Uma flor

Data 05/nov/2005

A flor da cidade. Uma magnólia exposta aos olhos todos cobiçosos e reverencidores. Olhos gordos. Olhos que buscavam devassar o intransponível. Por gula, prazer, admiração, ou somente a curiosidade feita das mais diversas intenções. Desde a comparação (em que sou menos que ela?) à ânsia de identificar um defeito mínimo que deporia contra aquele absoluto esplendor.
Uma pobre cidade pequena, modesta, o seu reino. Rainha inconteste. Portadora de rara beleza que mais esplendente ficava por seu dom de bela amabilíssima. Por certo continha as rédeas da vaidade. A todos com os quais se encontrava distribuía sorriso e cumprimento. O que a credenciava ainda mais em simpatia e bem querer. Bela, inteligente e cordial. Prenda-mor que a cidadezinha, orgulhosa, ostentava e difundia.
Também a protegia como sua mais cara relíquia. Era uma defesa natural. Como um pai protege a filha. Como um pastor defende suas ovelhas. Como um bicho cuida de sua cria. Os cidadãos todos da pequena pobre cidade se comportavam como naturais guardiões daquele patrimônio público encarecido. Houvesse algo errado contra sua magna donzela, rapidamente se informavam. E medidas imediatas se tomavam.
Parecia que ninguém ali pensasse em empreender uma decisiva ação de conquista a si do coração da magna donzela. Pertencia ela – patrimônio – à alma coletiva. Logo não podia ser de um só alguém. Não que isso se discutisse. Não. Tal fato era de certo um tabu. Todo o mundo, sem o dizer, sabia-o. Ela era uma pública donzela cujo usufruto particular, mais que um abuso, seria um imperdoável ato escuso.
Magnificamente vestida a caráter, ela assimilava os cortejos, o gracejos, os motejos (os velados desejos) os inumeráveis galanteios, onde fosse. No baile de gala mensalmente promovido pelo clube. Nas concorridas festas juninas para os fundos sem fundo da igreja. No palanque-mor, para prestigiar o desfile de aniversário daquela graciosa pequena cidade pobre. No carro-mor alegórico no desfile imperdível da escola de samba do município.
Cada momento desses, mais servia para a cidade venerar a sua deusa da beleza, que tão bem aqueles ciosos cidadãos tacitamente sabiam preservar. E a cada tributo desse, retribuía com seu efusivo sorriso, com a elegância de seus gráceis gestos. Inefável flor encantadora daquele rude jardim, cujos jardineiros esmeradamente a apascentavam.
Ela conduzia-se, não obstante jovem, com a maturidade de mulher plena. Não transparecia nela traços de pressa. Embora os anos andassem. Não havia notícia de quaisquer espécimes de homem em sua vida. Isso havendo, logo se saberia.
Sim, ausentava-se, rigorosamente, nos três meses das férias de verão. Para onde, exceto a mãe, que nada dizia, não se sabia. Nem se procurava saber, por que não se sabia, tampouco por que não se poderia saber.
O certo é que veraneava. Voltava ainda mais bela sempre. Três meses de tácita apreensão. O receio de que voltasse com um homem à tiracolo. O receio de que não mais voltasse. Cansada daquela vida de pura adoração. Desejosa de passar despercebida (o que por certo seria impossível), fosse para uma grande cidade, para nunca mais.
Mas os temores não passavam de temores. Voltava dourada para seus adoradores. E sozinha, como sozinha ia. E dedicava-se aos bailes, aos desfiles. Vestida de sua inigualável beleza, de seu humor, de sua simpatia.
A cidadezinha com sua princesa. O caso ganhou a boca do mundo. Em todo recanto se sabia do encanto que ali produzia a beleza daquela mulher. Encanto de efeito comprovado: zero, o índice de criminalidade. Zero, os índices de furto e roubo. Zero, o índice de indigência. Zero, o índice de pobreza absoluta. Zero, o índice de evasão e repetência escolares. Zero, o índice de mortalidade infantil. O fato, averiguado, causava espanto. Mas era uma singularidade. Algo tão intrinsicamente próprio daquela cidade. Não se prestava como modelo. Pois que, ali, brotara, naturalmente, como uma rara flor. E tudo fora se dando de forma simples e espontânea.
Todavia, deu-se o imponderável. A donzela bela, um dia, amanheceu morta. A comoção vazou por todos os poros da cidade. Espalhou-se pelo país a sua súbita orfandade. E ninguém se atreveu a conhecer a causa-morte. Era necessário, ainda que com muita dor, respeitar o seu direito de morrer. A verdade da morte não era necessária.
Decerto mudava seu modo de reger a paz daquela cidade. Passaria a regê-la morta.

 

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