Tres amores

Pendido, à cata do sol que a vida lhe ilumina, o jacarandá parece ofertar-lhe alguns ramalhetes de suas flores. Azuis flores escoriadas de roxo.
Encarecido jacarandá ali nascido, que as mãos dele na terra escalavrada depositou com carinho e gosto. Ele foi crescendo, tomando corpo, ganhando robustez aos poucos. Agora, uma altiva donzela a espargir suas dádivas feitas de sombra e daquelas roxas flores marchetadas de azul, discretamente lindas, espargindo beleza e alegria àquele espaço.
Caprichosa, agradecida, com o extremoso trato que lhe devota, tem sempre vivos à sua vista, quando as estações lhe autorizam, uns cachos viçosos para contemplação e envaidecimento dele. Que decerto ao mirá-la, furtiva ou frontalmente deve orgulhar-se feito um genitor ante os dotes admiráveis de uma sua menina.
Ainda aí não se esgota sua dadivosa retribuição a seu progenitor. Que, para não deixar que consigo extinga sua majestosa beleza, produz sua reprodução em uma vagem, cujo formato segue o belo que a veste. E sua pérola repousa revestida de camadas esponjosas como a dar toda a guarida para a absoluta preservação de tal relíquia. Um jacarandá amado retribuindo com seu esplendor.
Todavia, bem sabe, não lhe poder obter exclusividade. Nem nunca pensou isso conquistar ou mesmo lhe pedir. É coisa esta da natureza humana. Lá eles se querem uns aos outros com exclusividade. Assim não dá para ser com plantas. Ela mesma ali publicamente exposta não é apenas dele. Sua beleza está para os transeuntes. Há os que não a vêem, sequer. Vão olhando para os seus problemas, não têm olhos para árvores ornamentais. Talvez apenas as pressentem à medida que passam. Por certo, tem-nas como algo natural. Que ali está e que parece sempre ter estado. Capazes mesmo de não se lembrarem de que uma delas existiu anos a fio onde hoje há tão-somente chão de cimento.
Entretanto se sente uma árvore dele e para ele. A ele se entrega. Para ele se embeleza. Para ele põe viçosas e aromáticas suas roxo-azuis florzinhas. Por ele aprimora os rendados verdes de suas delicadas folhas, que ao sol rebrilham. Ser pública é sua condição de ser da Terra. Ser dele é sua opção de amor por outro ser da Terra. É compreensível que ele se divida. Afinal, uma árvore só não faz um admirável jardim. Mais de uma é necessária para sua eficácia. Daí, por certo, a dedicação dele às duas outras.
A acácia entremeia-se com ela e a brinco-de-princesa. Não sabe por que essa ordem. Se quis à acácia destacar em virtude de umas suas certas propriedades chamativas. Soube que se trata de uma acácia-vermelha, cujas flores são róseas. Ela (tem de admitir) vai formando formoso e elegante porte. Erecta, vai, quase simetricamente, abrindo seus galhos longos, langorosamente perpendiculares, figurando-lhe um porte espadaúdo, indo a cada dia em busca de seus dez metros de altura. Já vai com ela ombreando-se. Não lhe ganhará em tamanho, contudo é de novo justo admitir que se lhe sobrepõe em elegância. Sua esperança é que, no final, se não se lhe igualar, tenha o suficiente para dela nada cobiçar. Sabe-se bela e muito querida. Isto lhe basta.
A pingo-de-ouro não passa ainda de um broto. Mesmo quando adulta lhes deverá muito em altura. Porém nada tem de desmedido e desengonçado em sua compostura. No geral, tornam-se, as pingos-de-ouro, numa pequena notável. Mimosas, elegantíssimas em seu colorido magistral. Mais imediatamente atrativas com seu ouro encarnado, que a recobre toda.
Também com ela o vê despendendo demoradamente sua atenção. Não sabe se a acácia,quanto a pingo-de-ouro lhe tem dela o amor. Como também não sabe o quanto do amor dele a elas. Sabe, sim, que a elas ama, porque muito bem as cuida.

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