Dessentido

Dessentido
Data 17/dez/2004

     Nada daquilo fazia o menor sentido. Gente mesquinha. Gente vencida. Gente medrosa. Daquelas que, de pequeno, viveram levando repreensão. Ouvindo gritados nãos. Acusadas de pecadoras inveteradas. Intimadas a pagar pecados com estúrdias penitências. Infindáveis rezas diárias, cilícios corporais os mais variados e estapafúrdios.
Pecar. Pecado. Pecador. Era a norma. Era o mote. Era o inferno depois da morte. Inveja, pecado. Cobiça, pecado. Sexo, pecado. Usura, pecado. Desejos, pecado. Comilança, pecado. Furto, pecado. Mentira, pecado. Luxúria, pecado. Amar, pecado. Odiar, pecado. Desobediência, pecado. Preguiça, pecado. Vícios, pecado. Delações, pecado, Pecado é pecar por pensamentos, palavras e obras.
Decerto, por isso, resultavam tais deformações. Incapazes de um mínimo altruísmo. A cabeça posta em desgraça. Chispantes olhares inquirindo o em torno à cata de algo capaz de estragar. Detonar sossegos
Frustrados homens feitos. Quase incapazes de se desvencilharem desse atroz destino. Ficam na vida permanentemente importunando vidas. Atores de violências. Atores dos mais inacreditáveis crimes. Atores de roubos desde os ousados aos escalafobéticos. Atores de toda ordem de sadomasoquismo. Atores dos mais diversos abusos, desde os de poder aos sexuais. Atores desconstrutores construídos pelos poderes desconstrutores da sociedade.
A norma de viver consiste nisso. As ilimitações são reduzidas ao seu limitado universo circunscrito. Nada além. Nada aquém. Aquele círculo e mais ninguém. Os muitos nichos. Os muitos mínimos microorganismos sociais enquistados em outros macromicroorganismos da denunciada sociedade global. Que enganosamente se sustenta maniqueísta como forma social justa. O maniqueísmo do sim e do não. O maniqueísmo do bem e do mal. O maniqueísmo do empregado e patrão. O maniqueísmo do poder e da submissão. O maniqueísmo do mando e da obediência. O maniqueísmo da riqueza e pobreza.
A intermediá-los, o café com leite. O lusco-fusco. A bigamia. As múltiplas cores. A bissexualidade. A homossexualidade. A clonagem. Os transplantes. A tragicomédia. A global expansão da psicofísico miserabilidade humana com seus incontáveis tentáculos. E a perversa putrescência metal cíclica sem fim encurralando a vida livre, sã, saudável, feliz.
Nada de se iludir com a ingênua reinserção do éden na Terra. Nem muito menos denominá-la um martirizante inferno. Que, afinal, a própria organização social instituidora do maniqueísmo como princípio foi que criou o purgatório.
Então, nada daquilo fazia o menor sentido. Gente resultante da deformação dando-se à deformação. Aquela criançada esfarrapada, perdida pelas ruas e avenidas, praças, viadutos, devassadas, devassantes. Como coiotes uivantes de fome pelas matas. Atacam o que lhes vão pelas ruas e calçadas. Aquelas sutis e torpes delações à toa, gratuitas, feitas pelo mero prazer de prolatar o medo, de instigar o estrago, de deflagrar o trágico.
Afinal, todo sentido faz e não faz sentido. Todo sem sentido faz algum sentido.

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