A conquista da personagem

Data 03/maio/2004


     Rigorosamente publicava a cada cinco anos. O quinto livro já era aguardado com certo incômodo, pois o sétimo ano entrara em meses e a obra não dava sinais de vida.
Os mais próximos, acautelados, sempre achavam um jeito de tocar no assunto. Ele limitava-se a desconversar quase sempre emitindo a mesma afirmação, que, no entanto, parecia pouco convincente.
Algumas hipóteses em meio ao discreto círculo dos devotados à literatura se disseminavam. Dizia-se que o filão de seu imaginário se esgotara para a literatura. Que perdera a musa inspiradora. Que, ao contrário, a paixão era a obra que anulava a obra. Que decerto vivia a crise de quem chegou ao estágio em que a vida a menos vigorava. Que o reduzido público à sua obra tida como de leitura trabalhosa por fim o desanimara.
A todas nenhuma palavra. Nem de rebate, nem de dissuasão. Limitava-se ao direito de silêncio e de livre arbítrio à sua condição de escritor. Em matéria de literatura a palavra do escritor é sua obra. Ou a ausência dela. Um escritor não se explica quanto ao seu ato criador.
Não se deveria ver nessa atitude quaisquer sinais de arrogância. Compreendia a ansiedade de seus poucos leitores, a postura especulativa da imprensa, os prognósticos da crítica desfavorável e a apreensão da crítica favorável; o temor dos que o apontara como dos maiores. Compreendia. Contudo, tinha a convicção de que assim, com as incertezas das probabilidades, seria mesmo muito melhor.
Nenhuma justificativa conseguiria satisfazer de forma convincente. Elas iriam, isto sim, acirrar posicionamentos, insuflar discussões, exigir cada vez mais seu envolvimento em tais episódios.
Não. Reservava-se o direito de silêncio. Optava pelo efeito de seu silêncio. Insistia: não era arrogância, tampouco presunção, muito menos indiferença ou descompromisso.
Não. Não era nenhuma. Tratava-se, na verdade, de algo inconfessável, uma vez que se restringia à sua integridade pessoal. Fragilidades são reservadas ao exercício de autocrítica, de auto-análise. Não cabe, menos ainda a um escritor, expô-las ao seu exterior.
O seu romance teria sim atendido ao tempo-padrão que instituíra publicamente. Aconteceu-lhe, porém, algo perante o qual sempre se pusera cético, quando ouvia mais de um colega divulgar a perda do domínio desta ou daquela personagem. Que a personagem é que passava a exigir-lhe posturas e comportamentos.
Sua protagonista. Traçara-lhe um destino. Espécie de atração fatal ao protagonista. Corpo, alma e mente inigualáveis, irresistíveis. Dotou-a de tais qualidades, habilidades, amabilidades, sutilezas, inteligência, meiguice, beleza física aspergindo recatada sensualidade.
Enlaçar o protagonista. Cravar-lhe a seta de seu cupido. Com isso, amor cativo, lhe restabelecer a paixão pela vida a que renunciara parecia de maneira peremptória e irrevogável. Redivivo, tomaria gosto pela dificílima missão, própria a um Aquiles. Missão que ele apenas seria capaz, se o quisesse, de cumprir.
Então, o imprevisto impasse (que publicamente confessado o poria em ridículo): apaixonara-se tão perdidamente por sua protagonista a ponto de não conceber a idéia de sequer admitir o seu envolvimento amoroso com o seu protagonista.

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