Agenciamento de adoções

Agenciamento de adoções
Data 06/ago/2004

     Surpreendeu-se com a propaganda insólita a olhos não desatentos aos fatos do mundo, como considerava os seus, à parte algum ranço de imodéstia, se, em auto-análise, assim o fosse.
Aquilo, bem entendido, depois de separados os escolhos e os meandros semeadores dos subterfúgios lingüísticos, necessários para refrear possíveis sustos ou reações contrárias, era o ressurgimento da transação comercial de gente.
Vendiam vidas humanas pela internet. Agenciadores desse tipo de negócio, talvez ostentando um certo altruísmo por dedicarem-se a essa atividade benemérita de intermediar a concessão de posse entre geradores naturais de infantes e adolescentes que, por alguma razão, os rejeitam e adotantes que os adquirem por razões não diferentes.
À surpresa, veio o susto. O tráfico. Não há nada que ao homem escape. Tudo que se reverta em dinheiro, lucro, poder.
A civilização instituiu a escravatura. Homens donos de homens. Os gregos e romanos com seus servos e servas. A magnífica rica pobre África desafricando-se com a concessão dos seus aos poderosos europeus adotadores escravocratas: “Mama África!”
O mercado persa de negros e negras expostos à venda. Os melhores espécimes procurados em exímios exames. Bons dentes. Rijos e saudáveis corpos. Opulentos seios e nádegas generosas. A máxima perfeição corpórea possível para a pródiga produção benéfica ao avantajamento dos bens do adquirente proprietário.
Tratava-se de escravos para o trabalho. O tráfico de escravos para o trabalho.
Todavia, a vida, não obstante antiqüíssima, rediviva, se inova, se renova. E o que resulta exulta, revolta apavora, estupidifica.
A evolução descobriu que gente, em se querendo, também se fabrica. A inseminação artificial trouxe ao homem a láurea de um semideus capaz de, semelhantemente, tomar da costela contemporânea e gerar gente. Basta que haja, como tem avidamente havido, semens e barrigas de encomenda.
Então, gerar gente, há algum tempo, deixou de ser da exclusiva conveniência da mútua vontade e decisão de um homem e uma mulher amantes e desejosos de filho. Deixou de ser em conseqüência de engravidamentos indesejados, quer por erro e não-uso de preservativo, quer por estupro.
Mas gente gerada assim compunha famílias ou orfanatos. Adoção fazia-se sob um clima de natureza afetivo-amorosa humana.
Gente na prateleira, nas gôndolas. Objeto de transação legal sob o rótulo de adoção. Vai um empreendedor à agenciadora de boas peças adolescentes ou infantis para a aquisição, diga-se adoção, de um lote desses para fins decerto pouco ou nada altruístas, afinal, adquiriram um mercadoria não para servir, mas para servir-se.
Vai um sujeito ao agenciador de guris e moleques órfãos, para abastecer seu fornecimento de órgãos vitais viçosos ao mercado cuja demanda faz-se um filão promissor. A adoção humana como mais uma promissora atividade lucrativa.

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