Indicação

Em riste, o indicador dá o horizonte.
Como uma seta rombuda mágica apontando a meta, dimensionando o espaço a se trilhar, vago espaço, o nada intacto. Ao qual a peregrinação vai desfazendo com súbitos e sucessivos eventos que, ao final, será o tudo tecido.
Em riste, o indicador denuncia o esconso, o clandestino, o desconhecido. Dá atraiçoadamente, comparsamente, a público o que à mercê de seu querer se fizera em confiança. A qual – quantas! ante tal gesto se desmorona.
Em riste, o indicador reduplica o discurso acusatório ferindo, dilacerando, muita vez, muito mais que palavras que se apagam tão logo pronunciadas, mas que ainda ali ficam percutindo na persistência reduplicativa daquele dedo mordaz.
Em riste, o indicador na palma da outra mão espetado, pedindo, propondo a suspensão de algo que se processa. Ato a que advêm reações várias. Mas que quase sempre causa grande expectativa. Sobretudo porque ali se enrista uma divergência, um reparo, uma questão.
Em riste, o indicador levado aos lábios estabelecendo o fim de algum barulho. Ou a preservação do silêncio. Sinalizando que ali não cabe a voz alta ou mesmo não cabe a fala. Que de humano convém apenas o silêncio. Que tão-somente se suporta o rumor, de todo irrefreável, da natureza:
“– Psiu!… Não acorde o menino. /Para o berço onde pousou um mosquito./E dava um suspiro… que fundo!”
O indicador em riste indicando na árvore o pássaro desabitual; não árvore, indicando a singularidade de um fruto; na árvore, indicando a presença da primavera; indicando, na árvore, a presença do inverno; indicando a presença de estranhos hospedeiros; indicando, na árvore, a acentuação de sinais dos idos anos.
O indicador em riste indicando, no azul entrecortado de nuvens, o celestial bailado dos urubus; indicando o cortejo cadenciado de paturis pipilando sua migração; indicando o casal de arara estridulando sua passagem; indicando a miríades de andorinhas borboleteando sua grácil dança branca-azul.
O indicador em riste indicando certos arco-íris ainda capazes de maior boniteza que os costumeiros.
De noite, o indicador em riste indicando certo singular efeito que a mesmice da lua sempre traz a quem procura ver. Em riste, indicando a melhor nitidez de alguma constelação. Indicando a precisa harmonia do Cruzeiro do Sul. O irresistível fulgor de Vênus. O apaixonante brisbrisar do brilho de Aldebarã. O magnífico clarão da estrela cadente explodindo feito fogos de artifício.
O indicador em riste flexionando-se pausada ou febrilmente, na indicação de um gesto chamativo já em si mesmo admoestador.
Os muitos recursos indicativos a que se presta o indicador numa partida de futebol: os vários sinais táticos do técnico. O sinal de imperiosa substituição de um jogador dentro de campo atendido e diagnosticado sem condições de continuar no jogo.
O indicador em riste que, combinado com o polegar, sinaliza a violência deflagrada a tiros.
O indicador em riste oscilando pausada, cadenciada ou sofregamente na indicativa negação coibitiva em múltiplas situações: nãos que muita vez calam mais fundo que os ditos a viva voz.
O indicador que, autômato, habilmente se flexiona numa perfeita combinação com o polegar e o médio, fazendo-se o motor da mais notável mimetização humana: a linguagem escrita. Que se reduplica no pincel. Que se reduplica na agulha. Que se reduplica no bisturi.
O indicador que, levemente inflectido, preme o mouse que o estendeem sua seta, fazendo surgir, na mágica tela, os webs das virturealidades.
O indicador que em riste ou inflectido toca nas feridas. A ferida do corpo, dorida, aliviando-se ante ao bálsamo que, carinhosamente, o indicador lhe fricciona.
O indicador em riste que, mordente, a ferida da alma toca, fazendo-a sangrar e avivando-lhe a chaga que não cicatriza, pois, quando menos se espera, o indicador em riste, feito um Sísifo, de novo a acutela com sua rígida pedra.
Com seu indicador em riste ou flectido o homem se traduz, se conduz e se transforma a si mesmo e ao outro, a cujo todo se denomina de natureza.

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