Viuvez

Data 13/fev/2004

     Pacato cidadão senil. Governava-se com pouco e uma quieta fé. Modos de homem provindo da roça. Fala calma e pausada. Riso grosso sem gargalhar. Morava com a mulher. Tinha netos crescidos. Os filhos, quase todos, e não eram poucos, aparentavam com ele mais como irmão. Davam-se bem com o pai. Visitavam-no periodicamente. E se sabia que assim era por respeito inamovível, consideração muito alta, admiração eterna. Nada tinha isso com a beatitude líder agregadora de crentes adeptos de suas espíritas pregações.
Sabia muito pouco daquela atividade dele. Quando se mudara para ali, o lugar compunha-se de três casas. A dele ocupando uma esquina, como a sua. Ao fundo um rústico templo encimado por uma cruz que se ilumina. Duas vezes por semana, à noite, a freqüência aos rituais religiosos que, por certo, ele dirige. Nessas noites, o então ermo lugar, povoava-se de automóveis de procedências municipais diversas. Testemunhos da fama de seus trabalhos religiosos.
Têm os negócios do sobrenatural, como poucos, esta extraordinária capacidade de reunir, sob um mesmo teto rústico, os muitos diferentes. É certo que sabem daquela provisoriedade. Todavia, durante esse tempo, praticam a solidariedade e o reconhecimento do outro. Ainda que, logo depois, já ali, na rua, quando reassumem a condição constituída, esqueçam o que lá dentro foram. É certo também que vão ali por si mesmos. Move-os para ali os seus interesses, as necessidades de cada um. A intercessão de um milagre de cura, por uma apaziguação do espírito, coisa, decerto, desse teor que ele com eles buscam construir sob preces e cantos e louvores. Entretanto, estas dependências comuns os igualavam ali na condição de penitentes.
E a tudo presidia com sua tranqüila conduta de homem diferenciado, sobretudo pela sua condição de ser admitido como um intermediário entre o natural e o sobrenatural. Age vive do modo como estes entes fazem. Vida simples, não-desconfortável, mas reduzida ao mínimo necessário.
Não sabia se o sustentava alguma parca aposentadoria, se os adeptos contribuíam. O certo é que tudo de seu é o mínimo: a residência, a bicicleta, as ferramentas. Ele manteve o hábito de confeccionar vassouras. Plantava-as nos terrenos baldios concedidos.
Já há muito, vivia com a segunda mulher. Soube que a viuvez o tornara mais recluso e certamente fora a responsável pela depuração daquele seu dom de espírito elevado e o impeliu a agir pelos outros com a construção do rústico e modesto templo.
À noite, dali, vinham pregações compassadas, em tom altivo. Com pausas entremeadas de dolentes cantochões. Um como outro imiscuíam pela noite ainda ali muito mais escura.
Quando lhe morrera a segunda mulher, sereno, mas abatido, dissera-lhe, conformado, todavia muito triste, que sempre julgara ser a vez dele a hora de morrer.
Não muito depois, já com ele convivia a terceira mulher. Vistosa, parecendo acentuadamente mais nova. E os anos se vão. Viam-se pouco, embora vizinhos. A nova mulher, vistosa, sempre ao lado.
Dia desses, passando em frente à casa dele, lá estava o casal na mínima área que dava para rua. Mútuos cumprimentos, calorosos de apreço. Seguiu com a imagem de uma mulher idosa, senil. E ficou por longo tempo com a forte impressão de que não lhe tardaria a terceira viuvez.

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