Uma incerta mosca azul

 

Data 12/jan/2006

A mosca azul decerto perdida e atraída, como a mariposa e os outros ínfimos insetos de luz, surgiu, em seu vôo turbinado, pondo-se a circundar a lâmpada.
Tratava-se de um fato singular. Pois do pouco que dela sabia, tudo girava em torno da luz do dia. Tida e havida pela sabedoria popular como a varejeira. Com seu zumbido peculiar zunindo velocíssima pelo ar à cata do mínimo cheiro de matéria morta decompondo-se. Parece, pois, que o mórbido é que lhe sustenta a vida.
Ela viera de onde, sendo plena noite fechada, sem lua, estrelas altas, escuridão da noite acentuando sua negridão e, ali, o único cheiro forte sendo o dos livros?
Entrara-lhe pela ampla janela um vertiginoso zumbido que, somente depois, a luz da lâmpada de mesa circundada permitiu vislumbrar a forma de uma mosca.
E, em um dos seus curtos repousos, pôde saber que se tratava de uma mosca azul. Uma varejeira? À noite!? Então, pôs-se ele a voejar, em retrospecção, numa velocidade oposta à da mosca, seu cotidiano noturno, já meio longevo. Em nenhuma noite vivida houvera uma mosca azul. Muitos, os insetos. Os cíclicos: a aleluia, alguns besouros, os mosquitinhos. Os mais comuns, mais freqüentes: os mosquitos domésticos, as formigas, uma barata. Os mais raros: uma desgarrada abelha, uma perdida borboleta, uma conturbada libélula. E próprios da noite: as várias espécies de mariposa – miúdas, graúdas, medianas. Nunca, entretanto, uma mosca azul feito aquela.
Voou. Voou. E num desses vôos encontrou a tela do computador. De novo voou. Agora em torno da tela. Tornou a assentar. Ficou por alguns minutos ali, estática. Os olhões esverdeados luminosos. Quem sabe, examinado as imagens. Sua tromba sugadora procurando experimentá-las. Moveu-se um pouco para um e outro lado da tela. Tudo rapidamente. E logo alçou vôo de novo.
E assentou-se na parte anterior do monitor. Abaixo ainda do botão liga-desliga. Como se naquela luz mínima esverdeada houvesse encontrado uma companhia. Sim, porque ali se deixou ficar. Parecia completamente à vontade.
Ele a um palmo dela, que se mostrava segura e indiferente. Continuava a contemplá-la, desconhecendo-se a si mesmo, cuja imobilidade advinha dessa total concentração na mosca. Talvez porque fosse noite, e ela, imóvel, abrangida pela luz da iluminaria era bem diferente da mosca azul já tantas vezes vista. Mas não assim olhada.
A memória trouxe-lhe várias situações em que a viu. Um boi. Um cão. Um gato. Um sapo. Animais mortos expostos em pastos, terrenos baldios, ruas, estradas. Putrefazendo-se, fedendo, empestando o ar e recobertos pelas azuis reluzentes varejeiras que os roíam.
Mas também lhe trouxe a memória imagens outras. Em certos campos de concentração de famintos, em Biafra, em Bangaladesh, esqueléticas, inertes, estendidas no chão, amontoadas, no regaço ou no colo de sua mãe, crianças, ainda vivas, sendo roídas por azuladas moscas.
E lhe trouxera ainda, a memória, costumeiras situações em que comensais felizes, ante a farta mesa de apetitosas comidas, em lautos almoços ou jantares, desesperarem-se, quando súbito irrompe, a mil, uma ou mais delas atraída pelo inebriante cheiro.
Ele mesmo, em situações desta, com a família, foi caçador irado delas. Não se apaziguando, senão exterminando-as, enquanto não as enxotasse de vez. E se a atingisse, deixava-a como o poleá do poema de Machado a deixou: “Rota, baça, nojenta, vil”.
Mas, ali, não se pôs a dissecá-la como fez o poleá. Pôs-se a vê-la que, com suas patas dianteiras, limpava-se metodicamente. Limpava os belos e grandalhões olhos esverdeados que se tornavam um e enorme, quando olhavam para um só lado. Limpava a tromba. Depois as patas traseiras limpavam as asas que à luz fulguravam. Depois as patas traseiras limpavam o corpo. Por fim, depois de muito limpar-se, acomodou-se um pouco mais abaixo, como que se escondendo da luz. Ali se aquietou. Por certo entregava-se ao justo sono de uma mosca azul.

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