Circulo de leitura

Circulo de leitura
Data 08/nov/2004

     Fora arrebatada pela leitura de livros por dois apaixonados leitores. Um sua professora da terceira e quarta série: dona Amália.
Numa aula de redação (em realidade toda a primeira metade do período). Talvez o gosto que tinha por ler e escrever facilitou para que logo fizesse sua composição.
Recebera o devido visto com o apontamento de alguns elogios. A classe continuava absolutamente em estado de composição. A professora em sua mesa. Lia concentradamente. Às vezes, por instantes, leitura suspensa, olhava o silêncio e mudez da classe. Parecia satisfeita.
Então também ela, que não conseguiria entregar-se ao nada, assacou da bolsa “As caçadas de Pedrinho”. Bem escoriado. Nódoas de uso por mãos nem sempre muito limpas. Empréstimo que entusiasmado lhe fizera seu Acácio, o outro.
Foi numa conversa mais prolongada. Enquanto ele ajeitava os jornais num canto do carrinho. Noutro, as latinhas que amassava antes com uma forte pisada. Noutro, as garrafas plásticas. Ela e seu Acácio descobriram que tanto uma quanto o outro gostavam muito de ler.
Ela não disse, mas disfarçadamente ficou perplexa. Um catador de papel que sabia ler e gostava. Ele confessou não somente ler aqueles jornais velhos como recortar passagens que o tocavam, para vez em quando tornar a ler. E mais confessou. Daquele parco ganho, tirava algum para comprar no sebo um ou outro livrinho, que lá apreciava nos sábados de tardezinha e nos domingos de manhãzinha.
Onde encontrara “As caçadas de Pedrinho”. Que lera com comoção. Pois rememorara a sua infância de roça. O pai meeiro. Ele ajudava nos serviços, mas tinha suas folgas. Nelas fazia suas caçadas e pescarias.
Os livros dela eram os da biblioteca do avô. Um paraíso. Embora houvesse lá todo “O sítio do pica-pau amarelo”, tomou as “Caçadas de Pedrinho” de Acácio. Em contrapartida emprestou-lhe “As mil e uma noites”.
Assim nascera entre eles aquele relacionamento de leitores. A cada ida de Acácio em busca do seu “ganha-pão” travavam a conversação e efetuavam seus empréstimos mútuos.
Absorta nas “Caçadas de Pedrinho”, despertou com dona Amália atrás reparando. Satisfatoriamente informada, dona Amália agradou-se com a idéia e quis também compartilhar daquele intercâmbio.
Acácio passou a visitar dona Amália. Mais uma fonte de suas rendas e de suas leituras. Dizia-se honrado com aquelas distintas generosidades.
Dona Amália pôde confirmar as impressões de sua aluna: seu Acácio era ótimo. Um catador de papel original, amante de leituras e agradabilíssimo conversador.
Desde então, era uma aluna que conversava e emprestava livros com seu Acácio e com sua professora, que conversava e emprestava livros com sua aluna e com um catador de papel, seu Acácio, que conversava e emprestava livro com uma estudante e com uma professora, dona Amália.
O ciclo ia assim. Até que um dia a professora e a aluna se confirmaram uma a outra que há dias nenhuma era visitada por Acácio.
Um mês já, não eram visitadas por Acácio. Meses já, não eram visitadas por Acácio. Nunca mais foram visitadas por Acácio, de quem sabiam tão-somente que defendia a vida catando papel e era perdidamente apaixonado por livros.

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