Presente

Data 21/set/2005

A clássica rotina: campainha. O cara do correio. Sedex. Comprovante assinado. Os agradecidos cumprimentos. A bicicleta sai rápida em busca dos outros destinatários. Entra. Toda envolvida na encomenda. Distraída, subindo degraus. Trancando a porta, cerrando as cortinas.Curiosos olhos na gulosa busca de sentido para aquilo. Não atinava com as identificações do remetente.
E a distração fê-la sentar-se na primeira poltrona mais à mão. As mãos, desde o portão, vinham já, com o rasteio de hábeis dedos femininos, campeando o objeto, na rápida tentativa de obter-lhe a identidade. Não se tratava de livro. Não costumava recebê-los, senão comprando-os. Depois, o formato e a espessura também dissipavam essa solução.
Extraído o invólucro de serviço dos Correios, a primeira leve comoção. Vinha o objeto embrulhado com papel para presente. Ansiosa, ficou ainda um pouco mais fruindo aquela surpresa que se desfaria, tão logo executasse o desembrulho. Fino papel de seda. Delicadeza a toda prova. Primeiro indício de bem querer enunciado. Outro eram os desenhos em abstratos coloridos, lindos, que todo o papel compunham.
Então, papel esmeradamente aberto, sem que lhe imprimisse qualquer contusão, a surpresa ficou toda nua ante seus sentidos todos encetados nela. Acompanhava-a um pequeno envelope fechado. Onde, por certo, haveria mais outra emoção esperando-a. Conteve-se. Protelou-a para depois de ter-se dedicado satisfeitamente ao objeto principal. Aquele, pela própria natureza, indiciava alguns dizeres, decerto de felicitações.
Havia recebido um quadro. De tamanho mediano. Quase quadrangular. Moldura dourada com relevos, sugerindo trepadeiras floridas percorrendo a cerca-moldura. No centro, a ampla foto de uma flor.
Uma rosa. Uma rosa sem tamanho. Toda vestida de um lilás resplendente. Fixa numa firme verde haste cujos espinhos, nítidos, com sua ponta enegrecida e rubro úbere, decerto punham-se em guarda daquela formosura exposta a indefiníveis olhares cobiçosos.
Embora pendida, era uma rosa toda acabada em seu ciclo de fazimento. Resplandecia-se em seu inteiro vigor de flor completamente feita. Acendiam-se suas grandes pétalas vivazes com a incidência da luz solar tomando-as todas.
Entre embevecida e ansiosa por ouvir a carta acompanhante, deixou-se um pouco levar por emaranhados meandros da lembrança, com que insistia para suscitar-lhe algo vivenciado, em que rosa semelhante fora personagem destacada. Todavia os episódios onde houvera flores não lhe restauravam uma rosa assim maravilhosa, embora insinuassem. Algo dizia que sim, que houvera, houvera.
Claro, a carta desfaria o enigma. E sofregamente contida abriu-a:
Para felicitar-te nestes teus anos, a beleza da rosa de teus encantos. Decerto não te lembravas mais dela. Talvez também nem de quem te oferta-a. No entanto, ambos, o oferente e a flor soubemos bem assistir ao teu acentuado deslumbramento silencioso ante a magnitude daquela (essa) rosa.
Dia depois, este oferente foi insistentemente tentar obtê-la da proprietária. Que amável e resolutamente resistiu. Mas concedeu, no dia seguinte, que ele pudesse fotografá-la. Eis aí aquela rosa, agora, aí perenizada, tal como te encantou. É tua. A que viste não existe mais. Tampouco contigo existiria, se a tivesse ganhado como uma rosa.
Seja feliz, como decerto o foi essa tua rosa, enquanto viva fora.

 

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