Não dá pra não falar de Copa

A Copa do Mundo continua dona absoluta das atenções do mundo. Afiança a mídia esportiva brasileira tratar-se da “Copa de todos os tempos”. E, ressalvados os exageros, não se pode dela discordar em vários pontos. Afinal, vive o mundo o instante mais depurado da tecnologia. Os telespectadores, por muito longe que da Alemanha estejam, sentem-se integrados à grande massa da platéia presente nos estádios. Vêem detalhes, às vezes repetidos (a jogada do gol, as ríspidas infrações, os sutis toques, os belos e os feios) que não só os espectadores presentes, mas também o próprio árbitro, que no campo se locomove, procurando estar sempre o mais próximo possível das jogadas, não.
Um ponto, até aqui, oitavas de final terminando, essencialíssimo, todavia, contraria essa afirmativa: a ausência do grande futebol, do denominado futebol arte. Um suceder-se de mesmices tem predominado. Jogadas previsíveis. E a força física evoluída pelo avanço tecnológico na área impõe-se predominantemente.
Imaginou então se essa sofisticação midiática contemporânea tivesse funcionado décadas atrás. Talvez, sim, ter-se-ia chegado às maiores Copas. Lembrou-se da já lendária história, muito conhecida e repetida no meio futebolístico, dos três chapéus aplicados por Pelé num jogo contra o Juventus. Três encobertas. Uma em cada jogador sem que a bola tocasse o chão. O quarto toque (sem que a bola tivesse tocado o chão) foi o chute desferido. Um gol fenomenal.
Como essa, outras eram contadas. Pouquíssimas haviam tido a sorte de um registro cinematográfico. Umas bicicletas de Leônidas da Silva. Uns dribles desconcertantes de Canhoteiro, de Garrincha, de Pelé. Outras dadas por geniais, como aqueles inimitáveis chapéus, compõem o repertório lendário do futebol magistral. A tecnologia requintada de agora é que se encarregou de materializar, em virtual imagem cinematográfica, no recente filme-documentário sobre Pelé, aquela jogada, tida como uma das máximas do gênio da arte da bola.
Outra lembrança, mediante essas, não obstante um pouco destoante delas, que, decerto, nunca mais irá se lhe apagar. Menino de cidade pequena. Camisa aberta o peito (na verdade andava sem camisa quase todo o tempo), pés descalços e a bola como meta, como companheira. Após a escola, a bola, Após qualquer obrigação caseira, a bola. A bola nas peladas das ruas. A bola em certos quintais de amigos. A bola nos vários campinhos. A bola no estádio de futebol da cidade. A bola em casa, com os irmãos, com os amigos. Sozinhos, ele e a bola; a bola e ele. A bola nova de “capotão” (couro) sempre como o mais cobiçado presente.
E todo envaidecido andava ante aos elogios e comentário geral da cidadezinha que o apontavam como o melhor jogador dos garotos da sua geração. Por certo ali surgia um futuro craque do futebol brasileiro.
Não gostava quando alguns torcedores e admiradores, em certas partidas, atribuíam-lhe a desqualificação de “mascarado”. Não era. Sempre se considerara humilde. Nunca se apresentava soberbo. O que verdadeiramente insistia em fazer e de que a acusação de mascarado não o fazia recuar era criar jogadas, toques, dribles. Não suportava ficar repetindo uma jogada já estereotipada (como essa tal pedalada de hoje!). Quando acertava, vibravam. Se errava, mascarado! Assim semelhante à representação feito a voz global Galvão Bueno: à jogada refinada, ousada não bem sucedida afirma depreciativamente que o jogador “fez lá uma graça”.
Como todo menino apaixonado por futebol (e também muitos homens) era um colecionador de figurinhas de jogadores da Copa do Mundo. Quem completasse o álbum com as figurinhas-jogadores carimbadas e figurinha-jogador assinada ganharia um rico prêmio. Vendidas em forma de bala, cujo último papel do invólucro era a figurinha. Perspicácia comercial com a sedução da surpresa. As difíceis: Zizinho e Pelé, carimbadas. A dificílima: Moacir, assinada (jogador do Flamengo que fora substituído por Pelé em 58 – talvez fosse essa, não se lembra mais,  a única e frágil justificativa para isso).
Certo dia, saiu do bar em disparada, gritando. Havia tirado Moacir! Quando se reouve a si mesmo, estava diante do pai que num espanto igual, mas aquietado, tinha o aceso olhar fixo na preciosidade. E a explicação veio logo depois. O dono da venda a que devia duas compras mensais, há tempo aguardava tão-somente aquela figurinha.

Tornado a si, concluiu que, se aquele hábito hoje persistisse, certamente os jogadores carimbados seriam um Zidane em fim de carreira, um Riquelme sem entusiasmo, um Ronaldinho Gaúcho medroso. A figurinha assinada, sem dúvida, seria um Ronaldo Fenômeno gordo, não obstante fazendo os gols suficientes para levá-lo à conquista de mais um galardão: o maior artilheiro de todas as Copas.

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