Solitude/solidária

Solitude/solidária
Data 21/nov/1998

Íamos descontraídos. Manhã quase a meio. Tacitamente nos recompúnhamos de uma quase tragédia de véspera. Resplandeciam ao sol um lago povoado de pássaros, gansos e pescadores; a multiplicidade do verde circundante, os paralelepípedos subindo e descendo ladeiras tornadas ruas. Ao longe o largo horizonte composto de montanhas.

Sol, verde, água e ar. Era tudo o que se podia querer depois de um grande susto. Dávamos ao corpo a livre ação de ir andando. Andando para lugar qualquer. Unicamente, se deixava o espírito em exercício. E visto estava pelos olhares aguçados a busca de aprazimento. As mãos dadas (“O presente é tão grande, não nos afastemos./ Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.”) esquecidas no mútuo reconforto: vasos comunicantes telepáticos prescindidos das palavras. Passeávamos A graça de assim sermos. Mais ainda agora depois de ruim fato de que nos sabíamos ilesos.

Íamos. No meio do caminho, para a qual não saíramos, irrompe uma bela igreja. Conquanto situada num lugar ermo, não prescindia dos requintes próprios delas. Aquela, ao contrário, avantajava-se às de muitas cidades. Fora ali que veria depois aquela andorinha que fizera ninho ao pé de São Francisco.

Andávamos. Da igreja para aonde mais fôssemos. Apraziam-nos a brisa, o sol, a paisagem a que não estávamos acostumados. As serras: enormes vales — o vácuo e o éter; as montanhas.

Agora, subíamos e descíamos as ladeiras feitas estrada em paralelepípedo. Caminhávamos para a cidadezinha próxima. Davam-na como muito bela. Andando, abertos a tudo, com pouco lá estaríamos. Às margens da estrada casas todas com compridas escadarias incrustadas em meio a vegetações. Altos barrancos rochosos recobertos de gramineas.

Curtíamos tudo e a nós mesmos. A alegria de viver. Esquecidos da miséria e opressão que sabíamos no País, no mundo. Provisoriamente que fosse, desconectados daquilo. Respirávamos a vida. Íamos reparando em seu dom pelo caminho.

Pouco antes de atingirmos a cidade, aquele lírio. O grande ramo que lhe dava suporte, apenso às rochas do barranco, curvava-se à estrada como se ofertasse a flor. Ficamos extáticos O inóspito do lugar, a multiplicidade de ervas não se nos pareciam compatíveis. Ela impediu-me que lho apanhasse. Melhor ali estar para quem mais pudesse partilhar daquele instante de delírio.

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