Cabeça de porco

Data 02/mai/2005

     No Roda Viva da Cultura. O cantor e compositor de hip hop sentado na cadeira em que circulam normalmente celebridades. Tanto do bem quanto do mal, ou nem tanto um e outro. O cara é da comunidade da Cidade de Deus. Tripla glória: além destas duas, publicara de parceria com outro um livro, resultado de longa pesquisa-entrevista com moradores dos guetos das grandes cidades (capitais) do País. Coisas sobre a vida marvada: violência, drogas, crimes, misérias, preconceitos, desempregos crônicos, desejos, anseios impossíveis instigados pelos meios propagadores das relíquias do mercado.
Cabeça de Porco, o título da obra. Os inquisidores no programa e telespectadores iam do conteúdo do livro à história do hip hop. Os primeiros transpareciam ter lido o livro, embora o mesmo não tivesse ainda oficialmente dado a público.
O compositor – por isso classificado ao final do programa pelo apresentador de “cara de pavio curto e pouca conversa” –, em atitude solícita, entre rispidez contida e respostas abruptas e diretas, parecia tenso, nada à vontade.
Todavia, quase tudo de todos era discretos e moderados elogios ao hip hop e ao Cabeça de Porco. O artista em voz abafada e cara amarrada sussurrava seus obrigados.
Descansado na poltrona, da qual acompanhava com atenção em sua tevê, ia entre acusando mentalmente o conjunto de pronunciamentos e perguntas de chocho e vazio e admitindo que o compositor era desenvolto, fluente linguagem, raciocínio lógico e rápido. E o teor de suas réplicas continha interessantes, significados, o que acabava dando qualidade de conteúdo aos banais assuntos decorrentes dos inquisidores.
Pensou também, longe mesmo de querer subestimar quem quer que fosse, que o hip hop, com o qual não gastava nenhuma parte de seu tempo dedicado à fruição estética, passara a ganhar muito mais bons olhares da média classe brasileira, depois que Chico Buarque deu de andar dizendo que o mesmo exerce um papel semelhante, e com mais contundência, pois que livre das mirabolantes e obscuríssimas metáforas, ao que ele, Chico, praticava com suas canções políticas no tempo da negra ditadura.
Cabeça de Porco parecia um trabalho sério e digno de ser lido. Mas o título da obra trouxera-lhe à tona um outro cabeça de porco. Muito provavelmente tão destroçado quanto àquele. Era uma periferia no último. E tida e havida como o antro da marginália. Expressão aristocrático-policialesca difundida e circulante. Para lá fora tangido por força da profissão, conquista difícil e disputadíssima em concurso público. A unidade básica de saúde do lugar recebera um médico que ali deveria dedicar-se oito horas por dia na labuta com as enfermidades que o procurariam.
E quantas! Muitas cujas causas eram de nutrição, de saneamento básico, de higienização. Bem depois das oito horas estabelecidas, ia para casa moído e desiludido quanto às suas receitas que abrandavam as conseqüências, mas incapazes de erradicar aquelas causas cujas doenças mantinham crônicas.
E logo se deparara com outras doenças tão graves como as manifestas fisicamente. Tratava-se de moléstias da alma. Terríveis moléstias mentais que quase o sufocavam, porque não pôde furtar-se em ouvi-las. Daí esperava o paciente umas palavras orientadoras do “dotor”.
Ele as foi dizendo, tais as ansiosas necessidades. E com medo de que estivesse receitando duvidosos remédios para aqueles muitos e comuns males de alma reinantes ali naquele cabeça de porco.
Não obstante a sua grande paixão pela medicina, era um médico jovem. Entretanto, fora aprendendo, aprendendo com aquele grande arsenal de miserabilidade humana. Miséria social que propiciava o alastramento da miséria mental. O que resultava em promiscuidades, em estados de violências: espancamentos; estupros; verdadeiros infanticídios: pedofilia; abusos sexuais de toda ordem; prostituição.
Um cabeça de porco que parecia fadado àquele destino. A politicalha mandava, perseguia quem se lhe interpusesse. Ele cedeu. Foi embora de transferência para o posto central. Abriu consultório, passou a escamotear seu trabalho no Estado. Entregou-se à vida que os verdadeiros donos dos cabeças- de- porco queriam.

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