Vida morte vida

Não obstante os edifícios e altos prédios, a tardezinha se insinuava pelas frestas das paredes de vidro. O dia esvaía-se por seus mil escaninhos. A noite se avizinhava com seu carossel feito de cotidiano e sortilégios. O corpo, este pouco considerado termômetro da vida, também acusava que o dia era findo e que a noite vinha com seus remédios de sossego e descanso.
Hora de ir suspendendo o infindo trabalho bancário. Deixar tudo engatilhado para amanhã. Hora da pausa necessária. Assim conscientizada, pôs-se nos arranjos de término de expediente. Tudo ajustando para no dia seguinte chegar, retomar o fio da meada e redisparar a rotina da vida.
Prontos os afazeres burocráticos da papelada bancária configurada em contas correntes, extratos, borderôs, duplicatas e etc, entregou-se ao mecânico trabalho de cerrar cortinas, desligar luminárias e uma ou outra vidraça que, apesar do ar-condicionado, mantinha discretamente aberta.
Ia nesse ritmo descontraído e de certo modo prazeroso de fechamento, quando se deparou com um estranho ser à sua sala. Ora surdia por ali uma pequena mosca, até mesmo um pernilongo, que enxotados logo desapareciam. Mas agora, numa dobra da cortina de sua janela central, havia um grande inseto. Comprido feito um graveto e de asas também compridas e duplas. Ao tocar na cortina, o inseto voou para outro lugar da sala. Assentou-se justamente sobre sua mesa. Dali para os papéis de uma prateleira.
Ficou entre irritada e apreensiva. Não era adepta de pura e simplesmente eliminar os animais. Todavia aquele inseto indo de um canto para outro retardava sua ida para casa. E não queria deixa-lo ali, pois intuía que lhe podia ser fatal. Pretendia pô-lo para fora. Por isso, reabrira todas as cortinas e janelas. Contudo, o inseto voava menos para as aberturas que lhe davam o lá fora, seu devido lugar, com arbustos verdejantes e floridos.
Certa de que o método de enxotá-lo era definitivamente inviável e firmada na decisão de que ali o inseto não poderia permanecer, passou a pensar em qual seria a alternativa. Relanceou pela cabeça quem mais poderia estar ainda ali e que lhe pudesse ajudar. De imediato veio-lhe o guarda de plantão. Não deveria recorrer a ele. É sujeito ansioso, quererá logo resolver a questão e acabará sendo desastrado, pondo fim ao inseto. E isso ela não queria fazer nem que fizessem.
Lembrou-se de que estava sem condução. Tomaria um coletivo como procedia, estando em tais circunstâncias, ou ligava pedindo ao marido que viesse buscá-la. Isso quando não fosse muito corrido para ele, que retomava o trabalho diariamente às sete da noite. Todavia a lembrança acometeu-a decerto porque excepcionalmente não precisaria ir ao trabalho aquela noite.
Ele veio. Ela o esperava à porta do banco. Sem nenhum pejo, pediu-lhe que antes fossem até a sua sala para que ele removesse para fora dela, vivo, repetiu enfaticamente: vivo, por favor, um inseto que teimava em não sair de lá. E instantânea e concomitantemente ela e o guarda trocaram um olhar. Ele por certo surpreso e logo entendendo por quê não o procurara para que efetuasse tão banal serviço.
Também o marido, a princípio utilizando-se dos mesmos procedimentos aos quais recorrera a mulher, não conseguiu enxotá-la. Tratava-se de uma bela libélula, disse ele contemplando-a por instantes. Mas o lusco-fusco restava ainda por minutos. Ia já se desfazer por completo. Teve então a idéia de aproximar dela delicadamente uma régua. Passados alguns instantes a libélula estava inteiramente sobre a régua. Então, cuidadosamente, vagarosamente, chegou até a janela central e impulsionou-a para fora.
A libélula assentou-se em um lírio que pendia para a janela. Mulher e marido ficaram, por momentos, agraciados e gratificados, contemplando aquele quadro singular.
Todavia fora mesmo por fugaz momento. Pois um belo, saudável e estridente bem-te-vi, conhecido da bancária, por ali sempre estar estridulando seu grito bom de pássaro, súbito pegou a libélula. E ainda não estavam refeitos do susto, e ele já a havia engolido por completo e gorjeava fortemente feliz. Decerto pelo apetitoso jantar efetuado. Restava-lhe procurar o pouso para o justo sono.

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