Freguês

A considerá-los assim, há-os por aí afora. Não é o freguês pertencente a determinada paróquia, cujas ações, hábitos pautavam-se levando em conta as posições decididas e avalizadas pela sua igreja, sua freguesia. Esse freguês parece ter definitivamente extinguido. Não é tampouco o outro, ainda em vigor, mas também já em franca descensão. E esta não apenas pelo desuso, porque, ao contrário daquele, os traços essenciais de seu significado permanecem, mas pelo estatus lingüístico. Denominar de freguês ao comprador habitual, tornou-se antiquado, fora de moda e “desvaloriza” a loja, ou a butique, ou o supermercado, ou o shopping. A denominação em voga é “cliente” em contrapartida a “empresário”, aos que vendem, ou mesmo promovem a venda. Mesmo a esses, que vivem desse negócio, já é depreciativa a palavra negociante. Ninguém abre um negócio, como há pouco ainda faziam. Desde um tempo a essa parte abrem empresa. Tampouco abrem filiações ou representações, mas franquias.
É freguês com um outro significado, mais especificamente atualizado. Diz respeito à família que lida com o caso. Freguês é um assíduo sujeito, decerto pertencente à massa dos desajustados por insujeição ou desujeição.
É um pedinte cujo significado mantém do tradicional pedinte tão-somente o sentido do ato de pedir. Nada de sacos encardidos, bornal, ou sacolas a tiracolo. Nada da figura esquálida. Cabelos e barbas crescentes, emaranhados e endurecidos pela sujeira. O encardido paletó que, como a camisa e as calças, vai enegrecido pelos vários tons de sujeira. Que chegam e deixam ficar pesadamente o dedo na campainha, cujos extensos esganiçados repetidos irritam a casa. E que solicitam determinado tipo de mantimento para a composição de sua miserável cesta básica.
Nada do embusteiro pedinte a quem serve apenas dinheiro. Aquelas histórias hipócritas de que está desempregado e o gás se acabou e as crianças sem leite. “Cinco o seis real” vão ajudá-lo a completar a quantia necessária para poder não deixar os filhos com fome. E o otário, tomado de compaixão, imaginando as pobres criancinhas desamparadas e chorando de fome, a coitada mãe chorando junto, corre à burra da casa e assaca a grana salvacionista. Uma ou duas semanas depois, outro. Simula sentir-se humilhado por aquele ato, todavia, prefere-o a roubar, porque é pobre, mas honesto e crente em Deus, Nosso Senhor Jesus Cristo acima de tudo. É que veio à cidade, mora fora, ficou mais de uma semana de porta em porta em busca de emprego, qualquer que fosse, o senhor mesmo não quer uma limpezinha na calçada, no jardim (a calçada está limpa, o jardim, visível, devidamente aparado)? Precisa voltar, esperam por ele mulher e cinco crianças, que infelizmente vão ouvir dele o que já ouvem há algum tempo. “Um cinco real” ajudaria na passagem.
Esse é um outro freguês. Nada de subterfúgio. Mora nos recantos das imediações. Nada de imundícies. Aparência comum. Vestido, calçado. Já na primeira vez, declara não querer dinheiro e todas as vezes que vem declina o que quer comer e beber. Um dia pede café com pão e manteiga. Outro quer um sanduíche reforçado e um refrigerante. Num outro (e nessa ocasião apresenta sinais de semi-embriaguês) requer comida, isto é, um prato feito. Às vezes percebe que a calçada está tomada de folhas etc., que as árvores estão com os galhos muito reclinados à rua ou à calçada. Quer vassoura e instrumento de corte para fazer a limpeza e as devidas reparações, pois acha que passou da hora de se fazer ali uma reparação geral.

Neste inverno quase em branco, apareceu, num raríssimo dia de frio. Pediu uma calça jeans que lhe poderiam dar para enfrentar o frio, que suas calças eram todas muito finas. Arranjassem também uma blusa quente que já andava fora de moda, que agora estava morando na barranca da lagoa e lá o frio é maior. No bojo disso tudo, acaba sempre levando um de comer acompanhado de refrigerante.

É o freguês dali. Um bairro residencial, que nunca fora nem é uma freguesia, que nada comercializa ou empresaria. Um freguês que pede, embora não seja pedinte.

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