Toladorite

Toladorite
Data 24/dez/2004

     A dor que fere; dilacera, punge. Instaura um estado de estupidificação atordoante. E instiga impulsos outros. Além dessa comoção de estado de alma de consciência humana em choque. Assoma conjuntamente a compulsão do desejo de intervir superiormente a quaisquer forças. Pôr um basta. Extirpar de vez, cirurgicamente, magicamente que fosse, esse dom, essa predisposição, esses neurônios, esses genes, essa coisa, enfim, que compele o homem à violência, ao extermínio, ao assassínio, ao genocídio. Insanos bestiais matando gente sob a alegação de algum motivo nunca possível de lhe conferir essa prerrogativa que somente a Deus, se diz (à natureza), é conferida.
A morte como um impeditivo ao outro de ser. Ser como tal. Não como pretendia o assassino que o exterminara. Esperar-se-ia que, quanto mais fosse difundido à consciência do homem que ele é o ser que pensa e, logo, aprende saber existir com o outro, mais estaria abolindo essa prática de matar. Não apenas os da sua espécie, como também os das demais.
Todavia, dá-se o inverso. O homem mais mata, quanto mais sabe de si. E mata mais não somente a si mesmo. Também mata mais intensamente aos outros animais. Mata os macacos. Mata os marrecos. Mata os galináceos. Mata gados. Mata gatos. Mata pássaros. Mata peixes. Mata felinos. Mata insetos.
Mata por medo. Mata por ódio. Mata por amor. Mata por fome. Mata por dinheiro. Mata por herança. Mata por soberba. Mata por poder. Mata por prazer. Mata por querer. Mata sem querer. Mata por mandante. Mata por profissão.
Então: o extermínio dos seres animais entre si por algum motivo é condição, é destino. Como quis Darwin, sobrevivem os hercúleos e os apolíneos. Fatídica constatação: a sobrevivência é predadora.
Dá-se, entretanto, que o homem não sobrevive pura e simplesmente como sobrevivem as aves. Com sobrevivem os peixes. Como sobrevivem os bichos demais. Tais agem movidos tão-somente pelo extinto da sobrevivência: comer, beber dormir, procriar. O medo os acomete ante o estranho, que sempre se lhe afigura um hipotético predador.
Aprendeu o homem a complexidade. A consciência de si mesmo e do mundo. O saber pensar. A consciência de pensar o seu fazer, e saber que os outros seres não sabem pensar o fez soberano, soberbo, egoísta e, não um predador, como os outros pela sobrevivência, mas um degradador pela ganância. E mata, e espolia, e devasta, e corrompe, e extermina, e sevicia, e violenta. E o faz por soberba, que, com pouco do que sua prodigalidade lhe confere, sobreviveria de forma confortável. E o faz pelo poder de mando, que, com muito pouco do que acumula, sobreviveria com conforto. E o faz para detenção do requinte, da sofisticação, da ostentação. Que sem isso tudo, mas assegurado seu conforto, compartilharia, com os outros da sua espécie, a participação da sobrevivência com conforto. Permitiria àqueles saltar dessa agonia de sobrevivência enxovalhada de miséria. Mas a verdade é que, para a sobrevivência, os bichos comem. Os homens consomem.
Na arena de touradas, o boi sendo gradualmente sangrado para deleite de espectadores. Nas matas, animais silvestres aprisionados, mutilados por alguns trocados. Crianças assassinadas em Beslan, no Iraque, nas favelas do Rio, de São Paulo. Baleias, jacarés, focas, leões-marinhos, micos, tantos e tantos que se sabe e tantos e tantos que não se sabe. Tudo em nome da fome dos homens. Tudo em nome do consumo dos homens. Tudo em nome do acúmulo dos homens. Tudo em nome de caprichos e extravagância dos homens. O que fere, o que dilacera, compunge. Que instaura um estado impotente de tola dor aguda.

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