Em quintais

Em quintais
Data 19/dez/1998

Mesmo no interior, as casas com quintais se rarefazem. Quando os há, cimentam-nos. A civilização da cibernética parece repugnar a terra. Não obstante aconteça no planeta Terra.

A terra suja, a terra encarde. O cimento, puro concreto, conquanto dela decorra, não a lembra. O barro de que somos feito é repelido. Repugnamos aquilo que essencialmente somos. Haja vista os cemitérios. Até na morte à terra bruta, mater matéria, estranhamente nos negamos.

Pois os quintais se rarefazem. Entanto, agonicamente, alguns resistem por aí. E se fazem jardins, minipomares. Logo, quintais assim se fazem também viveiros inevitáveis. Ali moram, habitam insetos, pássaros, borboletas, abelhas, sapos, (morcegos).

Mas há um réptil que não os deixa sempre, uma espécie de lagarto. Seu hábitat mesmo são os muros . Ao quintal desce movido por alguma necessidade e logo torna ao muro. Fica como que paralítico.largo espaço de tempo. Um meio corpo erguido e a cabeça alçada argutamente perscrutando. Não costuma andar agrupado. Mais longo o muro, muito mais lagarto. É um animal, embora comum, que atrai a atenção. Parece não condizer com os bichos de agora. Mais apropriado para as eras dos dinossauros. Seus olhos triangulares, principalmente quando espreitam, vêem pelos cantos. Pálpebras derreadas. Olhos, como os de Capitu, oblíquos e dissimulados. Olhos de ressaca.

Quando menino vivia me deparando com toda ordem de bichos selvagens. Da família desse calango, impressionou-me o teiú. Um lagarto-jacaré em pleno mato. A vez que o vi, fiquei paralisado. O coração em alvoroço. Enorme, foi andando calmamente, indiferente a mim , que, com certeza, via a meia distância.

Mas desse lagarto de muro também tínhamos receio. Eu e o outros meninos, meus amigos. Havia uma história sobre ele que nos apavorava. Havia muitas outras histórias que nos apavoravam, pois nelas críamos. A da mula-sem-cabeça que soltava fogo pelas ventas. A de lobisomem. Sempre virava lobisomem um velho introvertido, esquisito que todos conheciam.

Nós o conhecíamos por papa-vento. Diz que era uma vez uma linda menina de olhos azuis, cabelos ruivos e pernas bonitas, brincava de casinha com sua boneca bonita de olhos verdes e louros cabelos no quintal de sua casa. No ir e vir de seus afazeres de senhora doninha de casa, sentou-se exausta no toco de uma mangueira que há tempos havia sido cortada. Tão entretida ia com sua boneca que não viu ali, paralítico, olhos-de-capitu, o papa-vento. Saiu gritando para dentro de casa. O papa-vento tinha grudado na sua nádega. E diz que dali só saía quando desse trovoada. Foi uma tristura. A família, todo o mundo rezando para que viesse chuva.

Estava eu mergulhado nesta lembrança, enquanto espiava um deles no muro. O papa-vento também ciganamente me espiava. E eis que num rasante surdiu um baita bem-te-vi abracando com o bico o papa-vento. Assentou no fio de energia por instantes. O lagarto se contorcia. Mas o bem-te-vi tinha o bico poderosamente grudado nele. Voou para a goiabeira. Pacientemente, buscava um jeito de comer aquele bicho muito grande para o seu bico. Mas do lagarto não desgrudava. Acho que mesmo que chovesse.

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