Acaso

Data 12/abril/2004

     Pensou. O acaso talvez lhe desse a paz dos impossíveis. Tanto quisera ter feito. E o que fizera não só parecia pouco, como ínfimo. Com se mal tivesse se movido de modo que muita vez entendesse à exaustão. Agir pacientemente uma pessoa daquele tanto e ao fim sequer compreender o quanto de distância ainda havia.
Verdadeiramente aquele pouco lhe parecera então substancioso, que para nele aportar empenhara-se deveras. Não se tratava de ter para si nada que figurasse em demasia; nada que ostentasse extravagâncias, que pusesse em risco a falta, o desdém. Tampouco situações assemelhadas a desdouro e menosprezo.
O fato de tender a ser o quanto possa o bastante a si mesmo era uma opção de existência, não uma arrogância perante aos demais, perante a vida, perante a Deus. Solidão. Solilóquio. Situação de um sujeito que preza muito ter-se a si mesmo, sem projeções, sem quaisquer neuroses avassaladoras. A presença de outrem da forma como as circunstâncias e as naturalidades da vida delineassem. Presenças. Bem ou malquistas, que não soubesse bem se portar ante uma ou outra, ou ante ambas concomitantes. Do que não abdicava era da condição de se autodirecionar, conquanto isso já lhe tivesse acarretado dissabores não poucos. Mas considerava o conjunto de bem-aventuranças confortador.
Sim, o acaso é um comboio portador de inesperados e desconhecidos. Cabe ao homem com ele interagir. Mirá-lo. Sopesá-lo. Admiti-lo. Rechaçá-lo. Atos nada tranqüilos de se pôr em curso. O acaso quase sempre é impositor, não oferece nem possibilita escolha, opção. Traz consigo a trilha a quem se destina. É intruso. E sua irrupção nada tem a ver com as fatalidades prescritas ou impostas por ações ou medidas sobrenaturais. Irrompe como situações, fatos, sentimentos derivados dos interstícios de ações pensadas, articuladas. Do conjunto de conseqüências destas esperáveis, inesperadamente insurge o acaso. E sua força impositiva muita vez anula os obtidos resultados que se buscava e que se esperava.
Trava-se então férrea porfia entre o que se queria que se fizesse e o que se quer fazer. Duro entrevero. Pois que entre a pretensão e a gratuidade nada sobra de invalidade, de desapreço.
Nada é por acaso, a sapiente e sentenciosa afirmação. Sim, tampouco o acaso é por acaso, que, no entanto, é certamente por imponderabilidade da natureza social humana.
Gestar a vida sorvendo os amargores como efeito desses retemperos do imponderável. Não que devesse ser um paraíso, pois que o próprio paraíso sofreu solertemente suas amarguras. E geri-las com o desprendimento dos que se vêem em seu oceano apenas munidos de seu barco e remo, os quais, para não soçobrar, dependem de sua competente maestria em pilotagem. Geri-la com a imprescindível tarefa cabível aos que com sua coragem confrontadora aos medos que a circundam, que a espreitam, que a rondam, que figuram permanente ameaça, caminham na consecução do fatal fim da vida: construção/desconstrução; formação/transformação. E assim o presente sendo o futuro não-construído, o futuro prestes a, não engendrado, instaurar sua autenticação consignando-se em presente brotado pelo acaso desarraigado de quaisquer presumíveis previsões.
A consciência, que ao homem privilegia e superioriza, posto que pondere, que probabilize, tem como de suas mais caras insígnias a improbabilidade, a imponderabilidade.
Os desígnios que o acaso engendra. Os quais sofismam nítidas aparências de insaciedade, por mais inebriantes possam ser as contingentes seduções. As seduções do fácil, do inócuo. Que entumescem homens e homens de um cheio de nadas que se configuram em verdadeiro vazios. Que a esses mesmo homens, muitos, dão a dimensão e a contextura do inespesso, da indensidade. Não por acaso.

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