Sobre uma das mortes não-anunciadas

Data 20/fev/2004

     A caminho de casa. Findava o dia. Desde a primeira hora apta a início de trabalho – sete da manhã, à última. Nada a reclamar. Não desgostava em absoluto do trabalho que mantinha digna sua e outras vidas dele dependentes. Apenas repassava a consciência e constatava um cansaço decorrente. Mas cansaço confortável, dissipável. Já o ato de ir para casa tinha a impulsão da ávida necessidade do exercício físico. Corrida ou natação, ou halterofilismo. Era o seu real descanso. Lavava-se em suor em sua longa corrida. Desfibrilava os pulmões, tonificava os músculos dos membros.
Uma quase mesmice, quase repetitiva rotina de um sujeito cidadão registrado na malha da escorchante tributação oficial violenta ao pouco pecúnio proveniente do trabalho.
O retorno a casa em sua primeira pausa de jornada total se fazia. Ia com pressa, que antes do início da segunda etapa, a impulsiva e imperativa determinação das endorfinas exigia o exercício do dia.
Numa das travessas de seu trajeto, uma quebra da rotina das ruas e avenidas, onde veículos autômatos trafegam induzidos por suas obrigações a cumprir. Todavia, nada extraordinariamente inusitado. Nada que ainda não compusesse o catálogo dos fatos ocorrenciais no trânsito das malhas viárias citadinas. Certo é que uma colisão, um atropelamento, sempre incomodam almas, além de fluxo, e sempre atrai a mórbida curiosidade do animal humano transeunte.
Quando ali chegara e efetuava a melindrosa travessia – muita gente na pista a pé, ciclistas, automóveis curiosos trafegando morosamente – já havia o serviço policial de trânsito que atuava em sua burocrática operação autuadora, já o serviço ambulatorial móvel prestava os primeiros socorros.
Fora se livrando de tudo aquilo pelos espaços mínimos cuidadosamente. Tinha a atenção fixa em sua operação-ultrapassagem. Então vislumbrava apenas fiapos do sinistro. Feita a travessia, já retomado o ritmo do retorno, certamente alterado pelos bloqueios, com a cabeça distraída e fixa no que havia ainda por se feito naquele dia que se completaria com a noite já bem ida, fiapos daquele sinistro foram se compondo. Aparecia um jeep luxuoso em posição perpendicular; uma motocicleta retorcida uma silhueta de corpo estendido. Era tudo. Concluíra o pensar sobre aquilo pelo corriqueiro conformismo que se formula no desejo de que tudo acabasse bem.
Estava em pleno cooper. A rodovia em seu denso movimento. Já atingira o ponto prazeroso (e perigoso) da corrida, quando se desencadeia a vontade de ainda mais. A tarde morria. Consistia sua tarefa em um percurso de ida numa pista e de volta noutra.
A noite ia tomando conta. Na cabeça, a etapa de trabalho a se reiniciar daí a pouco. Os veículos trafegam com suas luzes acesas. Estava no trecho em que a rodovia, com seus altos abarrancados, faz-se um gigante corredor.
Então viu, ainda meio a distância, vindo de encontro a ele um pequeno cão, que, talvez também por vê-lo, estacou um instante e depois pôs-se a ir no mesmo sentido e mais apressado. Começou a sentir medo. O tráfego era intenso.
E aconteceu. O cãozinho entrou na pista e não conseguiu atravessá-la. Escutou os baque e o grande grito. Foi espedaçado, consolou-se. Mal sentiu a dor. Não fora, todavia. Ficou estático uivando a sua dor na pista. Automóveis vinham em fúria. Resolutamente, adiantou-se, tomou o cão pelo rabo e o atirou na vala entre as duas pistas.
Mas, seguindo embora começou a ficar arrependido. Ele talvez sofreria muito ainda antes de morrer. Melhor teria sido ficar na pista para o tiro de misericórdia.

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