Ansiosas

Duas senhoras. Idosas. Viúvas. Sozinhas. Cada qual com suas morrinhas. Enternecem-se. Adoecem. Melhoram. Adoecem. Nada devem à imagem estereotipada: já meio curvadas, desmusculadas, indesejável e irrefreável barriga, rosto em rugas do tempo e das, agora, mais acentuadas rusgas.
Matam o tempo, que mata-as com a morfina rotina cujo ritual se inicia já bem de manhãzinha. Acordam com os pássaros. A uma delas de sono atormentado, muitas vezes aos pássaros se antecipam um ou outro longínquos galos. Como fora menina vivida em sítios, fazendas e ali, em pleno centro da cidade, fica com a desconfiança de que sejam puramente imaginários. E aí fisga-lhe mais ainda o  atormentante medo de perder-se de si mesma, tornando-se noutra completamente desconhecida de seus entes queridos. O que sabe muito bem, porque viu acontecer com mais de uma amiga sua. Porém, afiançam-lhe que sempre há alguns quintais mais à margem da cidade.
A outra não. Dorme pesadamente. Sono tão de pedra que raro lhe é ouvir o relógio dos bem-te-vis, a barulhada dos pardais. Decerto de tanto ouvir a outra dizer, pensa ouvi-los às vezes. Mais parecem povoar, isto é, incomodar seus sonhos. Estes, sim, são por ela bem vividos, longos e constantes. Venturosos. Raros os ruins. Tão bons que fica deprimida um bom tempo com seu travesseiro (e isso às vezes perdura o dia inteiro) por ter acordado.
Durante o desjejum sempre a sonhadora é quem mais fala. A outra fala pouco. Escuta muito. Sonos intermitentes, achaques diversos, o que a empurra a muitos médicos. A outra com a audição bem conturbada (imaginem! escuto muito bem) fala, fala, fala. Fala quase irretorquivelmente, dos seus sonhos. Sempre grandiosos. Ela, em todos, a figura de destaque. Quando anunciados como ruins, resume-os de forma peremptória e obscura. O que a outra logo entende ter havido insucessos para a narradora-personagem. Assim consomem café com leite pão e manteiga já preparados pela que sai da cama sempre antes do sol.
Caso não haja ida programada a médico ou dentista pela manhã, quando ambas vão, embora apenas uma irá à consulta, sentam-se à varanda e põem-se a passear pelos jornais assinados pela casa. Cada qual com um. Passados os primeiros momentos da persecução, quase sempre em acentuado silêncio, a que sonha encontra algo que julga conveniente ser lido em voz alta, para que a outra o saiba, mesmo que essa nunca sinalize estar interessada em ouvir, pois, embora a outra se ponha a ler em voz alta, continua firmada no jornal que perscruta.
Na verdade, a que se põe a ler em voz alta, com o jornal segurado com as duas mãos e aproximado aos óculos, sequer repara se outra lhe está dando a devida atenção. Vai lendo, lendo, lendo. Enquanto isso, aquela, talvez para impedir como pode a atrapalhação, lê movendo os lábios numa leitura semipronunciada que, por certo, de alguma forma, assegura-lhe a concentração. A outra continua. Vai de uma a outra das notícias que certamente selecionara para aquele ritual quase diário. Praticamente todas elas se referem a roubos, assaltos, assassinatos, mortes.
Vem, depois do almoço, o jornal televisivo a que a sonhadora se dedica com a televisão em alto e bom som. Basta ver um fato daqueles, um desastre qualquer, que se põe a chamar insistentemente a outra que, se chega atrasada, ouve a lamentação irritada daquela. E depois do programa de receitas, a que a sonhadora firmemente assiste do mesmo modo chamando a outra para alguns pratos diferentes e se lamentará irritada, se ela (que quase sempre assim procede) novamente chegar atrasada, vem a novela da tarde.
A esta também ambas se entregam. Mas também com a novela, tanto à de agora como às da noite, acontece algo semelhante ao que com a leitura dos jornais. A sonhadora, durante toda a novela fala para as personagens, fala das personagens, dá gritinhos de torcida ou de receio, prognostica ações que cometerão as personagens. A outra, numa poltrona mais bem afastada a tudo caladamente assiste.

Novela finda, a sonhadora, logo se entrega aos preparativos para dormir, dizendo-se tomada de sono. A outra ficará mais. Um outro programa, ou filme. Irá, assim, aquecendo o início de seu intermitente sono com pequenos cochilos ali na poltrona.

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