Trégua

Data 14/dez/2005

Fora ver a quantas andava o jardim. Apascentava-o com a mesma dedicação com que se entregava às suas outras paixões. A indômita vividez de seu terno pastor; a adorável vividez de seus inefáveis netos…
Dava à displicência do livre crescimento dos tendões da primavera um redirecionamento. Amarrava-as, quando indomáveis afastavam-se da cerca, onde deveriam distender-se como proteção e enfeite. Os espinhos afugentando os gatunos. O colorido das várias cores de suas flores atraindo e agradando os muitos olhares. A graminácea verde e aparada. Livre das todas espécies de pragas. Os pingos-de-ouro crescidos até os portes devidos rebrilhando ao sol seu amarelo ameno. A brinco-de-princesa toda airosa solta no meio com seu fêmeo porte exibicionista. Mas contida, para que vaidosa, não invada os espaços de domínio da acácia rosa.
E, estando nesse a esmo andar pelo jardim, a tudo perscrutando, foi interceptado por alguém que, pela calçada rente à cerca que ia sendo tomada pelas primaveras, passava.
O interceptante, atarracado, grisalho, calvície em pronunciada progressão, barba de dias, barriga saliente, visivelmente peludo, saudou-o veementemente como um seu velho conhecido, arrematando com o inevitável e constrangedor “você está lembrado de mim, não é”?
Ele, como quase sempre acontece em tais ocasiões, não estava. Todavia, como também acontece em tais ocasiões, debaixo de seu sorriso de constrangimento, disse que sim. E logo disfarçou com o chavão despistador, ao qual se recorre para que a memória tenha tempo de trazer à tona a lembrança salvadora, perguntando ao outro como tinha passado, o que andava fazendo.
O passante não se fez de rogado. Enveredou na deixa e desatou-se num contar e contar-se sem fim. Funcionário público. Fora ele quem, certa vez, levara-lhe ao conhecimento um projeto de distribuição de material aos alunos carentes. Projeto porreta. Na condição de presidente da APM daquela escola, função que ocupara durante vários anos, até que o filho deixou de ser aluno dali. Mas a política havia intervindo. Enciumados parlamentares vetaram o seu projeto. E novamente indagou se ele se lembrava daquela grande façanha social que encetara, mas que os medíocres e medrosos vereadores (entendiam que ele estava fazendo campanha eleitoral com aquilo) não permitiram seu brilho.
Ele de novo não se lembrava. Todavia, manteve-se no mesmo tom desconversador. Que as coisas eram assim mesmo. Que o importante fora a boa intenção social dele, seu gesto humanitário.
O homem aí estava denunciadamente emocionado. O rosto congestionara-se. Os olhos avermelharam-se, umedeceram-se de lágrimas. E ele disparou na exposição de sua tragédia. Aposentara-se com um salário aviltante de funcionário raso. A mulher o deixara. Um câncer encalacrara-se em seu abdômen e não mais lhe dera paz. Alastrava-se de um canto pra outro. Uma filha casada apiedara-se dele e lhe dera um puxadinho nos fundos para viver o resto dos seus dias. Não era reconhecido pelos netos, que mal e mal queriam ficar com ele. Decerto a imagem de avô que lhes fora incutida era outra…
E enquanto atabalhoadamente, desenfreadamente ia assim dizendo, já havia entrado e estava ali no jardim ao lado dele. Já o corrigia nos arranjos que procurava dar às primaveras; já apontava um cuidado que imediatamente se deveria dispensar aos coqueirinhos: podá-los de um jeito que ele sabia bem; já condenava a persistência, no canto do jardim, de umas bananeiras (não podia, quebravam toda a estética); já se indispunha contra o tratamento dado aos cambarás…
E entusiasticamente, investido da sua condição de antigo funcionário da Agricultura, que andara pelos campos lidando com os campesinos de toda ordem (também como um dos mais considerados ex-presidentes da Associação de Pais e Mestres), pusera-se a ensinar ao dirigente daquela escola as competências e habilidades devidas para um ajardinamento de sucesso.

 

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