Nova inquietude do salteador de astros

Data 21/maio/2004

     Sabia sim reconhecer algumas compulsões suas. Conheça-te a ti mesmo. Por isso, se sabia um homem. Um homem do seu mundo. Um homem forte (elencaria instantaneamente exemplos, se quisessem) com experiências de vida irrefutáveis. Um homem orgulhoso de si: a Deus reverenciava o amor absoluto e irrevogavelmente imparcial; ao próximo, o respeito à dignidade e igualdade, a solidariedade, a compaixão amparadora; de si, a exigência de hombridade, do pão com o suor de seu rosto. Um homem frágil, com seus limites (E tanto assim era, que logo desconversaria para não expô-los.) Nos quais centrava sobremaneira seu reaprendizado de ser.
Enfim, um homem. Vencedor, perdedor; brutamontes, amável; corajoso, medroso; vaidoso, modesto; preguiçoso, trabalhador; ambicioso, ponderado; ousado, tímido; impaciente, tolerante; revolucionário, conservador; alegre, triste; áspero, dócil; sonhador, pragmático; teimoso, compreensivo; passadista, contemporâneo.
Vivente com suas neuroses controladas, seu estresse observado; expiando suas dores e frustrações; expiando as razões, as desrazões, a insensatez tecendo e destecendo o cotidiano mundo terrestre, seu desvanescente, impúrio, inebriante e espúrio habitat, exposto em sua órbita a céu aberto.
Uma consciente compulsão. Que o punha em estado de gratuidade – o aberto céu.
Mesmo o céu de sol imperante. O seu azul cambiante, com suas instáveis nuvens ao sabor do humor do tempo e do vento. Chumaços de paina em impercetíveis movimentos pairando ao dispor de olhos que nelas projetam coisas e seres. Enormes pedaços de chumbo, de zinco. Inconsútil teia sépia ameaçando inquietantes tempestades.
Mas arrebatava-o o céu de noite. O céu povoado por seus infindáveis astros. E gostava de tê-lo assim uma incógnita realidade amadoristicamente conhecida. Não o tomava com olhos clínicos. Da Astronomia procurava por vezes uma ou outra informação que lhe bastasse para situá-lo perante os astros com os quais mais gostava de se relacionar.
Eram poucos. Nada de aplicadas e demoradas incursões no mundo de constelações e galáxias, como um certo conhecido seu devotado astrônomo amador. A astronomia como o seu grande e prazeroso entretenimento. Seu diletantismo.
Tem para o céu de noite a cotidiana olhada diária. Mais ou menos demorada. Conforme. Todavia, ainda que de relance, passa o olhar globalmente.Busca a lua. E dela encaminha-se na direção dos outros seus preferidos. Para em seguida uma vista geral.
Hábito. Súbito se pega olhando o céu. Então flagra certos peculiares vôos. Certos raros pássaros cortando o espaço. Uma aeronave: um ponto mínimo gizando o imenso quadro azul celeste.
De noite, as formas e performances da lua em sua peregrinação. Dela para o brilho florido de Vênus. Daí para o áureo requinte de Marte. Depois se detém na recatada sensualidade de sua resplendente Aldebarã. E quase sempre lhe sobram umas estrelas cadentes em vertiginosa estripulia joaninamente desarranjando o engessado firmamento. Os eclipses. Súbito, sutil objeto estranho. Tudo a olho de ignóbil amador do espaço.
Em incertas horas, ele deliberadamente atenta contra a ordem celeste e a ordem social. Então, investido de sua incondicional e inexplicável capacidade de demiurgo, decide com seus preferidos astros bulir.
Assim foi que em venturosa e complexa operação, com eficazes estratagemas, para que as ordens celestial e social não se desestabelizassem, roubou, para presente de aniversário a seu amor, um plenilúnio deslumbrantemente peculiar. Assim também procedeu com Marte há pouco, quando este se dera a Terra em sua raríssima plenificação.
Agora, ultimamente, o céu anda a ostentar uma Vênus estupenda.

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