quarto em que dormia.
Era véspera de feriado. Estava a passeio, usufruindo um daqueles tais finzões de semana. Fora dar uma olhada em que consistiam as transformações por que passava o quintal.
Encontrou um único executor da obra. Logo o autor dos estrondos. Estes resultavam do impacto de pedaços de concretado que o homem quebrara de uma faixa do quintal e atirava numa carriola de mão. Ali, o quintal retornara a terra, onde seria construído um ajardinado.
Cumprimentaram-se rigorosamente com um mútuo bom-dia. Silêncio. Ele ficou olhando o trecho quebrado cujos cacos ainda estavam sendo removidos. O homem permaneceu descansando escorado no cabo da pá. Depois, tirou do bolso da calça um maço de cigarro que parecia vazio. Consultou o invólucro com o indicador. Encontrou um cigarro meio desalinhado. Amassou o maço vazio e atirou-o a um canto do quintal. Acendeu o cigarro sem se preocupar com realinhá-lo. Guardou o isqueiro no bolso da larga e longa camisa que ia sobre a calça mal acobertando a protuberante barriga. Deu uma baforada, olhando para ele e dizendo que era o premero. É três maço por dia. Daqui a pouco, hora do rango, compro o segundo. Diz que faz mal. Oi eu, ó – mostrando, com a mão direita gesticulando, o seu perfil –, nunca tive doente (ao retomar o trabalho algumas vezes tossiu uma tosse acatarrada).
De fato era um homem forte. Alto. Robusto. No trecho do quintal em que trabalhava persistiam três ou quatro tocos de arbustos muito resistentes. No entanto, a força que imprimira com seu machado acabou por extirpá-los todos.
Estava suado. Dos cabelos bastantes, acobertados por chapéu de feltro puidíssimo, bagos de suor escorriam para a barba farta de um rosto largo e franco.
Após a extração dos tocos, novamente descansou ao cabo da pá, antes de recomeçar a remoção dos entulhos. Acendeu um cigarro. Olhou para o trecho já quase tornado pura terra. Disse terra boa. Dá umas alface e almerão, umas couve. É ou não é? Bateu com a pá nas extremidades do concretado. Agora faço uma cinta de tijolo e cimento fora a fora. Evita a infiltração da chuva. Fica um servicinho bom. É ou não é? O senhor é de fora? Ah! Conheço. Comprei uns boi bom lá. É. Tive boi bom mesmo. Tive sítio. Perdi tudo. Os home não deixa, né? Isso é só pra eles. É ou não é? Mas não reclamo. Faço de tudo. De tardezinha, tomo minha cachacinha. Mais tarde, janto e durmo. Não me intrometo com a vida de ninguém. Tenho aquela carroça lá fora. Um bom burro. Vida apertada, mas honesta. É ou não é? Não. Cachaça é bom. Um pouco de álcool é bom. Todo home deve de beber um pouco. Muito faz mal. Mas não cerveja. Cerveja não é bom.
Tornou a silenciar-se. Acendeu outro cigarro. Mostrou o maço em que restavam mais uns poucos. Olhou o quintal. Dá uma bonita área. Churrasquera. Só que aqui fica caro. Vai troco. Vai uns bom troco. Eh! Olha, por falar nisso, me lembrei. Preciso acabar logo aqui. Pegar o troco com o menino aí, seu filho, né? E correr pagar a energia, senão fico sem ela nesse feriado. É assim. Com dívida da gente eles age rápido. É ou não é?

Vento/Fogo

Vento/Fogo
Data 25/out/2004

     Esse fenômeno cotidiano, mas impossível de ser despercebido. Filho do ar que o concebe e o expele, decerto para que o carrossel do universo não se desmantele. Força tamanha do vigor do mundo que compõe e move.
Um poder descomunal. Nada se iguala e com ele demanda. As águas, das quais fica imune, pois não o molham, conduz com seu sopro impetuoso.
Seu motor faz do mar um seu corredor privilegiado. E dá à couraça do mar movimento eterno quase todo o tempo feito de ondas de toda ordem, de toda sorte.
Inodoro e insípido senhor que do dorso do mar não desapeia. E quando em crises, como gigante bêbado tomado pela fúria violenta, faz no mar devastadora tempestade. Põe o mar em descomunal vulcão cuja erupção é infernal. Há cenas antológicas que encantaram e encantam de terror cinófilos, inveterados leitores de ficção, de poesia. Atesta-o o gênio camoniano com quando os lusíadas são tomados de súbita procela: “Agora sobre as nuvens os subiam/As ondas de Neptuno furibundo;/Agora a ver parece que desciam/As íntimas entranhas do Profundo./Noto, Austro, Bóreas, Áquilo, queriam/ Arruinar a máquina do Mundo;/A noite negra e feia se alumia/Cós raios em que o Pólo todo ardia!” Atesta-o ainda a vida real diária dos povos constantemente sujeitados aos furacões que os devastam. Mesmo que agora previstos, há nada que os impeçam de tudo pôr em reboliço.
Um poder sem igual. Nada se lhe iguala. Tampouco o fogo, esse outro elemento poderoso que tudo incinera, menos o vento. Sim, quando muito o aquece. No mais, também do vento fica à mercê. Se juntos, é mesmo o inferno manifesto em terra. Tantos são os incontáveis casos dados e os que ainda hão de se dar.
Ao fogo nada contém, se o vento em seu auxílio vem. Se o vento resolve servir-se de corcel deste mágico irmão que, inexistente, de súbita combustão qualquer põe seus diabos malvados com seus tridentes a espetar fogo em tudo.
A ficção e a vida vivida são palcos memoráveis do poder desse agente indestrutível que, talvez por exaustão, cede somente à insistente intervenção da água. Que decerto com suas muitas miraculosas carícias, a que fogo algum resiste, extingue sua fúria bruta, tornando-o ao sossego de sua inexistência aparente.
Quantos edifícios vivos incinerados por seu voraz e impossível ímpeto. Quantas matas em tantos países pelo fogo devastadas. Que este, cavalgando seu irmão vento, indomável e destrutivamente foi se infiltrando.
“A imagem mais viva do inferno./E contagioso, como outrora/foi, e hoje não é mais, o inferno:/ele se catapulta, exporta,/em brulotes de curso aéreo,/em petardos que se disparam/sem pontaria, intransitivos.” Eis “O fogo no canavial” visto pelo gênio de João Cabral.
Mas também não se perca de vista que o vento e o fogo, estes irmãos da água amados e amantes, como ela, são dotados não apenas de negatividade. O vento que arrefece à Terra o furor da canícula do Sol. O vento que balouça os milharais, os canaviais, os coqueirais. O vento que esparge os muitos aromas pelo ar. O vento que, maroto, põe à mostra as coxas bonitas das meninas. Vento benfazejo em brisas. Vento que esparge os cantares de pássaros. Vento que modela e remodela a natureza. Vento que oxigeniza vidas.
E o fogo não menos. Fogo a cozer os alimentos. Fogo a incinerar os muitos putrefatos e excrementos. Fogo a aquecer invernos inclementes. Fogo a modelar os muitos utensílios à vida. Fogo a queimar a paixão, na perpetuação de gente.

Ave, Paulo

Ave, Paulo
Data 15/out/2004

     O primogênito é sempre o recomeço da nova e inédita aventura humana a se viver. O primo filho. O primo neto. Herói de todos os atos e fatos. Bandido adorabilíssimo. Concessão é a sua palavra.
E a sucessividade dos acontecimentos desta história é sem tempo. Quanto mais evolui, mais sedutora. Tanto que quando acontece um Paulo, em fase de chorão (com pinta de parrudo), nada ainda afeta. O primogênito continua sendo a festa.
Segue a história, enquanto ao segundo se dedicam os gracejos, cuidados e carinhos passageiros. Paulo é afeito a puro peito de mãe. Pouco se importa com o que se dá a sua volta. Que seja, embora, uma história bonita e bem sucedida, a verdade é que conchego e seio materno são o seu negócio.
E quanto a isso é um decidido convicto. Sem meias medidas, exige o que lhe é de justiça. E com autoridade álacre, mas incisiva. E, se preciso, protesta, grita.
Todavia, sem que mais se espere, Paulo se desprega do seio, desce do colo e se entrega ao passeio.
É certo que todo sujeito cresce, se desenvolve à medida que descobre, domina seu meio e nele se adapta. Então é esta a trilha geral que a Paulo cabe palmilhar.
Cada qual com sua sina. A do primogênito, por razões bastante conhecidas, se dava, então, em absoluta primazia. Livres vias, mínimos impeditivos. Que esses são os imediatos dotes daquele, por primeiro, por todos esperado.
Decerto o meio muito demarcado pelo outro, impôs a Paulo um acervo de empecilhos nada franqueadores, como o foram com seu irmão. Era, de certo modo, seu caminho de Damasco. Todavia, caminho próprio ao gênio daquele cristão novo: teimar contra os desafios. Impetuoso brigão pelas vontades de sua crença.
Impedi-lo demanda trabalho quase sempre parco, que Paulo é um cara determinado. Nada lhe passa batido. Tudo que lhe vai por perto é por ele batizado.
Não parece que a ele importa a primogenitude como houve na História. Paulo tanto tem de Esaú quanto de Jacó. Todavia, a grande astúcia deste não faltou nem um pouco ao primogênito. Pedro rápido aprendeu a lidar com o mandonismo de Paulo. E tampouco são gêmeos, como os da História e os de Machado de Assis.
Paulo não pede, busca. Não se importa, se o que há lhe é ou não lhe é de direito. Corre em busca do que quer, do por que briga. Puro temperamento de quem não se deixa por menos.
Assim é, porém, quando posto em estorvo. Caso não, outra é a estampa. Cara alegre de um João se faz de bobo. Riso súbito para que o outro não interfira no que lhe é a boa. Contumaz provocador que bota a gente a rir à toa.
Criatura capciosa, com quem a cordura de Pedro nunca é absoluta, pois sabe o quanto ele se infiltra e se abasta, e se abanca. Paulo não espera que lhe assinalem, simplesmente avança.
Ave, Paulo. Novo cristão de bem quista aliança, bastião segundo de um povo que se preserva na sua entrega que integra.

Gaúcho

Gaúcho
Data 08/out/2004

     Sabia nada sobre bois. Apenas por eles tinha uma certa atração.
A mansidão aparente e cotidiana deles. A placidez com que intermitentemente pastam, mesmo quando seco ou palha o capim. Ruminar incessantemente é um dos seus traços.
Sabia um pouco distinguir o boi de carro. Enormes chifres. Tanto quanto o tamanho, o peso. Um boi obeso. Capado. O que também o tornava lerdo e pacífico. Dócil à canga. Afeiçoado ao carro-de-boi modelar. Assim, causa muito estranheza um carro puxado por animal senão deste.
E o boi reprodutor. A que se denomina de touro. Solto no pasto. Sem canga, sem nada. Livre para comer, perambular. Sua nobre e privilegiada tarefa era cobrir as fêmeas em cio. Volumoso saco dependurado ostentando suas potencialidades fertilizadoras prontas a emprenhar quantas fêmeas fossem. E normalmente eram muitas. Que seus proprietários queriam-nas férteis, pródigas parideiras.
Então as fazendas medianas tinham o seu touro-mor. Garboso garanhão cujo destino era possuir as noviças novilhas quando o cio as afligisse. E mesmo certas vacas que ainda padeciam desse atávico e irresistível desejo de ser possuída por touro.
A fazenda cujo administrador era o avô tinha o seu. Belo nerole no vigor de sua pujante e insaciável juventude bovina.
Gaúcho. Toneladas de massa bovina branco-acinzentada. Imperador daqueles alguns pastos, povoados de gado de leite e de engorda. Todo dia inteiro, Gaúcho passeando e pastando por toda sua roça.
Brutamontes de boi bonito de se querer bem por causa de sua dócil bem querência com seus vários donos, os seus familiares da fazenda.
Qualquer familiar da fazenda fazia Gaúcho se entregar de alma e olhos fechados mediante alongadas carícias a bois. Depois de muito coçado, ou a uma interrupção, Gaúcho lambia com sua língua-lixa pedindo mais.
O avô, dos grandes conhecedores de gado, daqueles de classificar com detalhes um berro ou mugido não visto, afirmava que Gaúcho detinha todos os dotes exigidos de um perfeito touro nelore.
Em certos períodos de tempo a fazenda punha em aluguel o seu mais vasto pasto. Boiada alheia ficava ali mês, meses confinada. Bom capim, boa aguada de rio. Já criara fama de pastagem abnegadora.
Uma boiada dessas viera carregada de novilhas, fêmeas todas de um touro apessoadíssimo. Gaúcho, boi daqueles espaços, passeava rente à cerca observando os hóspedes.
Deu-se que o cio de uma novilha fê-la engraçar-se com Gaúcho. O touro hóspede achou de intervir.
Briga de touro era desmedida. Não havia o que os apartasse. Não havia o que os impedisse. Em vão cercas, árvores, barrancos. Vão levando tudo feito tratores de esteira. Cabeças presas. Destroem o que está em seu caminho. Somente quando a morte abate um, cessam.
Todavia, naquele dia levou ambos. Exaustos, com fundas feridas, caíram de alto barranco no rio. Gaúcho era touro de estimação. A fazenda ficou triste. Perdera um ente, mais que mero boi reprodutor. Não apenas o perfeito touro, perdera o boi Gaúcho.

Desengano

Desengano
Data 04/out/2004

     Embora as exigências fossem, no texto, muito peremptórias e claras, relutava. Não atinava com aquilo. Sim, os pormenores e detalhes informativos nenhuma margem de dúvida deixavam.
Achava-se em estado de recusa emocional. Raiva. Muita raiva, senão ódio. A bem dizer, não seria a primeira ocasião em que se vira em condição de injustiçado. Todavia, nenhuma tão forte a ponto de fazê-lo indignado assim.
Haviam-lhe dado um certo prazo. Após o que tudo o que viesse a acontecer seria atribuído a uma sua intransigência. Mais dizia o texto: que não arredariam um milímetro das concessões feitas, das quais, aliás, já se arrependiam, em virtude de ele estar usando o prazo estabelecido, o que consideravam um espicaçamento de sua paciência. Isso lhe cuspiam em um segundo recado expresso em rancoroso texto. Rancoroso, como acentuadamente ameaçador.
Ficara apreensivo. Passaram a pulular em sua cabeça acontecimentos dados pela vigilante e ubíqua mídia deflagrados mundo afora. Os homens do tempo de seu avô diriam por esse mundão. Os do tempo de seu pai diriam por esse mundo de meu Deus. Os assassinatos, por degolação, de prisioneiros mostrados com seqüências de atos pela imprensa. Mais que amedrontá-lo, punham-no numa consternação com conseqüente imobilidade. Imobilidade mental inclusive. Prostração indescritível, como se o assassinado fosse um seu querido ente.
Entendia, agora, melhor por que, conquanto não fosse o mesmo caso, os familiares ou o negociador de seqüestrados recrudescem no sigilo. Tinha calafrios. Por mais que dissipasse os maus pensamentos, não se concentrava nos afazeres inadiáveis. Logo, os desempenhava muito mal. O que se tornava grave, pois que deles fluindo com tranqüilidade dependiam os demais.
Por algum tempo cogitou muito concentradamente quanto à melhor medida a tomar. Tratava-se de uma situação de fato peculiar. E por isso mais melindrosa, muito mais exigente ao que fazer para a solução desejável. Não havia soma nenhuma de dinheiro em jogo; não havia bens, objetos preciosos nenhuns em jogo. Todavia o de que mantinham posse (os sórdidos, os bandidos) considerava tanto quanto grave. Dá-los a público, conforme rezavam as terríveis missivas enviadas pelos facínoras, talvez tivesse efeitos iguais e mesmo mais perdulários que os dos casos conhecidos.
A mídia abriria ofertas tentadoras. Seria, como dizem, o mapa da mina. Fariam, se jornal, tiragens triplicadas; difundiriam, se televisão, nos horários nobres. A internet. Um caos!.
Ninguém merecia aquilo. Era um inaceitável paradoxo. O custo, o preço, a conseqüência de toda uma vida dedicada à construção de uma sociedade mais justa, mais igualitária, solidária, democrática, mais distributiva dos bens gerais.
Não se julgava tão perdedor, quanto estas causas. Nelas, qualquer acidente de percurso, como poderia vir a ser aquele, causa danos quase irreparáveis, irrecuperáveis. Todavia os detratores do bem estar social não lhe exigiam resgate. Impunham permuta. E destrutivo seria tanto o que detinham quanto o que solicitavam como substitutivo.
Muito pior: e se não trocassem? Estariam de posse de todo um grande instrumento que, isolado, nada significaria, como nada havia até então significado. Mas difundido com a distorção pretendida causaria danos para cuja reparação toda luta acaba sendo vã.
Agora, estava ali. Onde, quando e como exigiram. Aguardava de posse do substitutivo possível. Sentia-se pronto. Em condições para que o desfecho não se desse exatamente como eles queriam.

A gaveta deles

A gaveta deles
Data 20/ago/2004

     Coisas próprias de sujeito tomado por arrebatamento indescritível e irretorquível. Caso, por exemplo, de avós ainda não mal das pernas, não-ranzinzas, de cabeça sem grilos.
Caso daquele avô. Houvera o neto. Primogênito. Recente herói da família. Havia os bisavós também ainda comovidos com a vida cujas manifestações gratuitas e espontâneas as sensibilizavam. Caso daquele bisneto. Já não havia os bisavôs, que, conforme determina a natureza, vão antes, salvo excepcionalidades, para o nunca mais, o definitivo desconhecido.
A vinda de neto irradia estado de euforias e expectativas cujas ondas se propagam atingindo, de formas variável que seja, todos os estágios e estados familiares. É um rebroto reoxigenador da árvore genealógica com efeitos prestidigitadores. Em família articulada, netobisnetos reinstitui, redireciona situações de ser e de fazer. Ninguém fica indiferente a eles.
Aos avós, eles tornam-se os seus novos cuidados. São mais dos netos do que estes deles. Sim ao que quase sempre fora não. Pode o que raramente pôde. E aos netos eles, certamente, parecem ser a voz dissonante da dos pais. Incapazes de se opor a quaisquer intimações deles. Nem se diga, então a um qualquer amuo, ou manha, um pedido mínimo. Lá vão, avô e ou avó, cumprir o gosto daquela sua nova ventura. Aos pais cabe coibir, a eles apenas conceder.
Aquele avô, a par desses procederes, quase sem o querer, assumira a condição de contador de história. Certa feita, contara ao neto, para dissipá-lo das dores de uma contusão na boca, conseqüência de queda de cadeira giratória, na qual o peralta do moleque pô-se de pé.
História povoada de bichos, matas, fantasmas, uma miscelânea. Estava inspirado o avô. O neto aquietara-se. Olhos abertos fixos nos salamaleques imitativos do narrador. História complexa. Torta. Desenredada. Todavia, repleta de ações, ameaças, suspenses, fugas, espertezas. Ao final, o neto, tendo respondido que gostara e depois de breve silêncio, passara a questionar certas passagens obscuras, situações mal resolvidas. O avô saiu-se como pôde. O neto, com um maroto ar de ah! tudo bem, deixa pra lá.
Pronto. Dava-se que o cansaço ou o enfado de brincar chegava. Ia ao avô. E não mais era mero ouvinte das histórias. Passou a ser também diretor e interventor na composição das mesmas. Pedia ao avô a participação de determinadas personagens, a exclusão de outras, o gênero da história. Intervinha no curso da história, querendo a presença de algo ou de alguém. E o contador tendo de cumprir conforme o requerido.
Outra do avô. Das três gavetas de sua escrivaninha, inventou de presentear a do meio ao neto. Gaveta repleta de esquecidos, de inutilidades, de puros desusos. Nada mais inebriante aos olhos de uma criança saudável. Mexeu. Revirou. Remexeu. Refez. Reconduziu. O avô, não menos inebriado, ante a euforia do neto.
De então, passou a abastecer constantemente a gaveta do neto de novas inutilidades. Súbito, onde está o menino? Fulano, cadê você? Ao que respondia: “tô trabalhando na minha gaveta”.
Assim ia. A mágica do neto tornando os inutensílios da sua gaveta nos mais e múltiplos elementos. Trabalhava soberana e sossegadamente em sua gaveta. Até quando, o irmão, o segundo neto, tendo chegado ao estágio de senhor absoluto de suas pernas, descobriu a gaveta e quis também nela trabalhar.

Beslan

Beslan
Data 10/set/2004

     É certo que o homem é esse eterno informe. Que obsessivamente cava, escava, lavra na ânsia de se perpetuar para sempre. E então, vivo, descansar por todo o sempre.
Não quer o homem mudar. Quer ser. Quer mineralizar-se como algo, minério impossível de quaisquer violações. Forma única e definitiva. Perfeita. E como a perfeição, ante o que quer que seja, incapaz de violação.
O homem passa a vida obsedado pela dor e culpa do paraíso perdido, cujo lenitivo e remissão consiste em reavê-lo. Ainda que nada saiba desse paraíso, senão que o perdera. E que o perdendo perdera-se. Dado à condenação de errar pelo sumo bem, seu desconhecido. Todavia, como a tocha da acesa chama, de geração em geração, não cessa de buscar o seu cume.
Sucede que tantos são e mesmo de certo modo muito mais, quantos os percursos, os decursos. Os decursos tornam o homem, na sua trajetória, uma viva e inacabada metamorfose. E dessa metamorfose, o informe em forma de homem que de seu só não perde a fome, a sede. Seu motor maior.
Construir-se como sapiens, como se designa, capaz então de fazer brotar o pão de sua força. A que gera por meio de seus neurônios a capacidade inventiva. A que o dota, na Terra, da descendência direta de Deus. A Terra que se viu então por homens divisionada. A Terra ficou África, Ásia, Europa, Américas. Continentes com seus países orientes, ocidentes.
A fome como ordem. E os países com suas posses. Com seus ricos, com seus pobres. Com seus mendigos. E os países com suas divisas, com suas formas de vida. A riqueza concede o dom do poder. O poder de prescrever como deve ser. O poder aviando receitas de como não padecer. E os países ricos, movidos pela condição de riqueza, atrelando-se. Que os países pobres possam assim ser mantidos como seus grandes sustentáculos. E a estratégia melhor consiste na oposição deles, pobres, entre si. Fomentar ilusões de crescimento. Aumentar-lhes a dívida, os serviços da dívida, os juros dos juros da dívida. Fomentar-lhes as grandezas inócuas esteadas em moralismos anacrônicos, patriotismos ingênuos, religiosismos pervertedores.
Incapaz da condição de todos com todos; de todos para todos; de dividir para não faltar, foi o homem deixando de ser aldeia, estaqueando terras, mapeando territórios, se denominando dono, se tornando proprietário. Em nome disso, em nome daquilo.
A discórdia, as desavenças, as guerras. As pequenas e incessantes guerras. As grandes guerras. As devastadoras pequenas e grandes guerras. Nazifascimos à parte, faziam-se, contudo, com ética, certa dignidade e respeito humano o mais possível. Sim, toda uma convenção estabelecida. Fugia-se à desmoralizante e humilhante situação e violação da mesma. Prisioneiro de guerra tinha certos garantidos direitos.
Tempos idos e vividos. Guerra é guerra tornou-se a moeda justificável de inimagináveis atrocidades. Claro que o mundo cão não é cão. Claro que o mundo animal não é animal.
Cão é o mundo homem. Animal é o mundo homem. Feroz é o mundo homem. E o é porque pensa, porque tem consciência. Única espécie autodestrutiva.
Oh! Desrazões que a quaisquer razões aturdem! Que crispado de horror humano se pergunta: então se fez tanto, tantos suores, e lágrimas, e sangue, e trabalho, e privações e dores para se chegar a esse fosso, esse lodo, esse escroto, essa degenerescência?

Perigoso

Perigoso
Data 27/ago/2004

     Fora ali fazer um carreto. Transportar uns trens. Falava alto, senhor de si mesmo. Acabava se colocando como centro das atenções. Queria saber com quem falar. O que iria transportar. Tinha pressa. Muitos carretos ainda por fazer. Seu trabalho era muito requisitado, porque dava bom preço; porque fazia a coisa certa, com atenção, sem preguiça. Fora ali primeiro, porque sempre se entregara às causas sociais. Escola é um lugar sagrado. É onde se forma o sujeito com cultura. Educa o sujeito pra ser homem na vida. Prezava muito escola. Então ficou muito contente de poder pôr seus serviços ao atendimento da escola. Dissessem o que era pra se feito. Ia deixar o seu cartão. Era só chamar que daria preferência.
Homenzarrão. Um tipo galego avermelhado. Chapelão e botina à vaqueiro. Não, senhor! Entendia nada de vaquejar, boiada, embora tivesse morado a maior parte de sua vida no Mato Grosso. Todavia, lá foi outra coisa. Homem da cidade, nada com o campo. O traje atual é mais pra combinar com o trabalho. Porque não é um carroceiro qualquer. Não. Basta reparar. Ver o trato, a aparência do seu cavalo, o estilo e os adereços de seu carro. Sim, porque o dele não é uma carroça. Faz questão de que tudo seja no refino. E seu preço é módico. Nada dessa de cobrar mais caro. Faz melhor e com melhor equipamento. A diferença que isso faz está no fato de que não vence tantas solicitações. Ganha muito dinheiro fazendo carreto, porque sabe fazer bem feito. E aplica esse recurso na construção de casas para alugar. Com esse trabalho, já construiu algumas. Vai continuar. É dono de uma aposentadoria respeitável. Podia ficar zanzando por aí. Todavia quer ser útil.
Sempre teve atração por aquele tipo de trabalho. Ter um bom cavalo, de porte. É só reparar como marcha garboso pelas ruas. Mesmo com o carro pesado de carga. Mas, como disse, no Mato Grosso fora outro. Policial civil. Investigador. Respeitado. Temido. Com ele não havia contratempo. Não punha banca, entretanto era ali no cumpra ou cumpra! E ponto. Nem cara feia, nem falar grosso, tampouco tamanho. Se cuidava, é certo. Não ia metendo os pés pelas mãos. Fazia seus pensares e sismares antes pra não cometer besteira. Sentença dada, executava. Que o sujeito retrucasse, esbravejasse que fosse. Mas se tivesse sentenciado, estava consumado. Quase nunca precisou de auxílio pra lidar com rebeldias. Lá, era o afamado Perigoso. Os caras, ouvindo falar, se guardavam. Sabiam tratar de quem não se vendia. Com ele não tinha isso aqui ó; bola nenhuma. Não se vendia. Só queria o que era seu.
Um veículo de propaganda eleitoral passava, prejudicando seu destemperado e interminável discurso. Embarcou no assunto. Não ganha. Enganador. Não cumpriu um terço do prometido aos pequenos. Vivo no meio do povo. Não ganha. Não. Também não ganha. Tem caráter. É muito boa. Mas fica tirando da cadeia ou defendendo bandido, traficante. O povo não gosta. Perde por isso.
Já ia meia rua adiante marchada por seu garboso corcel, quando estacou-o. Ficou em pé, virou-se para trás e gritou que palavra de Perigoso era sentenciosa. Apostava no que dissera. Esperou por alguns segundos calado. Como não recebeu nenhuma resposta, sentou-se e autorizou o macho a reiniciar sua marcha.

In memoriam

In memoriam
Data 13/ago/2004

     A arte, o universo que o arrebata, o objeto de suas inventivas, invectivas. Algumas manifestações dela, como a quem assim por ela se vê tomado, mais o atraem. Destas a menos sedutora da escala preferencial é a pintura, que, todavia, aprecia como um amador semiestudioso e um colecionador de réplicas, porque não-pertencente à categoria dos abastados para a aquisição dos originais, e porque radicalmente contrário à exorbitância inexplicável dos preços que lhe são atribuídos. Nada justifica isso. O trabalho artesanal; o tempo dedicado à construção; os custos da matéria e do material empregados; engenho e arte do artista. Nada. O preço é um disparate, um despropósito que os ricos colecionadores sustentam. Cifras expressivas em muitos mil reais, em altos dólares.
Entretanto, tem o gosto de quadro exposto em suas paredes. Então, pendura os seus Picasso, Monet, Degas, Tarsila do Amaral, Mondrian, Lasar Segal, Bosch, Brugel, Velásquez, Kandinsky, Portinari, Miró…
O efeito poético das figuras estampadas pelos papéis impressos não lhe parece ser diferente. A obra ao receptor é o resultado que seu todo instaura ante a emoção estética despertada naquele. Os detalhes técnicos, organizacionais importam aos especialistas aos críticos. Então, conceber e avaliar o conjunto desde a inteireza das partes e assunto para eles. O apreciador comum pragmático gosta ou não considerando o todo que os seus sentidos captam. Portanto, um quadro em reprodução pendurado na parede não causa menos sentimento de beleza e enlevo do que o original, com seus detalhes ressaltados, como o presumível frescor e vivacidade de suas tintas com suas cores.
Mas suas paredes, aparadores, piano, cômodas, prateleiras se enfeitam não só com esses quadros pictóricos. Intermedeiam-nos nas paredes, suprem-nos, nos móveis, pôsteres de fotografias várias. Talvez seja uma forma de imortalizar seus mortos e presentificar seus vivos.
Então, à vista das perdas pouco espaçadas de seus estimados cães, decidiu dedicar-lhes um espaço. Tê-los-ia também ali, em pôsteres, rememorando dias, evocando episódios, amorosidades recíprocas. A fidelidade canina. A indefectível permanência a seu lado onde na casa estivesse. A vigilância incansável. As alegrias familiares das brincadeiras. E os entristecimentos e cuidados quando das doenças, tanto deles quanto dos da família. As consternações, quando fora a hora da morte.
Tratou de buscar nos álbuns uma fotografia bem representativa de cada um. Encontrou uma Laika, adorada dobermann, em cujo pescoço seu neto primogênito estava atarracado. Um Bolinha fujão, em que seu filho caçula, em plena infância, ajuda a mãe a lhe dar banho. Bidu, dulcíssimo, setter cujas largas orelhas seu neto segundo parece quer esticar ainda mais. Zezão, o puro pastor da família paparicado, a seu pé em postura majestática.
Pronta e posta, vigorava a galeria de pôsteres dos idos cães da casa. Faltava a de Esnupe, um querido bóxer. Os álbuns não acusavam nenhuma. Sentia-se meio ingrato. Incomodado. Como fora possível escapar-lhe uma fotografia dele.
Sonhou um dia com Esnupe, de óculos, consultando na enciclopédia Larousse o verbete Literatura. Nítido e impressionante sonho. Esnupe desviava os olhos da enciclopédia para ele, dele para ela.
Não resistiu. Foi à enciclopédia. Apanhou o volume devido. Lá estava marcando a seção Literatura uma fotografia em que Esnupe repousava em sua predileta poltrona.

Agenciamento de adoções

Agenciamento de adoções
Data 06/ago/2004

     Surpreendeu-se com a propaganda insólita a olhos não desatentos aos fatos do mundo, como considerava os seus, à parte algum ranço de imodéstia, se, em auto-análise, assim o fosse.
Aquilo, bem entendido, depois de separados os escolhos e os meandros semeadores dos subterfúgios lingüísticos, necessários para refrear possíveis sustos ou reações contrárias, era o ressurgimento da transação comercial de gente.
Vendiam vidas humanas pela internet. Agenciadores desse tipo de negócio, talvez ostentando um certo altruísmo por dedicarem-se a essa atividade benemérita de intermediar a concessão de posse entre geradores naturais de infantes e adolescentes que, por alguma razão, os rejeitam e adotantes que os adquirem por razões não diferentes.
À surpresa, veio o susto. O tráfico. Não há nada que ao homem escape. Tudo que se reverta em dinheiro, lucro, poder.
A civilização instituiu a escravatura. Homens donos de homens. Os gregos e romanos com seus servos e servas. A magnífica rica pobre África desafricando-se com a concessão dos seus aos poderosos europeus adotadores escravocratas: “Mama África!”
O mercado persa de negros e negras expostos à venda. Os melhores espécimes procurados em exímios exames. Bons dentes. Rijos e saudáveis corpos. Opulentos seios e nádegas generosas. A máxima perfeição corpórea possível para a pródiga produção benéfica ao avantajamento dos bens do adquirente proprietário.
Tratava-se de escravos para o trabalho. O tráfico de escravos para o trabalho.
Todavia, a vida, não obstante antiqüíssima, rediviva, se inova, se renova. E o que resulta exulta, revolta apavora, estupidifica.
A evolução descobriu que gente, em se querendo, também se fabrica. A inseminação artificial trouxe ao homem a láurea de um semideus capaz de, semelhantemente, tomar da costela contemporânea e gerar gente. Basta que haja, como tem avidamente havido, semens e barrigas de encomenda.
Então, gerar gente, há algum tempo, deixou de ser da exclusiva conveniência da mútua vontade e decisão de um homem e uma mulher amantes e desejosos de filho. Deixou de ser em conseqüência de engravidamentos indesejados, quer por erro e não-uso de preservativo, quer por estupro.
Mas gente gerada assim compunha famílias ou orfanatos. Adoção fazia-se sob um clima de natureza afetivo-amorosa humana.
Gente na prateleira, nas gôndolas. Objeto de transação legal sob o rótulo de adoção. Vai um empreendedor à agenciadora de boas peças adolescentes ou infantis para a aquisição, diga-se adoção, de um lote desses para fins decerto pouco ou nada altruístas, afinal, adquiriram um mercadoria não para servir, mas para servir-se.
Vai um sujeito ao agenciador de guris e moleques órfãos, para abastecer seu fornecimento de órgãos vitais viçosos ao mercado cuja demanda faz-se um filão promissor. A adoção humana como mais uma promissora atividade lucrativa.