Em cismar sozinho é o que há

Data 04/jun/2004

     Por vezes se vê tomado de um certo torpor de olhar o todo sem enxergar nada. Enxergar a visão panorâmica de um nada, feito puro pensamento puro. Ficar-se como se em hipnose. Desgoverno de juízo. A alma parece em absoluto estado de abstração.
Nada semelhante. Nem o sonho. Nem o delírio. Os sentidos embotados, recolhidos em si mesmo. Sujeito feito um jabuti entranhado em sua própria carapaça. Que é seu corpo cavernoso em cujos esconsos cabe seu pescoço portador de seu pensante miolo.
Torpor que encasula o homem que se põe em estado de cismar.
Aquele absoluto escuro claramente visto pelo matuto, quando matuto havia. De cócoras, chapéu arribado à testa, cigarro de palha da orelha à boca, isqueiro aceso pondo o fumo em boa brasa. Depois ficar ali tragando, olhando a fumaça, olhando para o nada que é um roçado cheio de mantimento esperando se livrar daqueles importunos matos. E ele pita e olha o nada, a fumaça, a brasa. Prazerosíssima síncope de si mesmo.
Por vezes, quando a si restituído dessa mínima e intensa desmiragem, pensamento na palma da mão da mente sã, põe-se a raciocinar. O raciocínio que é avesso a desbundes melancólicos sensoriais fica em estado de ponderabilidades na consecução da precisa clareza a essa ébria condição pela qual de quando em vez se entrega o homem, esse animal único com o dom da consciência, de domínio do raciocínio.
Entregar-se a estado letárgico, quando nada daí advenha, senão incônscias desrazões, omissões, fuga ao que a vida ostenta para ser desvencilhado. Não cabem ao poder do raciocínio concessões ao inconsciente vadio pondo-se a arquitetar desconstruções.
A natureza bruta em seu acabado estado de coisa pronta e transformável à mercê do ser único que dela não é dependente absoluto. Esse todo mágico poderoso vem sendo dado cada vez mais como quem da racionalidade humana depende. O que nela fora dádiva ao conforto desse especial filho-irmão começou a acentuar-se em ameaça de profundas e irreversíveis desgraças.
Talvez por isso mesmo, exercendo esse seu misterioso mágico poder incute, em muitos desses seus filhos-irmãos, o sentimento de intransigência defesa do que lhe é essência: suas matas e florestas, suas águas – rios, mares, os outros seres animais, dos quais, embora não percebam, é sim dependente e não apenas eles o são.
A urgência de desembotar-se e compreender que não há nenhuma absoluta independência na face da Terra, no incomensurável universo cósmico. Que em vez de desesperada e despendiosissimamente ficar a constatar estados desérticos e estéreis nos outros astros, devia o homem cultivar, preservar, cultuar sua mãe-irmã-amada Terra, seus mesmos irmãos com os quais dela são filhos e nela habitam.
Ah o homem. Esse complexo de nervos vibrantes que somatizam uma linguagem. Esse complexo de Édipo. Esse complexo de Electra. Esse complexo de neurônios prodigiosos produzindo. Produzindo angústias. Produzindo loucuras. Produzindo diabruras. Produzindo milagres. Escavando espectros vivos nos escondidos da cavilosa vontade de complexos desejos e insaciedades.
Pois então. Tais reflexões pululando em seu cérebro solto pelo devaneio racioemotivo subseqüente àquele esgar de entorpecimento lúcido em que a linguagem não é raciocínio, mas pura sensibilidade, tais reflexões pensam o mundo com razão crivando-se em pungente emoção.
O olhar no fosso do horizonte. O olhar no fundo do brilho do olhar da amada. O olhar esparramado no bem-te-vi que, na árvore, a seu modo, se protege do aguaceiro da chuva. O Olhar difuso perdido na flutuação da lua branca.
Olhares que cismam, que divagam, levando o homem à mesmice do sempre vivo desconhecido.

Deixe uma resposta