Medo

Data 07/jan/2005
     “Em verdade temos medo.
[…]
E fomos educados para o medo
Cheiramos flores de medo
Vestimos panos de medo.
De medo, vermelhos rios
vadeamos.”
(Carlos Drummond de Andrade, “O medo”, em A rosa do povo)
O medo. O medo que ronda a inquietude que a ele se irmana. O medo que a toda coragem acompanha. O medo do abandono. Que acometeu Jesus Cristo no horto sinistro. Que acomete alguém de súbito de todos perdido. Que acomete o filhote deixado na calçada, no portão de qualquer casa, numa noite ou madrugada; num terreno baldio dado às traças. O medo do abandono a que se vê um homem ou uma mulher cuja decrepitude aturde, atrapalha, entrava, desgasta. O medo do abandono de que sê vê acometida uma mulher cujo desaparecimento do marido a deixa a mercê com a dependente prole. O medo do súbito abandono em que se vê um homem, uma mulher do grande amor que se foi embora.
O medo do novo que incomoda e paira feito uma espécie de ameaça. O medo de romper com o antigo dado sobejamente como já inadequado, mas que ainda assegura o status.
O medo do confronto que fatalmente provocará uma mudança de estado; que provocará o desconforto de ter exposto o outro lado; que provocará perdas e desamparos cujas reparações exigirão, para não se sucumbir.
O medo de um fracasso. Que imediatamente deflagra a condolência, mas também o menosprezo. Que, onde impera o sucesso – único traço que ao mercado interessa –, requer um vigoroso suporte, para se impedir o trágico.
O medo da violência que tolhe, que impede, que mutila, que anula. A violência em suas múltiplas facetas: físicas, psicológicas, sociais, profissionais, políticas. E toca a cercar-se de formas e mecanismos para dela resguardar-se, que com ela conviver é sina, destino.
O medo do assalto que extrai, apropria-se, apodera-se do que uma vida de trabalho conseguiu.
O medo do desemprego crônico e potencial que a vida global contemporânea emprega. O que desagrega, põe em pânico, ante o rondar da miséria, a presença de sutis manifestações da fome.
O medo das balas perdidas que passeiam impunes, madonárias, pelas ruas, avenidas, esquinas, guetos, becos, bairros e toda desordem de periferia.
Medo dos esquecimentos. O esquecimento da pessoa amada. O esquecimento do filho, da filha, dos filhos. O esquecimento dos amigos. Medo de que a morte apague a imagem, a memória. Medo, enfim, de não ter conseguido fazer história. Medo de passar incólume, como passam as frutas de estação, com passa pela rua um cão. Medo desse absoluto anonimato. Como ficam no papel toda a vida, depositados em registros batismo e crisma. Medo de esquecer-se de si mesmo, dos outros, do sentido da vida, das coisas. Medo de esquecer-se de se saber amado. Medo de se saber esquecido de seu amor. Medo de esquecer-se de ter desejos, vontades. Medo de esquecer-se de sonhar. Medo de não conseguir mais construir uma palavra que desvaneça suas falhas; uma palavra que faça se iluminar a aura de sua alma; uma palavra que ulule o ardor de sua paixão.
Medo de ir embora levando consigo tristezas e desdéns. Medo de ver ir-se embora quem jamais quisera ofendido nem tampouco carregado de amarguras.
Medo da soberba, da ganância, da presunção. Medo de ser um mero arremedo. Medo da inanição provinda do medo. Medo de não ter medo.

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