Mãe

Data 06/mai/2005

A mãe de satã
que devia ser alguma leviatã.
A mãe de David
que não imaginaria
ter um filho assim.
A mãe de Golias
que decerto sabia
daquela sua mania.
A mãe de Jesus
que por certo
pressentia a cruz
mas que também decerto
não imaginaria
ser tamanha a via crucis.
A mães de João Batista
que morreria de desgosto
se viesse a saber
de um filho tão canhoto
capaz de viver de brisa
e gafanhoto.
A mãe Menininha do Gantoá
que Caymmi tornou imortal.
A mãe dona Canô
que nos deu Bethânia
e Caetano Veloso.
A mãe de Pedro e de Paulo
que reiluminaram este espetáculo.
A mãe de Zumbi
cujo grito de guerra
acordou-nos o sangue
tupi-guarani.
As mães violentadas
por seus maridos
ou por toda ordem de desordem.
As mães nos manicômios
cujas velhices degeneradas
são incômodos.
As mães que por vários motivos
choram por seus filhos.
As mães por cujos filhos
bandidos foram desdenhadas.
As mães tão-somente
Cama, mesa e roupa
bem limpa e passada.
As mães muitas
Cujos filhos se criam nas ruas
E que as vêm como prostitutas.
A santa mãe imaculada
de cada um de nós.
A Mãe-Terra de todos
que nos dá, nos reacolhe
e nos devolve,
prediletos rebentos
que eternamente a realimentam.

Inconformada esperança

Data 03/jan/2004

 

A imagem abominável
de Hussein,
o bufo desdém do Establishment,
a rotina assassina
israelita
palestina;
a fome,
peste a que todo
o mundo se contrapõe
e no entanto a mantém;

as ditaduras empedernidas
subsistentes
na contramão da história,
subsumidas
na história da contramão;

os revertérios nazi-fascistas
em cabeças moças
escangalhadas;

os governos dos pobres
empobrecidos
ante o brilho sedutor
dos eternos ricos;

a violência,
a virulência,
a bárbara arte de matar
de uma Era humana
tida como
hirperevoluída;

dois mil e três
anos depois,
riqueza
pobreza
nobreza
poder
centro
periferia
excluídos
persistem sendo
categorias
de classificação humana.

A Terra dá mostras
de seu cansaço:
o fim de seu azul
está a passos;
súbito terremotos,
vendavais
devastam.


Somos o caos
e a ordem
desta Terra
cujo Cosmo
que a preserva
a distância enxerga
a autofagia dos filhos
que tanto a contrista.

Natal: ano novo

Natal: ano novo
Data 24/dez/1998

O horizonte
ao longe
armazenando no ventre
todos os sortilégios
que o homem
este bicho metido a mago
supõe que descobre.

O homem é movido
a horizontes.
A nostalgia do espaço
o põe a tramar.
Ser homem é tramar.

Tramar entre si.
Tramar contra si.
Tramar contra o aqui.
Tramar contra o além.

Trama
quem difama.
Trama
quem inflama.
Trama
quem ambiciona.
Trama
quem ama.

Quem difama
trama.
E ama?
Quem inflama
trama.
E ama?
E quem ambiciona?

Eis o drama:
a trama de Deus,
a trama dos judeus,
a trama de Herodes,
a trama de Jesus,
a trama de cada um de nós.

Há na história do homem
Deus e o diabo,
o espaço
os astros
e os homens.

A Faculdade

A Faculdade
Data 31/out/1998

Na pavimentação de pedregulhos
do campus
cravaram canteiros:
folhagens e flores de toda ordem.
As árvores sombrias
já são rusgas
e rugas
já que em seu ponto definitivo
de belas.
As caciporeanas
já não imperam
perante o brilho dos olhos
ao sol
e ao luar.

As chamadas liberdades democráticas
é que trouxeram
o correr do alambrado
a seu único descercado.
E aí instalaram
um posto de vigilância.

Os pavilhões
nada impávidos
em sua arquitetura
paradigmática e peculiar
prosseguem na sintaxe
hipotática de seu campus.

A biblioteca apenas,
sempre inquilina,
agora se instala
em casa própria
e distinta.
Postada ao fundo
mas acima
mesmo dos flamboiãs.

Há mais pássaros,
que árvores
adultas
os trouxeram.
Ou seus trinados
são mais audíveis
na maturidade?

Agora
pelas suas manhãs
e tardes
já não arde o silêncio
da luz,
há a perscrutar
em perambulagem
a álacre infância
e a bruta adolescência.