Invidência

Data 06/fev/2004

Não. A vida não tem medida. A sina nem é destino e não é absolutamente construída. Todavia, as vozes em prol do acaso não são tampouco completamente infundadas. Há em tudo excesso e acerto. O enigma é uma realidade da condição humana. Por mais que ceda à indômita e insaciável investigação do homem, prossegue enigma. Vivo filão de entranhas túrgidas, obscuras, indevassáveis. Plosiva mina borbulhando de matérias sucessiva e concomitantemente renováveis.
Não. Viver jamais é ir em linha reta. A retidão é o canto complacente e nacisístico meufanando suas (in)seguras e (in)sólidas verdades para o absolutismo de seu domínio feito a medo. Várias são a linhas. E, pois, se existem são reais e verdades. Há curvas, sinuosidades que certamente retas compõem.
É isso, pois. A vida é o inacontecido por vir. Vivê-la dá sabedoria para se saber vivê-la. O inaudito, o imprevisto, o não-descrito, o sabido limite-ilimite: a vida é inconcebível, embora se passe a vida interira concebendo-a.
Por exemplo: por que o acometera aquela lembrança, ali, agora, quando o olhar vazio circunvagando na distraída apreensão de inexistentes imagens; solto o pensar, nem sismarento, nem reflexivo, tampouco disposto ao elucidativo. Um olhar que, se não perscruta, também não cuida. Vai de um quadro ao nada. Do nada a outro quadro. Plantados em sua cabeça alguns fiapos caros incofessos a si mesmo. Pouco dados àquele estado. Todavia, uma viva imagem, fixa e sentida, acalanto e despedida, veementemente dissipada, enxotada. Imagem amada. Imagem para sua toda vida.
Mas nada daquilo se definia pela retidão de uma linha. Pois tudo que é vida mesmo impulsivelmente se desalinha. Vagava. Dos quadros às poucas plantas, aos móveis ainda menos. E a demorado espreguiçamento acaba ocupando desarraigada imagem. Imagem retecendo um vivido que, ao reconhecer, arrepiou-se. Não sabe se de medo ou de arrependimento, pelo que supunha jamais poderia lhe insurgir.
Mudara de espaço, se bem que tivesse vários traços de proximidade com o onde com ele convivera. Não. Havia mesmo semelhança, situações comuns. Num movimento contrário fora de alto cargo a outro abaixo, exatamente de onde ele se alçara.
Pacato homem. Cuidada mansidão. Que diziam apenas com os superiores. Um ancião em relação a ele. Contudo, a vida o tornara um superior daquele pacato e respeitabilíssimo senhor. E este lhe dispensava um tratamento refinadamente, impecavelmente, como deve dispensar um subalterno de retidão a seu superior. Era um ancião superior na arte de praticar a subalternidade. O que o deixava transtornadamente vexado, irreparavelmente incomodado. Em vão suas insistentes solicitações para aquele bom senhor não o tratar daquela forma. Nada. O ancião era todo reverência e honesta subalternidade.
E ali, agora, naquela morrinha, acomete-o aquele dia: ele diante do féretro daquele seu senhor subalterno. Queria afastar-se e não conseguia. O morto parecia nunca acabar suas reverências à generosa e honrosa presença dele ao seu passamento.

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