Cena popular brasileira

Cena popular brasileira
Data 05/nov/2004

     Acordou com estrondos de coisa sólida sendo despejada em algum recipiente de lata ou zinco. Algo assim. Tais estrondos ocorriam perto da janela do quarto em que dormia. Pausa. Estrondo. Pausa. Estrondo. Seu tempo de sono estava acabado. Ficou ainda um pouco mais. Os sentidos fixados no estrondo; pausa; estrondo; pausa; estrondo.
Rotina matinal executada. Café da manhã cumprido, durante o qual soube tratar-se de umas remodelações por que passava o quintal nos fundos da casa, para o qual dava a janela do quarto em que dormia.
Era véspera de feriado. Estava a passeio, usufruindo um daqueles tais finzões de semana. Fora dar uma olhada em que consistiam as transformações por que passava o quintal.
Encontrou um único executor da obra. Logo o autor dos estrondos. Estes resultavam do impacto de pedaços de concretado que o homem quebrara de uma faixa do quintal e atirava numa carriola de mão. Ali, o quintal retornara a terra, onde seria construído um ajardinado.
Cumprimentaram-se rigorosamente com um mútuo bom-dia. Silêncio. Ele ficou olhando o trecho quebrado cujos cacos ainda estavam sendo removidos. O homem permaneceu descansando escorado no cabo da pá. Depois, tirou do bolso da calça um maço de cigarro que parecia vazio. Consultou o invólucro com o indicador. Encontrou um cigarro meio desalinhado. Amassou o maço vazio e atirou-o a um canto do quintal. Acendeu o cigarro sem se preocupar com realinhá-lo. Guardou o isqueiro no bolso da larga e longa camisa que ia sobre a calça mal acobertando a protuberante barriga. Deu uma baforada, olhando para ele e dizendo que era o premero. É três maço por dia. Daqui a pouco, hora do rango, compro o segundo. Diz que faz mal. Oi eu, ó – mostrando, com a mão direita gesticulando, o seu perfil –, nunca tive doente (ao retomar o trabalho algumas vezes tossiu uma tosse acatarrada).
De fato era um homem forte. Alto. Robusto. No trecho do quintal em que trabalhava persistiam três ou quatro tocos de arbustos muito resistentes. No entanto, a força que imprimira com seu machado acabou por extirpá-los todos.
Estava suado. Dos cabelos bastantes, acobertados por chapéu de feltro puidíssimo, bagos de suor escorriam para a barba farta de um rosto largo e franco.
Após a extração dos tocos, novamente descansou ao cabo da pá, antes de recomeçar a remoção dos entulhos. Acendeu um cigarro. Olhou para o trecho já quase tornado pura terra. Disse terra boa. Dá umas alface e almerão, umas couve. É ou não é? Bateu com a pá nas extremidades do concretado. Agora faço uma cinta de tijolo e cimento fora a fora. Evita a infiltração da chuva. Fica um servicinho bom. É ou não é? O senhor é de fora? Ah! Conheço. Comprei uns boi bom lá. É. Tive boi bom mesmo. Tive sítio. Perdi tudo. Os home não deixa, né? Isso é só pra eles. É ou não é? Mas não reclamo. Faço de tudo. De tardezinha, tomo minha cachacinha. Mais tarde, janto e durmo. Não me intrometo com a vida de ninguém. Tenho aquela carroça lá fora. Um bom burro. Vida apertada, mas honesta. É ou não é? Não. Cachaça é bom. Um pouco de álcool é bom. Todo home deve de beber um pouco. Muito faz mal. Mas não cerveja. Cerveja não é bom.
Tornou a silenciar-se. Acendeu outro cigarro. Mostrou o maço em que restavam mais uns poucos. Olhou o quintal. Dá uma bonita área. Churrasquera. Só que aqui fica caro. Vai troco. Vai uns bom troco. Eh! Olha, por falar nisso, me lembrei. Preciso acabar logo aqui. Pegar o troco com o menino aí, seu filho, né? E correr pagar a energia, senão fico sem ela nesse feriado. É assim. Com dívida da gente eles age rápido. É ou não é?

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