Invidência

Data 06/fev/2004

Não. A vida não tem medida. A sina nem é destino e não é absolutamente construída. Todavia, as vozes em prol do acaso não são tampouco completamente infundadas. Há em tudo excesso e acerto. O enigma é uma realidade da condição humana. Por mais que ceda à indômita e insaciável investigação do homem, prossegue enigma. Vivo filão de entranhas túrgidas, obscuras, indevassáveis. Plosiva mina borbulhando de matérias sucessiva e concomitantemente renováveis.
Não. Viver jamais é ir em linha reta. A retidão é o canto complacente e nacisístico meufanando suas (in)seguras e (in)sólidas verdades para o absolutismo de seu domínio feito a medo. Várias são a linhas. E, pois, se existem são reais e verdades. Há curvas, sinuosidades que certamente retas compõem.
É isso, pois. A vida é o inacontecido por vir. Vivê-la dá sabedoria para se saber vivê-la. O inaudito, o imprevisto, o não-descrito, o sabido limite-ilimite: a vida é inconcebível, embora se passe a vida interira concebendo-a.
Por exemplo: por que o acometera aquela lembrança, ali, agora, quando o olhar vazio circunvagando na distraída apreensão de inexistentes imagens; solto o pensar, nem sismarento, nem reflexivo, tampouco disposto ao elucidativo. Um olhar que, se não perscruta, também não cuida. Vai de um quadro ao nada. Do nada a outro quadro. Plantados em sua cabeça alguns fiapos caros incofessos a si mesmo. Pouco dados àquele estado. Todavia, uma viva imagem, fixa e sentida, acalanto e despedida, veementemente dissipada, enxotada. Imagem amada. Imagem para sua toda vida.
Mas nada daquilo se definia pela retidão de uma linha. Pois tudo que é vida mesmo impulsivelmente se desalinha. Vagava. Dos quadros às poucas plantas, aos móveis ainda menos. E a demorado espreguiçamento acaba ocupando desarraigada imagem. Imagem retecendo um vivido que, ao reconhecer, arrepiou-se. Não sabe se de medo ou de arrependimento, pelo que supunha jamais poderia lhe insurgir.
Mudara de espaço, se bem que tivesse vários traços de proximidade com o onde com ele convivera. Não. Havia mesmo semelhança, situações comuns. Num movimento contrário fora de alto cargo a outro abaixo, exatamente de onde ele se alçara.
Pacato homem. Cuidada mansidão. Que diziam apenas com os superiores. Um ancião em relação a ele. Contudo, a vida o tornara um superior daquele pacato e respeitabilíssimo senhor. E este lhe dispensava um tratamento refinadamente, impecavelmente, como deve dispensar um subalterno de retidão a seu superior. Era um ancião superior na arte de praticar a subalternidade. O que o deixava transtornadamente vexado, irreparavelmente incomodado. Em vão suas insistentes solicitações para aquele bom senhor não o tratar daquela forma. Nada. O ancião era todo reverência e honesta subalternidade.
E ali, agora, naquela morrinha, acomete-o aquele dia: ele diante do féretro daquele seu senhor subalterno. Queria afastar-se e não conseguia. O morto parecia nunca acabar suas reverências à generosa e honrosa presença dele ao seu passamento.

Viuvez

Data 13/fev/2004

     Pacato cidadão senil. Governava-se com pouco e uma quieta fé. Modos de homem provindo da roça. Fala calma e pausada. Riso grosso sem gargalhar. Morava com a mulher. Tinha netos crescidos. Os filhos, quase todos, e não eram poucos, aparentavam com ele mais como irmão. Davam-se bem com o pai. Visitavam-no periodicamente. E se sabia que assim era por respeito inamovível, consideração muito alta, admiração eterna. Nada tinha isso com a beatitude líder agregadora de crentes adeptos de suas espíritas pregações.
Sabia muito pouco daquela atividade dele. Quando se mudara para ali, o lugar compunha-se de três casas. A dele ocupando uma esquina, como a sua. Ao fundo um rústico templo encimado por uma cruz que se ilumina. Duas vezes por semana, à noite, a freqüência aos rituais religiosos que, por certo, ele dirige. Nessas noites, o então ermo lugar, povoava-se de automóveis de procedências municipais diversas. Testemunhos da fama de seus trabalhos religiosos.
Têm os negócios do sobrenatural, como poucos, esta extraordinária capacidade de reunir, sob um mesmo teto rústico, os muitos diferentes. É certo que sabem daquela provisoriedade. Todavia, durante esse tempo, praticam a solidariedade e o reconhecimento do outro. Ainda que, logo depois, já ali, na rua, quando reassumem a condição constituída, esqueçam o que lá dentro foram. É certo também que vão ali por si mesmos. Move-os para ali os seus interesses, as necessidades de cada um. A intercessão de um milagre de cura, por uma apaziguação do espírito, coisa, decerto, desse teor que ele com eles buscam construir sob preces e cantos e louvores. Entretanto, estas dependências comuns os igualavam ali na condição de penitentes.
E a tudo presidia com sua tranqüila conduta de homem diferenciado, sobretudo pela sua condição de ser admitido como um intermediário entre o natural e o sobrenatural. Age vive do modo como estes entes fazem. Vida simples, não-desconfortável, mas reduzida ao mínimo necessário.
Não sabia se o sustentava alguma parca aposentadoria, se os adeptos contribuíam. O certo é que tudo de seu é o mínimo: a residência, a bicicleta, as ferramentas. Ele manteve o hábito de confeccionar vassouras. Plantava-as nos terrenos baldios concedidos.
Já há muito, vivia com a segunda mulher. Soube que a viuvez o tornara mais recluso e certamente fora a responsável pela depuração daquele seu dom de espírito elevado e o impeliu a agir pelos outros com a construção do rústico e modesto templo.
À noite, dali, vinham pregações compassadas, em tom altivo. Com pausas entremeadas de dolentes cantochões. Um como outro imiscuíam pela noite ainda ali muito mais escura.
Quando lhe morrera a segunda mulher, sereno, mas abatido, dissera-lhe, conformado, todavia muito triste, que sempre julgara ser a vez dele a hora de morrer.
Não muito depois, já com ele convivia a terceira mulher. Vistosa, parecendo acentuadamente mais nova. E os anos se vão. Viam-se pouco, embora vizinhos. A nova mulher, vistosa, sempre ao lado.
Dia desses, passando em frente à casa dele, lá estava o casal na mínima área que dava para rua. Mútuos cumprimentos, calorosos de apreço. Seguiu com a imagem de uma mulher idosa, senil. E ficou por longo tempo com a forte impressão de que não lhe tardaria a terceira viuvez.

Caras – crianças

Data 16/jan/2004

     As crianças. Nelas, o reino dos céus. Significantemente estridulam alegrias. São, à vida, a cor da coragem. Impulsão ao sonhar construtivo. Criança aguça uma vontade indescritível de instaurar o singular. Criança esmera em ser ação e descoberta, insaciedade e retorno.
Quase impossível estar indiferente ante uma criança. Nela nasce o destemor movido pela curiosidade diante da qual, depois o adulto, senhor de plena consciência, terá que se resolver.
Criança é vivo segredo latente em vias de desenvolvimento. Não como o resultado de um ovo cujo fim é a repetição do modelo. Não como o resultado de uma semente em que também o ato de clonagem da natureza se estabelece. O segredo que carrega consigo está em seu indevassável espírito. Não visto, mas sabido e vulnerável às intempéries das ações dos adultos. Criança é transparência. Estampa sua têmpera. O gênio do homem bruto fica à amostra. Entregue à lapidação pelo convívio em que concorrem o adestramento, o amestramento, a educação. O bruto já se faz de criança. O culto já se faz de criança. O estúpido já se faz de criança. O fraterno, o terno, o mago, o sábio, o pulha já se fazem de criança.
Criança avança, estaciona, regride. Encanta, desvanece, emociona, desarma, rejuvenesce, surpreende. A criança, todo cuidado é pouco. Com criança, é preciso sempre estar de olho. Com criança, é conviver com o desassossego. Com criança, não é permitido estar sem tempo. Com criança, não há prioridade maior. Com criança, suspende-se o sono ininterrupto. Com criança, a pressa é verdadeiramente inimiga. Com criança, não se briga. Criança não se intimida. Criança facilmente se traumatiza.
Criança é exímia em fazer pelo diálogo. Prima pelas indagações, pelo questionamento. É versada em argumentar. Criança é solta, desenvolta, desde que a não tolham. Nada como ela é dado a perdoar. Basta se querer ver: para conquistá-la, um doce é grande engodo. A guloseima mesma da conquista é a sincera declaração de amor. Que ainda é muito incompleta, se apenas com palavras. Nada como criança é tão apto a constatar amor, quando o compõem gestos, presença, devotamento, carinho e atenção.
A candidez da criança é a toda prova, se o adulto assume a coragem de encará-la. Daí que para ela o universo é único: crianças são crianças; adultos são adultos. Não a atrai e a prende o custo de um brinquedo, mas o gosto por ele, o acesso a ele. No mundo igual e único da criança há pessoas, há animais, há comidas, há brinquedos. Em verdade, sua animalidade é que preserva o saber distinguir os que não são mãe nem pai; os que não são avó nem avô; os não-tios nem tias. Daí talvez que custem muito a compreender as proibições decorrentes das divisões de classe social. Para criança, escola é escola; automóvel é automóvel; casa é casa; brinquedo é brinquedo.
Criança é antes de tudo filho. Que pressupõe pais. Uma relação tão elementar e simples, complexa e não-fácil. A criança é filho do homem. Nela está a paternidade ou não-paternidade. Tal pai, tal filho: nem tudo, mas muito. E não há criança nem homem depois, se pai não há; muito menos ainda há criança, nem homem haverá, se mãe não houve.
Criança ri à toa. Criança sabe poucas e boas. Criança não recua por qualquer garoa. Criança é teimosa, não desacorçoa. Somente criança mais e mais se aperfeiçoa. Em confiança, criança, não importa a quem, inteiramente se doa. Criança não é alternativa, tampouco a medida paliativa. Criança é a única saída.
Um país, seu governo e seus parceiros de poder e mando têm a sua real face estampada na imagem de suas crianças. A cara das crianças é a cara de seu país.

Ser com

Data 09/jan/2004

     A vida maravilhosa ou malvada; estrepitante ou silenciosa; venturosa ou desventurosa; famosa ou anônima se encaminha para o seu fastígio único e enfático: a morte. Em que pese na sentença o tom lutuoso, tétrico, é assim.
Mas esta dádiva cuja expectativa é dar à morte o mais longo adiamento possível, dela ir ganhando as partidas, embora se saiba ser-lhe a vitória final, é o grande mistério: a vida. A vida que brota de um óvulo, de um ovo. E em forma de homem é ente dotado de inteligência. Pensa, age, cria, inventa, transforma, se emociona, chora, ri, sofre e ama. Em forma de bicho, age. Ao que se sabe, não pensa. Logo não cria, não inventa, não transforma. Age movido a sede, a fome, pelo frio, pelo calor. Porém há evidentes manifestações de dor, de irritação, de medo. Se domésticos, mais depuradas ainda. O contato, a convivência com os homens decerto.
E os cães apegados aos homens apegados aos seus cães figuram como os mais próximos ao desenvolvimento de uma inteligência animal possível e provável. O cão de uma casa é um animal humano. Tem a vida observada, interacionada com os componentes da família. Seu crescimento; seu desenvolvimento; sua infância, como a de uma criança, composta de peraltices que provocam graças e broncas. Aprendendo o modo de conviver em família. Aprendendo a comer de sua comida, a beber de sua água, a recolher-se em seu abrigo, ao mesmo tempo em que a natureza o vai movendo em seus dotes de animal canino: estranhar e latir para os que não da casa; não gostar de gatos, incondicionalmente, os que não da casa; aos dela suportar.
A sua vida fora povoada de cães. Não se lembra ter havido casa de tios, avôs em que não os houvesse. Todos tinham o seu cão, ou os seus cães. Cães com os quais as pessoas mantinham um relacionamento de afetividade. Falavam a eles. Conversavam com eles. Era uma família que passava como herança tácita o amor pelos cães. A inconcebível condição de não se ter em casa um cão. Casa sem cão é casa em falta, casa incompleta.
Também se lembra de outro aspecto comum e predominante na questão cães dos familiares: a preferência pelos de grande porte. E como fora um tempo em que cães se ganhavam de alguém, algum dono de cadela, que cruzada com um cão de outro, dava sua ninhada, cujos filhotes às vezes já eram encomendados desde a gestação, os cães eram objetos de ajustados, bons e honestos acordos. Não se tinha notícia, não se ouvia dizer de negócios de cria e venda de cães. Cães eram, quando muito bons e enternecedores presentes. Exceto, verdade se diga, as crias de cadelas vira-latas sem nenhum prestígio, ou moradoras de rua.
E o berço lhe transmitira a irrefutável necessidade de conviver com cães. E, homem seguindo o ciclo da vida, os foi tendo. Apenas não seguira o rigor do figurino preservado até uma certa geração. É que gostava também dos cães pequenos. E os teve conjuntamente com os grandes. Outra ruptura com o figurino, o ter um, quando muito dois. Ele os tivera aos três, aos quatro, aos cinco. Muitos dos ortodoxos parentes desaprovavam declaradamente tal procedimento. Ele rebatia dizendo das informalidades e casualidades. Os cães aconteciam em sua casa. Cada qual tinha uma história de origem. Origem nunca programada por ele. E os seus familiares estavam envolvidos em cada uma das histórias de aparecimento de cada um dos cães. O que parecia fortalecer ainda mais os laços afetivos entre todos eles. Acabaram por aprender que um cão era um solitário. Dois era pouco. Três era bom. Cinco era ótimo. Cada cão com seu modo de ser diferente do dos outros. E a somatória daquelas diferenças era a causa da satisfação familiar de com eles conviver. O que desarranjava, causando consternação geral e mesmo lágrimas em uns, era quando chegava a vez da morte ganhar a partida definitiva. Fato ocorrido há pouco com um querido pastor de dez anos de amorosa convivência.

Em quintais

Em quintais
Data 19/dez/1998

Mesmo no interior, as casas com quintais se rarefazem. Quando os há, cimentam-nos. A civilização da cibernética parece repugnar a terra. Não obstante aconteça no planeta Terra.

A terra suja, a terra encarde. O cimento, puro concreto, conquanto dela decorra, não a lembra. O barro de que somos feito é repelido. Repugnamos aquilo que essencialmente somos. Haja vista os cemitérios. Até na morte à terra bruta, mater matéria, estranhamente nos negamos.

Pois os quintais se rarefazem. Entanto, agonicamente, alguns resistem por aí. E se fazem jardins, minipomares. Logo, quintais assim se fazem também viveiros inevitáveis. Ali moram, habitam insetos, pássaros, borboletas, abelhas, sapos, (morcegos).

Mas há um réptil que não os deixa sempre, uma espécie de lagarto. Seu hábitat mesmo são os muros . Ao quintal desce movido por alguma necessidade e logo torna ao muro. Fica como que paralítico.largo espaço de tempo. Um meio corpo erguido e a cabeça alçada argutamente perscrutando. Não costuma andar agrupado. Mais longo o muro, muito mais lagarto. É um animal, embora comum, que atrai a atenção. Parece não condizer com os bichos de agora. Mais apropriado para as eras dos dinossauros. Seus olhos triangulares, principalmente quando espreitam, vêem pelos cantos. Pálpebras derreadas. Olhos, como os de Capitu, oblíquos e dissimulados. Olhos de ressaca.

Quando menino vivia me deparando com toda ordem de bichos selvagens. Da família desse calango, impressionou-me o teiú. Um lagarto-jacaré em pleno mato. A vez que o vi, fiquei paralisado. O coração em alvoroço. Enorme, foi andando calmamente, indiferente a mim , que, com certeza, via a meia distância.

Mas desse lagarto de muro também tínhamos receio. Eu e o outros meninos, meus amigos. Havia uma história sobre ele que nos apavorava. Havia muitas outras histórias que nos apavoravam, pois nelas críamos. A da mula-sem-cabeça que soltava fogo pelas ventas. A de lobisomem. Sempre virava lobisomem um velho introvertido, esquisito que todos conheciam.

Nós o conhecíamos por papa-vento. Diz que era uma vez uma linda menina de olhos azuis, cabelos ruivos e pernas bonitas, brincava de casinha com sua boneca bonita de olhos verdes e louros cabelos no quintal de sua casa. No ir e vir de seus afazeres de senhora doninha de casa, sentou-se exausta no toco de uma mangueira que há tempos havia sido cortada. Tão entretida ia com sua boneca que não viu ali, paralítico, olhos-de-capitu, o papa-vento. Saiu gritando para dentro de casa. O papa-vento tinha grudado na sua nádega. E diz que dali só saía quando desse trovoada. Foi uma tristura. A família, todo o mundo rezando para que viesse chuva.

Estava eu mergulhado nesta lembrança, enquanto espiava um deles no muro. O papa-vento também ciganamente me espiava. E eis que num rasante surdiu um baita bem-te-vi abracando com o bico o papa-vento. Assentou no fio de energia por instantes. O lagarto se contorcia. Mas o bem-te-vi tinha o bico poderosamente grudado nele. Voou para a goiabeira. Pacientemente, buscava um jeito de comer aquele bicho muito grande para o seu bico. Mas do lagarto não desgrudava. Acho que mesmo que chovesse.

As honras da casa

As honras da casa
Data 12/dez/1998

O filho se fazia músico. Profissionalizava-se em sua paixão. Coisa de cobiça e inveja. De quase nenhuma coragem. Comum é tornar a paixão um robe. Haveria uma audição. Momento afeito para uma participação de destaque. Expectativa e nervos abertos em casa. Ambiente afeito a clima de casamento. A mãe a mil. Leva, busca, traz, recomenda, recrimina…

Tudo em ritmo de vertigem. Tratava-se, pois, para a família, de seu virtuose. E cria que, logo, o seria ao grande público. Tudo sendo feito com esmero para dar suporte perfeito. O filho sendo o espetáculo convertia-se no bem supremo da família.

Tensão e preparativos. A mãe dissera ao pai da completa inabilidade do filho para embelezar os sapatos. Execução musical assim a caráter faz-se calçado de sapatos pretos. Os do filho estavam puídos.

O pai pegou-se em menino feito engraxate na sapataria de seu pai. Aprendera como espalhar a graxa com a mão (engraxate categorizado assim é que fazia). Escova boa tinha pêlo macio. E roçava leve e solta o sapato. Já no jeito de se pegar na escova, se conhecia o bom engraxate. Engraxate bom nada lambuza de graxa. Não suja as mãos, conquanto com elas engraxe; não mancha meia ou barra de calça. E maneja o pano de lustração com arte. O pano canta uma toada logo percebida quando em boas mãos. Adiciona gotículas de água com técnica para que a alva do brilho fique mais clara.

Era assim o garoto engraxate engraxando os sapatos dos clientes da sapataria de seu pai.

Os sapatos do filho vão perdendo a puidez. Na primeira demão a graxa escondeu o feio aparente. Readquiriu o viço da negritude original. Segunda demão, e o brilho perdido tornara. Sapato preso entre os joelhos (outra técnica do grande engraxate), gotas d’água esparzidas para impedir o embaçamento, e a cadência da flanela, cujo ritmo vai produzindo o brilho.

Sapatos e olhos se miram:: fusão de brilhos. O menino engraxate ali está todo tomado de sua arte. Tensão, energia e emoção são os suores que lhe molham. Uma coisa inigualável. Impagável: servir-se de engraxate a seu próprio filho.

Insônia

Insônia
Data 05/dez/1998

Soube-se delas já assim. Uma para a Outra. Duas mulheres sós cumprindo seu destino. Pacatas. Acomodadas. Cidadãs. Decerto, a alma calcinada pelos imperativos da crueza do real, engolindo ideais, arquivando sonhos.

Conquistas singelas, pois singelas são. Estudos rotineiros de classe média. Quase sem abalos e sobressaltos. Dinheiro pouco, contudo suficiente para ir dando anos à vida.

Por vezes, coisas de quem é vivo, deram vazão à vaidade. Não propriamente à devida aos dotes femininos. Não. Esses, tudo levava a crer que os definitivamente apagaram em si.. Mantinham honradamente a condição de mulher. Nada mais que isso. E parecia que consideravam o bastante.. Mulheres tão-somente. A feminilidade à prova. Mas não fêmeas. Optaram pela não procriação. Logo, definitivamente solteiras, e não mães naturais.

A vaidade, então, sucumbia-as a apelos de ordem social. Por exemplo, tanto uma quanto outra, se entregaram ao conto do vigário da candidatura a vereador. A politicalha, ávida de voto para a eleição a cargo majoritário, arrebatou-as à candidatura ao legislativo municipal. Não se elegeram. Obtiveram votos insuficientes para isso. Serviram, este o fim, ao senhor candidato ao cargo majoritário. Ficaram magoadas. Tornaram, felizes, à condição de ser gente comum.

E foram fiando o tecido vida, vestuário que as recobrirá no fim e as inscreverá na memória do universo dos comuns. Trata-se do familiares e dos amigos. Restrito universo. Porém, o mais caro e imortalizador.

Duas mulheres irmãs decididas à vida solitária a dois sem CPF cabeça de casal. Não obstante, sendo cabeças heterogêneas, corpos heterogêneos.

Entregaram-se uma à vida da outra. E são irmãs-mãe uma da outra. Ajudam-se mutuamente, recriminam-se entre si. Mãe passando admoestação à filha diversamente. Mãe elogiando a filha diversamente.

Entregaram-se uma à vida da outra. E são irmãs-mãe uma da outra. Ajudam-se mutuamente, recriminam-se entre si. Mãe passando admoestação à filha diversamente. Mãe elogiando a filha diversamente.

Entregaram-se uma à vida da outra. E são irmãs-mãe uma da outra. Ajudam-se mutuamente, recriminam-se entre si. Mãe passando admoestação à filha diversamente. Mãe elogiando a filha diversamente.

Desaparecendo

Desaparecendo
Data 28/nov/1998

O diagnóstico: havia que extraí-lo. Seu estado comprometia a estabilidade dos demais. O tempo de ir tenteando se esgotara. Já se metamorfosera em inimigo. Como um morto querido em decomposição. O odontólogo enalteceu a excelente qualidade atual da prótese .Ele ficou com o dente arrancado cravado na cabeça. Doía-lhe tanto não tê-lo mais. A língua a todo instante a acusar ausência dele.

Na verdade, a dor não era de dente. Já havia se acostumado com isso. Perdê-lo-ia um dia. Há alguns anos a previsão se fizera. Tinha consciência da fatalidade contra a qual tudo seria inútil. Todavia o que quase o atordoava era uma idéia que não lhe saía.

A perda do dente avivava uma fatalidade maior. Com ele se ia a própria vida. Por que o organismo se dera ao trabalho de expelir aquele dente? Não se tratava de um corpo estranho. Dispunha de uma parte sua. E se um organismo se automutila, suicida-se. Ainda que o faça para distender, como pode, a vida. O todo já não é o mesmo. O que se tem é um sopro de si. Um lembrança mutilada do que fora. O tempo desdobra o homem em muitos outros. Ao fim, nada somos do primeiro, tampouco do do meio. Na queda de um dente, ou na sua extração obrigatória, há um alarme da progressão degenerativa de uma vida desde a sua origem.

Veio-lhe o tempo do grupo escolar. Cidadezinha pacata. Pacata e pobre. Vivia das cerâmicas. Mas a escola tinha dentista. Terror deles. Ao dentista, preferia-se qualquer castigo. O motorzinho zinindo… E a aguda dor de pôr lágrimas nos olhos. Quase todo o trabalho era sem anestésico. Tinha menino que saía da cadeira aos berros.

Uma cárie de colo avançada condenara-lhe o molar esquerdo. O dente era uma panela. Tudo ali se alojava. Foi a sua primeira extração. Primeira e única até então. Agora, década após, sacrificava o outro. A homogeneidade, com ausência do dois. Uma harmonização pela falta.

Dois dentes a menos na boca. Começara o período de perdas? As rugas andavam visíveis pela face. As flacidezes. Certos achaques. Estremeceu. Caminhava deliberadamente para o nada. Não tinha até então atinado com isso. Essa perda do outro molar trouxera-lhe o aviso.

Quantos já fora? Vários. Certo, todos demandaram para ele. Mas aqueloutros, em si mesmos, não foram ele. E a seu tempo desapareceram. O retrato da carteira de identidade tirada quando ainda fazia o Tiro de Guerra é testemunha intangível. Altivo atirador. Traços másculos. Linhas indefectíveis. Claro, já antes dele, por ele, outros dois, pelo menos, passaram, se foram. Depois, ele, que ficara sendo apenas aquele retrato, foi-se.

Há agora o que perdeu o segundo molar, que tem rugas denunciadas; que deixa entrever celulites; que se pega em fadigas. Esse é. Mas vai chegar o seu tempo de também não mais ser.

E, como os outros não sabiam, não sabe se ainda outro haverá, antes que se dê a completitude.

Solitude/solidária

Solitude/solidária
Data 21/nov/1998

Íamos descontraídos. Manhã quase a meio. Tacitamente nos recompúnhamos de uma quase tragédia de véspera. Resplandeciam ao sol um lago povoado de pássaros, gansos e pescadores; a multiplicidade do verde circundante, os paralelepípedos subindo e descendo ladeiras tornadas ruas. Ao longe o largo horizonte composto de montanhas.

Sol, verde, água e ar. Era tudo o que se podia querer depois de um grande susto. Dávamos ao corpo a livre ação de ir andando. Andando para lugar qualquer. Unicamente, se deixava o espírito em exercício. E visto estava pelos olhares aguçados a busca de aprazimento. As mãos dadas (“O presente é tão grande, não nos afastemos./ Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.”) esquecidas no mútuo reconforto: vasos comunicantes telepáticos prescindidos das palavras. Passeávamos A graça de assim sermos. Mais ainda agora depois de ruim fato de que nos sabíamos ilesos.

Íamos. No meio do caminho, para a qual não saíramos, irrompe uma bela igreja. Conquanto situada num lugar ermo, não prescindia dos requintes próprios delas. Aquela, ao contrário, avantajava-se às de muitas cidades. Fora ali que veria depois aquela andorinha que fizera ninho ao pé de São Francisco.

Andávamos. Da igreja para aonde mais fôssemos. Apraziam-nos a brisa, o sol, a paisagem a que não estávamos acostumados. As serras: enormes vales — o vácuo e o éter; as montanhas.

Agora, subíamos e descíamos as ladeiras feitas estrada em paralelepípedo. Caminhávamos para a cidadezinha próxima. Davam-na como muito bela. Andando, abertos a tudo, com pouco lá estaríamos. Às margens da estrada casas todas com compridas escadarias incrustadas em meio a vegetações. Altos barrancos rochosos recobertos de gramineas.

Curtíamos tudo e a nós mesmos. A alegria de viver. Esquecidos da miséria e opressão que sabíamos no País, no mundo. Provisoriamente que fosse, desconectados daquilo. Respirávamos a vida. Íamos reparando em seu dom pelo caminho.

Pouco antes de atingirmos a cidade, aquele lírio. O grande ramo que lhe dava suporte, apenso às rochas do barranco, curvava-se à estrada como se ofertasse a flor. Ficamos extáticos O inóspito do lugar, a multiplicidade de ervas não se nos pareciam compatíveis. Ela impediu-me que lho apanhasse. Melhor ali estar para quem mais pudesse partilhar daquele instante de delírio.

Manoel de Barros

Manoel de Barros
Data 07/nov/1998

Publico hoje um pouco da poesia de Manoel de Barros. Poeta que, não obstante publique suas poesias desde 1937 (Poemas concebidos sem pecado – título do primeiro, somente a partir da publicação de O guardador de águas foi melhor observado e sua grande e original poesia foi descoberta pela crítica. O isólito, o estranhamento, a reelaboração sentido das palavras, o fragmentário imagético, a metalinguagem incessante, tudo muito impregnado de telúrico pantaneiro-universal (é matogrossense fazendeiro, residente em Campo Grande). Foi agraciado com o prêmio de poesia da última Bienal Nestlê pela sua obra Livro sobre nada, do qual transcrevo, para seu deleite, a 3a. parte que leva o mesmo título do da obra.

*
É mais fácil fazer da tolice um regalo do que da sensatez
*
Tudo que não invento é falso.
*
Há muitas maneiras sérias de não dizer nada, mas só a poesia é verdadeira.
*
Tem mais presença em mim o que me falta.
*
Melhor jeito que achei para me conhecer foi fazendo o contrário.
*
Sou muito preparado de conflitos.
*
Não pode haver ausência de boca nas palavras: nenhuma fique desamparada do ser que a revelou.
*
O meu amanhecer vai ser de noite.
*
Melhor que nomear é aludir. Verso não precisa dar noção.
*
O que sustenta a encantação de um verso (além do ritmo) é o ilogismo.
*
Meu avesso é mais visível do que um poste.
*
Sábio é o que adivinha.
*
Para ter mais certezas tenho que me saber de imperfeições.
*
A inércia é o meu ato principal.
*
Não saio de dentro de mim nem pra pescar.
*
Sabedoria pode ser que seja estar uma árvore.
*
Estilo é um modelo anormal de expresão: é estigma.
*
Peixe não tem honras nem horizontes.
*
Sempre que desejo contar alguma coisa, não faço nada; mas quando não desejo contar nada, faço poesia.
*
Eu queria ser lido pelas pedras.
*
As palavras me escondem sem cuidado.
*
Aonde eu não estou as palavras me acham.
*
Há histórias tão verdadeiras que às vezes parece que são inventadas.
*
Uma palavra abriu o roupão para mim. Ela deseja que eu a seja.
*
A terapia literária consiste em djesarrumar a linguagem a ponto que ela expresse nossos mais fundos desejos.
*
Quero a palavra que sirva na boca dos passarinhos.
*
Esta tarefa de cessar é que puxa minhas frase para antes de mim.
*
Ateu é uma pessoa capaz de provar cientificamente que não é nada. Só se
compara aos santos. Os santos querem ser os vermes de Deus.
*
Melhor para chegar a nada é descobrir a verdade.
*
O artista é um erro da natureza. Beethoven foi um erro perfeito.
*
Por pudor sou impuro.
*
O branco me corrompe.
*
Não gosto de palavra acostumada.
*
A minha diferença é sempre menos.
*
Palavra poética tem que chegar ao grau de brinquedo para ser séria.
*
Não preciso do fim para chegar.
*
Do lugar onde estou já fui embora.

FIM

(Barros, Manoel. Livro sobre nada.2a. ed.Rio de Janeiro: Record, 1996.)