Verde-amarelo

Verde-amarelo
Data 03/dez/2004

     O ministro risonho encimando a manchete da auspiciosa notícia, segundo a qual, naquele ano, o crescimento do País ultrapassara as expectativas. O produto interno bruto, o PIB (soma das riquezas geradas no país), atingira mais de cinco por cento. Motivo para alegria geral em meio aos responsáveis pela condução dos negócios do governo. Afinal, já lá se vai meio caminho andado, pelo qual toda sorte de má-sorte tem estado à beira, ao centro, à esquerda e à direita. Mais do que à espreita, estão vivas, exigentes, agressivas, pouco contidas.
A tal revigorada esperança de ascensão dos espoliados e ignorados, dos que têm ficado constantemente à margem da festa, permanentemente à deriva, entra governo, sai governo, se já não foi de cambulhada, ainda pouco, ou quase nada disse a que veio. Embora houvesse um evidente consenso de que viera para a consumação do que até então fora a empedernida esperança
Um PIB nunca atingido. Um PIB que teimosa e obstinadamente, sem contrariar os tais consensos de Washignton, os quais, se assim se fizer, vetam as mesadas que continuam almejadas por seus afilhados apaniguados, vai procurando crescer pelas frestas dos trincos de suas paredes que pouco os incomodam. Um PIB que ontem fora o bolo que se deveria fazer crescer, com a pressuposição de que, aí sim, poder-se-ia tomar uma sua parte e distribuí-la entre os eternamente não-convivas.
Sói que acontecia, todavia, de crescerem os anos e anos do tempo de fazimento e o quinhão dos que moeram a farinha, e a parte dos que extraíram o sal, e a parte dos que extraíram o azeite, e a parte dos que tiram o leite, e a parte dos que depuraram o açúcar, e a parte dos que captaram a água, e parte dos que colheram os ovos, a parte dos que fabricaram o fermento não era dada como crescida ao ponto de entre eles se repartir. Mas os convivas não tinham, não tiveram e não têm o de que reclamar, pois sempre souberam apropriar-se da padaria e escolher os padeiros.
Deu-se que certa vez, não há bem que só se ausente, a empedernida esperança rebrotou. É que a vitalidade de sua verde pigmentação readquiriu vigor e pôs-se a manchar o enodoado-pardo do amarelo de tão antigo.
O que se dera nessa certa vez foi uma retirada dos fazedores de faz-de-conta. Legaram um país abarrotado de dor e dívida; um país crivado de desilusões e pobreza: já anunciavam os institutos de pesquisa e estatística nacional e internacional que nele subviviam mais de cinqüenta milhões de indigentes. Um país minado por uma inflação monetária de voracidade insaciável.
Então o pardo-enodoado do amarelo, cujo encardido parecia irremovível, foi ganhando tonalidades do verde-esperança. Um pequeno revés levou o encardido a breve recidiva, porém logo rechaçada. E o verde-esperança mais reverdeceu. Mas continuou esperança. Preços mais estáveis. Entretanto, o dito crescimento, a passos de preguiça. Os obsequiosos investimentos negaceando-se. O contingente dos abaixo da linha de pobreza crescendo. Democracia e pobreza ainda maiores. Uma combinatória indesejavelmente assustadora.
Deu-se, pois, que a democracia permitiu aos pobres e indigentes elegerem seu presidente. Meio mandato passado, permanecem na pobreza e na indigência. Todavia, mantêm a esperança.
Até quando?

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